China desafia França e pode se tornar maior produtora mundial de foie gras
Com produção em forte expansão, preços mais baixos e novos produtos, produtores chineses avançam sobre um mercado historicamente dominado pelos franceses
247 – A China está prestes a desafiar a liderança histórica da França no mercado global de foie gras, iguaria feita a partir do fígado engordado de patos ou gansos. Impulsionado por custos mais baixos, subsídios públicos, aumento do consumo interno e ambições de exportação, o país asiático pode se tornar em breve o maior produtor mundial do produto.
As informações são da Reuters, em reportagem publicada a partir de Mengji, na China, e Paris. Segundo a agência, o crescimento chinês tem surpreendido produtores franceses e analistas do setor, que veem no país um novo concorrente de peso em um mercado tradicionalmente associado à gastronomia francesa.
O caso de Li Fengshan sintetiza essa transformação. Filho de uma família pobre, que durante a infância só conseguia fazer uma refeição por dia, o produtor chinês de 50 anos hoje dirige um SUV Maserati branco, comprado com os lucros crescentes de sua fazenda de gansos no leste da China.
Sua empresa, a Changhao Biotechnology, uma produtora de médio porte, fabricou 300 toneladas de foie gras no ano passado e planeja elevar a produção para 500 toneladas neste ano. Para efeito de comparação, segundo a Reuters, um produtor francês médio fabrica cerca de 10 toneladas por ano.
De iguaria de luxo a produto popular
Nos últimos dez anos, o foie gras passou por uma transformação profunda na China. Antes visto como uma iguaria de luxo, restrita a restaurantes sofisticados, o produto se tornou mais acessível e ganhou versões adaptadas ao paladar local.
Hoje, há arroz frito com foie gras, fatias cruas mergulhadas em hotpot e até sobremesas congeladas em formato de cereja ou rosa, banhadas em vinho tinto e molho de mirtilo. A diversidade de usos ajudou a ampliar o público consumidor e a estimular a produção doméstica.
Nos restaurantes chineses, uma fatia de foie gras pode custar entre 30 e 70 yuans, o equivalente a US$ 4 a US$ 10. Na França, o preço em restaurantes varia de 15 a 40 euros, ou cerca de US$ 17 a US$ 46. Essa diferença de preço é uma das razões que explicam a rápida popularização do produto no mercado chinês.
A Reuters informa que estimativas inéditas de cinco analistas do setor na China indicam que a produção chinesa de foie gras pode ter chegado a 14 mil toneladas no ano passado. O número representa um salto de cerca de 30% em relação a 2024 e contrasta com as 2 mil toneladas produzidas há cerca de uma década.
A França, ainda líder mundial, viu sua produção cair 3%, para 15.044 toneladas no ano passado. Juntas, França e China já respondem por mais de 80% da produção global de foie gras. Hungria e Bulgária também mantêm produção relevante.
França acende sinal de alerta
O avanço chinês preocupa o setor francês. Fabien Chevalier, presidente do CIFOG, grupo da indústria francesa de foie gras, reconheceu a velocidade do crescimento asiático.
"É preocupante que eles estejam se desenvolvendo tão rapidamente", afirmou Chevalier à Reuters. "Nós não os vimos chegando assim."
A avaliação é compartilhada por produtores chineses, que enxergam a expansão internacional como uma etapa natural do processo. Embora os obstáculos regulatórios ainda sejam grandes, empresas do país já começam a buscar mercados fora da China.
Li Fengshan, por exemplo, enviou 6 mil latas de foie gras para Dubai no ano passado. Para ele, a chegada do produto chinês ao exterior é apenas uma questão de tempo.
"Nossos produtos agrícolas de foie gras acabarão chegando a inúmeras mesas no exterior. É inevitável", disse Li.
Exportações ainda enfrentam barreiras
Apesar da expansão da produção, menos de 5% do foie gras chinês foi exportado no ano passado, segundo dados alfandegários e estimativas de analistas citados pela Reuters. Um dos principais obstáculos está nas próprias regras chinesas de exportação.
As autoridades alfandegárias da China exigem que produtores comprovem a ausência de cerca de 300 substâncias químicas nas aves após a vacinação. A complexidade desse processo torna a exportação difícil e custosa, mas as margens de lucro internacionais atraem cada vez mais empresas.
Alguns acordos já começam a surgir. A Jilin Zhengfang Agriculture & Animal Husbandry, maior produtora chinesa de foie gras de pato, com produção anual de 1.500 toneladas, prepara exportações para o Sudeste Asiático e a Europa ainda neste ano, segundo o gerente-geral Min Wei.
Outra empresa importante, a Shandong Chunguan Food, disse à mídia estatal chinesa em maio que havia assinado um contrato para exportar para a Coreia do Sul e negociava envios ao Japão, à Rússia e ao Sudeste Asiático. Procurada pela Reuters, a companhia não quis comentar.
Para Zhou Menghan, analista de aves da Beijing Orient Agribusiness Consultants, a China deve se consolidar como concorrente relevante da França em mercados emergentes.
"A China definitivamente será uma forte concorrente da França em alguns mercados externos, especialmente em mercados emergentes de foie gras, como o Sudeste Asiático e o Oriente Médio", afirmou.
Chevalier, do CIFOG, disse que alguns produtores chineses já começaram a aparecer em feiras internacionais e que seus produtos podem encontrar espaço no Sudeste Asiático.
"Precisaremos estar vigilantes sobre o que eles pretendem levar ao mercado", declarou.
Ainda assim, ele avalia que o mercado europeu é fortemente regulado e que os consumidores devem continuar valorizando produtos com selos tradicionais, como o foie gras du Sud-Ouest, que certifica aves criadas no sudoeste da França segundo padrões locais de alimentação.
Subsídios, trabalho intenso e fígados maiores
O aumento da produção chinesa é explicado, em parte, por subsídios generosos. No caso de Li Fengshan, os incentivos cobrem mais de 50% dos custos de infraestrutura e vacinação. Mas o produtor também atribui o crescimento a um modelo de trabalho intensivo, capaz de produzir fígados muito maiores do que os encontrados na Europa.
Cada funcionário de sua fazenda é responsável por mais de 400 gansos, do nascimento ao abate. Nos dez últimos dias de vida das aves, que vivem cerca de 100 dias, os trabalhadores atuam praticamente sem descanso para alimentar cada animal à força seis vezes por dia.
"Os europeus não conseguem mais criar um grande número de gansos, porque é um trabalho duro", disse Li, enquanto sua esposa exibia um fígado congelado de 2,9 quilos.
Na fazenda de Li, os fígados de ganso pesam pelo menos 1 quilo. Na França, onde a maior parte do foie gras é feita com pato, os fígados normalmente pesam entre 500 e 550 gramas. Os fígados de ganso, por sua vez, geralmente ficam abaixo de 750 gramas.
Li também afirmou estar em conversas com empresas de robótica para desenvolver máquinas capazes de lidar melhor do que humanos com o programa intensivo de alimentação das aves.
Controvérsia sobre bem-estar animal
O foie gras é há décadas alvo de críticas de entidades de defesa dos animais, que consideram cruel o processo de alimentação forçada, geralmente feito em gaiolas. Ativistas afirmam que a prática causa sofrimento às aves.
Representantes do setor, por outro lado, argumentam que patos e gansos não têm reflexo de vômito, o que tornaria a inserção do tubo de alimentação menos estressante do que seria para um ser humano.
Segundo a Reuters, produtores chineses minimizam a possibilidade de que preocupações com bem-estar animal impeçam o crescimento do mercado. Eles afirmam que há pouca oposição interna na China e que a demanda global pelo produto continua em alta.
A reportagem também relata que quatro fontes, que não quiseram se identificar por tratarem de uma prática ilegal, afirmaram haver contrabando significativo de foie gras chinês para outros países via Shenzhen e Hong Kong, como forma de contornar regras alfandegárias chinesas.
Segundo essas fontes, o contrabando, com o produto disfarçado como outros itens ou misturado a outras mercadorias, pode chegar a 10 toneladas por mês. O Ministério da Agricultura e as autoridades alfandegárias da China não responderam aos pedidos de comentário da Reuters sobre o tema.
Disputa global ganha novo centro
A ascensão chinesa no mercado de foie gras mostra como um produto associado à tradição culinária francesa passou a integrar a estratégia de expansão de produtores asiáticos. Com escala industrial, preços competitivos e adaptação ao consumo local, a China avança rapidamente em um setor no qual a França parecia ter posição quase incontestável.
Embora os desafios regulatórios ainda limitem as exportações, a combinação de produção crescente, demanda internacional e margens mais altas fora do país tende a aumentar a presença chinesa no mercado global. Para os produtores franceses, o novo cenário exige atenção a um concorrente que cresceu de forma acelerada e agora busca espaço nas mesas internacionais.





