China busca sistema de pagamentos instantâneos com o Brasil, enquanto os EUA atacam o Pix
Banco Central chinês vê potencial de cooperação com o Brasil em sistemas de pagamento para ampliar o comércio bilateral sem depender do dólar
247 - A China sinalizou interesse em aprofundar a cooperação com o Brasil em sistemas de pagamento, em um movimento que ocorre após os Estados Unidos classificarem o Pix como uma suposta “prática desleal” e em meio a discussões sobre alternativas para facilitar transferências internacionais e ampliar o comércio bilateral, relata o jornal O Globo.
O tema apareceu em comunicado do Banco Central da China publicado neste mês, que resumiu as discussões do 4º encontro do Grupo de Trabalho de Cooperação Financeira Estratégica China-Brasil, realizado em Xangai, em 9 de junho. A reunião contou com a presença do presidente do Banco Central brasileiro, Gabriel Galípolo, e abordou temas como uso de moeda local, investimentos, financiamento bilateral e pagamentos transfronteiriços.
No documento, a autoridade monetária chinesa citou o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML), mecanismo administrado pelo Banco Central do Brasil e atualmente usado em operações no âmbito do Mercosul. A menção ocorre em um momento de maior pressão dos Estados Unidos sobre o Pix, que foi incluído em uma investigação comercial americana relacionada à recomendação de tarifas de 25% sobre exportações brasileiras.
Segundo as autoridades dos Estados Unidos, o Pix seria uma política “desleal” por supostamente conceder tratamento preferencial ao Banco Central brasileiro. A avaliação americana sustenta que o fato de o BC atuar como regulador do sistema financeiro e gestor do Pix criaria um conflito de interesses, colocando provedores de pagamento dos Estados Unidos em desvantagem.
No Brasil, integrantes do governo também interpretam a ofensiva norte-americana como reflexo de preocupações mais amplas da Casa Branca com possíveis conexões diretas entre sistemas de pagamento em tempo real de diferentes países. Essa integração poderia reduzir a dependência do dólar em parte das transações internacionais, já que hoje a moeda norte-americana ainda funciona como intermediária na maioria das operações entre países.
Pagamentos transfronteiriços entram na pauta bilateral
O comunicado do Banco Central da China destacou que representantes brasileiros e chineses discutiram o potencial do SML e a cooperação em sistemas de pagamento voltados ao comércio bilateral. O texto da autoridade chinesa afirma: “ambas as partes também discutiram o potencial do SML e da cooperação em sistemas de pagamento, a fim de fornecer serviços de pagamento e compensação seguros e eficientes para o comércio bilateral”.
O SML permite que exportadores e importadores dos países conveniados façam operações usando suas próprias moedas, sem recorrer diretamente a uma moeda intermediária, como o dólar. A conversão é feita por meio da chamada taxa SML, calculada a partir da relação diária entre a taxa de câmbio de referência do real ante o dólar e a taxa de câmbio de referência divulgada pelo banco central do país conveniado.
Atualmente, o sistema é usado pelo Brasil em operações com Argentina, Paraguai e Uruguai. Nesse modelo, o Banco Central brasileiro atua apenas como intermediário, facilitando a liquidação das operações entre as partes envolvidas.
Discussões com a China ainda são preliminares
Apesar do interesse manifestado, as conversas entre Brasil e China ainda estão em estágio inicial. Não há definição sobre o modelo que poderia ser adotado em uma eventual parceria, mas uma das possibilidades seria a criação de um mecanismo semelhante ao SML para facilitar as transações comerciais entre os dois países.
A China já mantém parcerias desse tipo com outros países e, em outras ocasiões, também demonstrou interesse em integrar seus sistemas de pagamento instantâneo ao Pix. A demanda, contudo, não é exclusiva de Pequim. O Banco Central brasileiro também mantém conversas com outras jurisdições em um contexto internacional marcado pela busca de redução de custos em pagamentos transfronteiriços.
O tema ganhou relevância porque sistemas de pagamento instantâneo, quando conectados internacionalmente, podem acelerar transferências, reduzir custos e simplificar operações de comércio exterior. Ao mesmo tempo, esse tipo de integração exige decisões complexas sobre governança, tecnologia e regras de conversão de moedas.
Governança e tecnologia são desafios centrais
No caso brasileiro, o Banco Central reconhece a importância do debate, mas o tema não é tratado como prioridade neste momento. A autoridade monetária está concentrada em uma agenda voltada à segurança do sistema financeiro, enquanto também enfrenta limitações decorrentes de redução orçamentária e de quadro de funcionários.
A conexão internacional entre sistemas de pagamento não depende apenas de decisão política. Ela envolve a definição de regras de governança, modelo operacional, infraestrutura tecnológica e critérios de liquidação financeira. Um dos pontos centrais seria estabelecer como ocorreria a troca de moedas entre os países, inclusive se haveria ou não passagem pelo dólar, como ocorre no funcionamento atual do SML.
A movimentação chinesa, portanto, coloca o debate sobre pagamentos digitais e moeda local em uma nova etapa da relação econômica com o Brasil. Ao mesmo tempo, evidencia a dimensão geopolítica do Pix e de sistemas semelhantes, especialmente em um cenário de disputa sobre o papel do dólar nas transações internacionais.





