Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Brasil e Índia ampliam parceria em minerais críticos e IA

Acordo em discussão prevê cooperação em terras raras e defesa de modelos de inteligência artificial abertos e centrados nas pessoas

Narendra Modi e Lula (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

247 - Brasil e Índia avançam para aprofundar a cooperação em minerais críticos e inteligência artificial em meio à reconfiguração das cadeias globais de tecnologia e energia. O tema está no centro da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Nova Délhi, onde participa de encontros bilaterais com o primeiro-ministro Narendra Modi. As informações são da Bloomberg.

Segundo autoridades indianas ouvidas sob condição de anonimato, por se tratar de tratativas privadas, o anúncio pode ocorrer após as conversas entre os dois líderes na capital indiana.

Lula desembarcou na Índia na quarta-feira para uma visita de três dias — a quarta desde que voltou à Presidência — e participou da Cúpula de Inteligência Artificial antes da reunião bilateral prevista para sábado. A agenda ocorre em um momento de maior mobilização das economias emergentes para ampliar sua influência sobre tecnologias estratégicas e cadeias de suprimentos consideradas decisivas para o equilíbrio global.

O movimento também se insere em um cenário de acirramento da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, especialmente nos campos da inteligência artificial e dos minerais críticos. Nesse contexto, a aproximação entre Brasília e Nova Délhi pode fortalecer a articulação de países em desenvolvimento em fóruns multilaterais como o G-20 e o BRICS, bloco do qual ambos fazem parte.

Processamento de minerais e redução da dependência

Brasil e Índia discutem formas de avançar no processamento de minerais críticos, deixando de atuar apenas como fornecedores de matérias-primas. A China concentra atualmente grande parte da extração e do refino desses insumos, enquanto outras potências buscam diversificar fornecedores e estabelecer novas parcerias estratégicas.

O Brasil abriga a segunda maior reserva mundial de terras raras e pretende ampliar sua participação nas etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva. A cooperação bilateral pode influenciar a coordenação entre economias emergentes sobre processamento de terras raras e regulação da inteligência artificial.

A visita ocorre também após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impor tarifas de 50% a Brasil e Índia. Em julho, Modi esteve no Brasil, quando os dois países concordaram em intensificar a cooperação em defesa, energia e segurança alimentar, além de reduzir barreiras não tarifárias para ampliar o comércio bilateral, conforme declaração conjunta divulgada à época.

Inteligência artificial aberta e multilingue

Na área de inteligência artificial, Brasil e Índia defendem modelos centrados nas pessoas, de código aberto e com suporte multilíngue. Durante a cúpula em Nova Délhi, Modi destacou o potencial tecnológico indiano e afirmou: “Projetar e desenvolver na Índia. Entregar ao mundo, entregar à humanidade”.

Lula também defendeu uma governança global mais inclusiva para a tecnologia. Em discurso no evento, afirmou que “o marco de governança dessas tecnologias determinará quem participa, quem é explorado e quem fica à margem desse processo”. Segundo ele, “colocar os seres humanos no centro de nossas decisões é uma tarefa urgente”.

O presidente brasileiro alertou ainda para os riscos da concentração de poder nas grandes plataformas digitais. “Quando poucos controlam os algoritmos e a infraestrutura digital, não estamos falando de inovação, mas de dominação”, declarou. Ele acrescentou que “regular as chamadas big techs está ligado ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países”.

Nos últimos anos, o Brasil tem adotado uma postura mais firme na regulação do ambiente digital, especialmente no combate à desinformação, o que gerou embates com grandes empresas de tecnologia sediadas majoritariamente nos Estados Unidos.

Paralelamente, o país tem atraído investimentos robustos no setor de tecnologia. No fim do ano passado, a ByteDance, controladora do TikTok, anunciou compromisso de US$ 38 bilhões para a construção de um complexo de data centers no Brasil. A Elea Data Centers, apoiada pelo Goldman Sachs, também planeja um projeto estimado em US$ 50 bilhões no Rio de Janeiro. No Congresso Nacional, tramita legislação voltada a ampliar a atração de investimentos em centros de dados.

Integrantes do G-20 e do BRICS, Brasil e Índia buscam, com a nova etapa de cooperação, ampliar o protagonismo das economias emergentes na definição das regras e padrões que moldarão o futuro da inteligência artificial e das cadeias globais de minerais estratégicos.

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