Além da tela: o festival de cinema de Pequim se torna uma experiência pela cidade inteira
Evento amplia presença do cinema em Pequim com exibições ao ar livre, rotas temáticas e integração com turismo, comércio e cultura urbana
Por Chen Ziqi* - Sempre gostei daquele momento estranho, levemente mágico, depois que um filme termina. Você sai do cinema e a cena final ainda permanece na sua mente. Por um instante, o mundo lá fora parece diferente: o café na esquina, o ritmo dos transeuntes, o brilho das luzes da rua. É como se o filme ainda não tivesse acabado.
No 16º Festival Internacional de Cinema de Pequim (BJIFF), essa sensação deixou de ser obra do acaso. É algo que a cidade está deliberadamente tentando criar.
Realizado de 16 a 25 de abril, o festival deste ano busca algo mais ambicioso do que apenas exibir filmes. A proposta é transformar a própria Pequim em uma extensão da tela, com o cinema se espalhando pelas ruas, restaurantes, bairros e pela vida cotidiana.
Uma competição mais internacional
O BJIFF funciona como um ponto de encontro do cinema global, celebrando o intercâmbio cultural por meio da narrativa. Dezesseis filmes foram selecionados para o prestigioso Prêmio Tiantan, representando mais de 15 países, incluindo China, França, Reino Unido, Brasil, Vietnã e Itália, escolhidos entre mais de 1,8 mil longas-metragens inscritos. O festival também registra seu maior alcance geográfico até hoje, com produções vindas de quase 140 países e regiões.
A curadoria privilegia histórias centradas em personagens, com observação detalhada, que capturam momentos da história, da sociedade e da vida cultural. Seja acompanhando um fotógrafo que abandona uma carreira estável para se dedicar à escrita, um casal idoso enfrentando os últimos anos de vida ou uma estrela em transição para papéis coadjuvantes, esses filmes destacam experiências individuais em vez de grandes espetáculos. Dessa forma, aproximam o público do ritmo da vida comum e estimulam reflexões sobre a experiência humana compartilhada.
O júri é presidido pela atriz francesa Juliette Binoche, premiada em Cannes, Veneza e Berlim, e conta com cineastas e artistas da China, do Brasil, do Reino Unido e do Vietnã. A composição reforça a intenção do festival de se posicionar no debate cinematográfico global.
Cinema além da tela
O que torna esta edição particularmente interessante é a recusa em permanecer apenas dentro das salas de cinema.
Telões ao ar livre em distritos comerciais transmitem ao vivo as cerimônias de abertura e encerramento, enquanto sessões ao ar livre reúnem o público após o anoitecer. Imagine assistir a um filme sob o céu noturno, cercado por desconhecidos que, por duas horas, sentem exatamente o mesmo que você.
A iniciativa faz parte de uma programação mais ampla que inclui centenas de exibições e eventos culturais pela cidade, com mais de 70% dos títulos internacionais estreando na China.
Além disso, mercados temporários, parques e espaços culturais em Pequim promovem atividades temáticas relacionadas ao cinema, enquanto mais de 600 estabelecimentos participam com descontos e promoções especiais, integrando o cinema às experiências de compras, gastronomia e lazer.
No centro dessa transformação está a iniciativa “Siga os filmes para viajar”. Ela conecta produções a locais reais e convida o público a entrar nos cenários que acabou de assistir. Rotas temáticas ligam locações de filmagem a bairros históricos e pontos culturais da cidade, permitindo que visitantes caminhem por ruas tradicionais vistas nos filmes ou explorem regiões moldadas pelas histórias exibidas.
O turismo cinematográfico não é novidade. Há anos, espectadores viajam para a Nova Zelândia por causa de O Senhor dos Anéis ou para Dubrovnik por Game of Thrones. O diferencial de Pequim está na escala urbana: em vez de atrair visitantes para paisagens específicas, a proposta incorpora o cinema ao cotidiano de uma megacidade, como se toda a paisagem urbana se tornasse, silenciosamente, um grande cenário.
Essa conexão entre narrativa e espaço também aparece na seleção competitiva deste ano. Um dos filmes, All the Good Eyes, percorre quase quatro décadas ao retratar as vidas entrelaçadas de duas famílias no nordeste da China. O resultado é uma narrativa inseparável de seu ambiente, que convida o público não apenas a assistir, mas a imaginar uma visita ao local. Como afirmou o diretor Zheng Zhi em entrevista: “Há muito para comer e explorar aqui. Espero que o público venha visitar Shenyang depois de assistir ao filme.”
A ascensão da cultura cinematográfica
Essa mudança reflete uma tendência mais ampla na indústria cinematográfica chinesa. Nos últimos anos, os cinemas deixaram de ser apenas locais de exibição para se tornarem espaços de convivência. Ir ao cinema se transformou em um ritual social — amigos se encontram, casais têm encontros, famílias passam tempo juntas. Em uma era dominada por vídeos curtos e atenção fragmentada, a experiência coletiva de assistir a um filme — rir, se emocionar ou permanecer em silêncio com desconhecidos — tornou-se algo raro e, portanto, mais valioso.
A partir daí, com sessões temáticas, mercados temporários e parcerias com gastronomia, turismo e varejo, uma cultura “cinema+” vem se consolidando. O público já não compra apenas um ingresso, mas uma experiência cultural mais ampla.
Essa evolução não apenas revitaliza o mercado cinematográfico doméstico da China, como também o torna mais atraente para produções internacionais em busca de público engajado. Nesse sentido, o cinema deixa de ser apenas uma tela e passa a funcionar como uma porta de entrada para um estilo de vida cultural mais amplo.
Para quem quiser explorar melhor essa transformação, o tema também foi discutido no podcast Round Table China, que aprofunda os bastidores dessa experiência.
*Chen Ziqi é editora do podcast Round Table China




