Brasil prepara emissão de Panda Bonds na China
Brasil prepara emissão de Panda Bonds na China para diversificar a dívida e reduzir dependência do dólar
247 - O Brasil prepara sua primeira emissão de Panda Bonds na China, uma operação com títulos públicos em yuans que busca diversificar a dívida brasileira, reduzir a dependência do dólar e ampliar a presença do país no mercado financeiro chinês em um cenário internacional marcado por incertezas, informa o jornal O Globo.
A confirmação foi feita nesta terça-feira em Pequim por Mathias Alencastro, secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda. Ele está na capital chinesa para participar de reuniões da agenda bilateral e organizar a visita de Dario Durigan à China, prevista para ocorrer dentro de duas semanas.
Os Panda Bonds são títulos de dívida emitidos no mercado financeiro chinês em moeda local. Com a iniciativa, o governo brasileiro pretende acessar investidores chineses e abrir uma nova frente de financiamento no exterior, alinhada à estratégia da Secretaria do Tesouro Nacional de ampliar alternativas para a gestão da dívida pública.
A intenção de recorrer ao mercado chinês já havia sido indicada há cerca de um ano por Durigan, então secretário-executivo da Fazenda. Agora, o plano deverá ser anunciado oficialmente durante sua passagem pela China, consolidando a aproximação financeira entre Brasília e Pequim.
“O Panda Bonds é prioritário porque representa um gesto muito importante do Brasil na sua estratégia internacional de dívida, assim como na sua relação com a China, evidentemente pelo símbolo do momento político internacional atual”, afirmou Alencastro.
Estratégia busca reduzir dependência do dólar
A emissão de títulos em yuans faz parte de um movimento mais amplo de diversificação da dívida brasileira e de fortalecimento das relações econômicas com a China. A medida também dialoga com a defesa de maior uso de moedas locais em transações internacionais, tema recorrente nas declarações do presidente Lula (PT) desde sua visita à China em 2023.
O avanço dessa estratégia ocorre em meio ao aumento do interesse de empresas brasileiras pelo mercado de dívida chinês. Esse movimento foi favorecido pelo acordo de liquidação em moeda local assinado no ano passado entre os bancos centrais dos dois países.
Em 2024, a Suzano tornou-se a primeira empresa da América Latina a emitir Panda Bonds. A operação captou 1,2 bilhão de yuans, valor equivalente a US$ 168 milhões, abrindo caminho para outras iniciativas brasileiras no mercado financeiro chinês.
Alencastro afirmou que a decisão brasileira não está ligada apenas a medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos, como os tarifaços impostos pelo governo de Donald Trump, mas a um ambiente internacional mais amplo de transformação nas relações econômicas e políticas.
“O Brasil tem buscado uma política de diversificação comercial muito bem-sucedida neste momento de adversidade internacional, e não apenas diante dos Estados Unidos, mas diante de uma reformulação das relações internacionais. A gente vê isso nos foros multilaterais e nas relações bilaterais”, disse o secretário, em conversa com jornalistas brasileiros em Pequim.
Brasil e China ampliam coordenação internacional
Segundo Alencastro, a sintonia política com a China tem sido relevante para o avanço de objetivos comuns, especialmente na defesa do multilateralismo. Ele citou os grandes encontros internacionais sediados recentemente pelo Brasil, como o G20, a cúpula do Brics e a COP30, para destacar a importância do alinhamento entre os dois países.
O secretário afirmou que o sucesso desses encontros “deve-se muito à participação, ao envolvimento e ao alinhamento com a China”.
“Nós criamos uma rotina de trabalho e de coordenação muito forte”, afirmou Alencastro.
Ele também avaliou que essa articulação deverá continuar nos preparativos para a próxima cúpula do G20, marcada para novembro nos Estados Unidos. Para o secretário, há interesse em preservar o G20 como espaço central das relações internacionais e, ao mesmo tempo, discutir formas de tornar o foro mais eficiente.
“A gente vê a necessidade de preservar o G20 como foro principal de relações internacionais e, ao mesmo tempo, aproveitar a presença dos Estados Unidos para impor algumas reformas, deixá-lo mais eficiente”, declarou.
Reunião econômica em Pequim
Nesta terça-feira, Alencastro liderou a delegação brasileira no 12º encontro do subcomitê econômico e financeiro Brasil-China. Pelo lado chinês, o vice-ministro das Finanças, Liao Min, afirmou que o mundo entrou em uma nova fase de turbulência e transformação, com desafios especialmente severos para os países em desenvolvimento.
Liao destacou o interesse da China em fortalecer o diálogo macroeconômico com o Brasil, aprofundar a cooperação financeira e ampliar a coordenação entre os dois países em fóruns multilaterais.
“A estabilidade econômica dos dois países proporciona mais certeza a uma ordem global chacoalhada”, afirmou Liao.
A preparação da emissão de Panda Bonds reforça, nesse contexto, a busca do governo brasileiro por novas fontes de financiamento e por maior integração com o mercado chinês, em uma agenda que combina dívida pública, cooperação financeira e reposicionamento internacional.





