Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Índia aposta em juventude e inovação para virar potência global em inteligência artificial

Índia reúne líderes globais e jovens no AI-India Impact Summit, enquanto Narendra Modi aposta em infraestrutura e inovação para virar potência em IA

AI-India Impact Summit (Foto: ANI)

247 - A Índia tenta acelerar sua corrida para se consolidar como uma potência mundial em inteligência artificial (IA), impulsionada pelo entusiasmo de milhares de jovens empreendedores e estudantes que lotaram o Bharat Mandapam, em Nova Délhi, durante o AI-India Impact Summit. O encontro reúne líderes globais de tecnologia, pesquisadores renomados, instituições multilaterais e representantes da indústria para discutir como a IA pode fortalecer sistemas públicos, promover crescimento inclusivo e contribuir para o desenvolvimento sustentável, informa a agência ANI.

Segundo o ministro da União Ashwini Vaishnaw, a presença massiva da juventude demonstra um clima de confiança e expectativa em torno do futuro tecnológico do país. Ele afirmou que cerca de 250 mil pessoas participaram do evento no dia anterior e destacou o impacto que a energia dos jovens lhe causou. “Ontem tivemos cerca de 250.000 pessoas participando. Foi uma resposta fenomenal quando interagi com as jovens mentes. Fiquei muito surpreso com o otimismo que os jovens expressaram em relação a essa oportunidade. Ao ver esse otimismo, estou realmente esperançoso por um futuro totalmente novo para o nosso país e para o mundo”, declarou.

Vaishnaw também explicou que o governo indiano aposta em uma abordagem abrangente e inclusiva para aplicar inteligência artificial em diferentes setores, com foco direto em problemas concretos enfrentados pela população. “Nós, na Índia, estamos muito esperançosos em relação à IA na ponta, IA para casos de uso, resolvendo problemas do mundo real, melhorando a produtividade nas empresas, para problemas em escala populacional como saúde e agricultura”, afirmou.

O ministro reforçou a linha defendida pelo primeiro-ministro Narendra Modi, que em entrevista à agência ANI declarou acreditar que a Índia reúne condições para deixar de ser apenas consumidora e passar a ser criadora de tecnologias avançadas em IA. Para Modi, o país dispõe de talento e energia empreendedora suficientes para transformar a inteligência artificial em motor de desenvolvimento econômico e social.

“A Índia tem o talento e a energia empreendedora para se tornar uma potência em IA, não apenas como consumidora, mas como criadora. Nossas startups, instituições de pesquisa e ecossistema tecnológico podem construir soluções de IA que aprimorem a manufatura, melhorem a governança e gerem novos empregos”, disse o primeiro-ministro.

Modi ainda apontou que a inteligência artificial pode ser direcionada às necessidades concretas do país, beneficiando agricultores, pequenas empresas, mulheres empreendedoras e inovadores comunitários. “Estou confiante de que nossa juventude pode construir soluções de IA para realidades indianas, projetadas para agricultores, MSMEs, mulheres empreendedoras e inovadores de base”, afirmou.

De acordo com o primeiro-ministro, o Orçamento da União 2026-27 reforça essa estratégia ao ampliar investimentos em data centers e infraestrutura de computação em nuvem, fortalecendo a capacidade interna do país no processamento de dados e no desenvolvimento de aplicações baseadas em IA. “Nós permanecemos comprometidos em fortalecer cada esforço de nossa juventude talentosa para fazer da IA um multiplicador de força para inovação e inclusão”, declarou.

O chefe de governo também citou o programa IndiaAI, que busca apoiar startups e centros de pesquisa oferecendo acesso a recursos avançados de computação de alto desempenho. Modi ainda destacou que o país pretende manter o incentivo à fabricação de semicondutores e à expansão da indústria eletrônica, além de fortalecer centros de excelência em IA e programas de capacitação digital.

“Em resumo, não estamos apenas nutrindo talento, mas estamos construindo a infraestrutura, o ecossistema de políticas e a base de habilidades necessárias para que a Índia passe de participar da revolução da IA para moldá-la”, disse Modi.

O ex-sherpa do G20 da Índia, Amitabh Kant, também defendeu a visão do governo e afirmou que o país possui vantagens estratégicas para liderar o setor global de inteligência artificial, desde que consiga manter o princípio da igualdade e ampliar o acesso aos cidadãos. “Eu concordo com a visão que o primeiro-ministro estabeleceu diante do país, porque a Índia tem o talento, os dados... para que quando crescermos, cresçamos com igualdade. Nós concordamos que a Índia será uma das maiores potências de IA, simplesmente por causa do talento e dos dados. Também garantiremos que haja acessibilidade para nossos cidadãos”, declarou.

Kant acrescentou que a expansão do mercado indiano de tecnologia da informação pode ter papel decisivo nesse processo e defendeu a importância das empresas do setor para sustentar o avanço da IA. “O mercado indiano de IA está se expandindo rapidamente e, apesar da IA, precisaremos que as empresas de TI desempenhem um papel fundamental... Demonstramos APIs abertas e modelos globalmente interoperáveis”, afirmou.

A perspectiva de cooperação internacional também foi destacada por Amandeep Singh Gill, subsecretário-geral da ONU e enviado especial das Nações Unidas para tecnologia digital e emergente. Ele avaliou que a Índia pode contribuir de forma relevante para países que ainda enfrentam dificuldades em avançar na área de IA, principalmente por meio do compartilhamento de infraestrutura pública digital e experiências práticas.

“A Índia tem um enorme pool de talentos, e começou a reforçar esse desenvolvimento de talentos. E acho que essas são áreas em que a Índia pode trabalhar com o resto do mundo”, disse Gill. Ele também mencionou a importância de parcerias voltadas ao uso de dados em setores como agricultura, saúde e educação, além do fortalecimento de capacidades humanas e tecnológicas.

O AI-India Impact Summit se organiza a partir de três pilares conceituais chamados de “sutras”. O primeiro é “Pessoas”, com a defesa de que a inteligência artificial deve servir à humanidade respeitando diversidade, dignidade e inclusão. O segundo é “Planeta”, que propõe alinhar inovação tecnológica com sustentabilidade ambiental. O terceiro é “Progresso”, sustentando que os benefícios da IA devem ser distribuídos de maneira equilibrada entre as sociedades.

Com essa base, o evento busca posicionar a Índia como articuladora e parceira em uma agenda internacional de cooperação em inteligência artificial, defendendo padrões compartilhados, estruturas colaborativas e soluções escaláveis voltadas ao bem público. O encontro marca ainda uma tentativa de avançar da fase de debates para a implementação concreta de políticas e iniciativas, reforçando o compromisso do país com um modelo de IA responsável e orientado ao desenvolvimento.

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