Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Irã desde 1979: entenda a cronologia de fatos que moldaram a República Islâmica

De reféns e guerra com o Iraque a sanções, disputa nuclear e conflito direto com Israel, a sucessão de choques ajuda a explicar a tensão atual no país

Protestos em Teerã antes da revolução iraniana (Foto: AP Photo)

247 – Os protestos no Irã voltaram a dominar as manchetes, com governo e oposição trocando acusações sobre a escalada de violência e Teerã atribuindo o agravamento do cenário a “interferência estrangeira”.

A Al Jazeera publicou nesta terça-feira (13) uma linha do tempo com alguns dos principais episódios que marcaram o país desde a Revolução de 1979, indicando como guerras, terremotos, sanções, disputas nucleares e intervenções regionais se tornaram parte central da identidade política iraniana.

A seguir, os marcos destacados pela cronologia, em sequência histórica, que ajudam a entender por que a crise política interna se combina, com frequência, a confrontos externos e pressões econômicas.

1979: Revolução Islâmica e início do confronto com os EUA

Em fevereiro, o aiatolá Ruhollah Khomeini retorna ao Irã após 14 anos de exílio, passando por Iraque e França.

Em abril, após referendo, o país é declarado uma República Islâmica.

Em novembro, os Estados Unidos impõem as primeiras sanções ao Irã, justificadas pela crise dos reféns na embaixada americana em Teerã. A cronologia relembra que Washington havia apoiado o xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto em 1979, e que antes também ajudou a derrubar o primeiro-ministro eleito Mohammad Mosaddegh no golpe de 1953, com apoio de agências de inteligência dos EUA e do Reino Unido.

1980–1988: Guerra com o Iraque e tragédias

Em setembro de 1980, o Iraque invade o Irã, iniciando um conflito de oito anos. Estimativas citadas pela Al Jazeera apontam cerca de 500 mil mortos, com perdas maiores do lado iraniano. O período é descrito como marcado por trincheiras em larga escala e, segundo a linha do tempo, pelo uso de armas químicas.

Em janeiro de 1981, os últimos reféns americanos são libertados, encerrando oficialmente a crise diplomática com os Estados Unidos.

Ao longo daquele ano, atentados em Teerã matam dezenas de autoridades de alto escalão. Em junho, uma explosão na sede do Partido Republicano Islâmico mata o chefe do Judiciário, Mohammad Beheshti. Em agosto, o presidente Mohammad-Ali Rajai e o primeiro-ministro Mohammad Javad Bahonar são assassinados. As autoridades responsabilizam o grupo oposicionista Mojahedin-e Khalq.

Expansão regional e choques com os EUA

Em 1982, após a invasão israelense do Líbano, o Irã passa a financiar e apoiar o que se tornaria o Hezbollah.

Em julho de 1988, um navio de guerra da Marinha dos Estados Unidos derruba um avião civil da Iran Air sobre o Golfo Pérsico, matando todas as 290 pessoas a bordo.

No mês seguinte, entra em vigor um cessar-fogo entre Irã e Iraque, mediado pelas Nações Unidas.

Mudança de liderança e desastres naturais

Em junho de 1989, o aiatolá Ruhollah Khomeini morre. No dia seguinte, Ali Khamenei é escolhido como novo líder supremo.

Em 1990, um terremoto de grandes proporções atinge o país e mata cerca de 40 mil pessoas.

Sanções e escalada nuclear

Em meados da década de 1990, os Estados Unidos impõem sanções ao setor de petróleo e ao comércio iraniano, acusando Teerã de patrocinar o terrorismo e buscar armas nucleares.

Em 1998, o Talibã admite ter matado oito diplomatas iranianos e um jornalista no Afeganistão, levando o Irã a mobilizar tropas na fronteira.

Em 2002, o então presidente americano George W. Bush inclui o Irã no chamado “eixo do mal”, ao lado do Iraque e da Coreia do Norte.

Após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, o Irã amplia sua influência regional ao apoiar milícias e grupos políticos xiitas.

No mesmo ano, Teerã anuncia a suspensão do enriquecimento de urânio e aceita inspeções mais rigorosas da ONU. A Agência Internacional de Energia Atômica afirma não haver evidências de um programa de armas nucleares.

Em 2006 e 2010, o Conselho de Segurança da ONU aprova sucessivas rodadas de sanções relacionadas ao programa nuclear iraniano.

Crise econômica e acordo nuclear

Entre 2011 e 2012, sanções internacionais se intensificam, a União Europeia passa a boicotar o petróleo iraniano e a moeda nacional sofre forte desvalorização, perdendo cerca de 80% de seu valor em relação ao dólar.

Em julho de 2015, o Irã assina o acordo nuclear com os Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China e União Europeia, conhecido como JCPOA. O pacto limita o programa nuclear em troca do alívio de sanções e gera comemorações no país.

Retirada dos EUA e confrontos diretos

Em maio de 2018, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retira o país do acordo nuclear, alegando que o pacto era insuficiente e precisava ser substituído por um “acordo melhor”.

Em janeiro de 2020, o general Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária, é assassinado em um ataque de drone americano em Bagdá.

Escalada recente e guerra com Israel

Em abril de 2024, Israel bombardeia a embaixada do Irã em Damasco, matando sete pessoas, entre elas dois generais da Guarda Revolucionária.

Em maio, o presidente iraniano Ebrahim Raisi morre em um acidente de helicóptero na província do Azerbaijão Oriental.

Em julho, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, é assassinado em Teerã, com Israel amplamente apontado como responsável.

Em junho de 2025, Israel ataca diretamente o Irã, iniciando uma guerra de 12 dias entre os dois países. O conflito deixa ao menos 610 iranianos e 28 israelenses mortos, segundo a cronologia.

A sucessão desses episódios revela como a história recente do Irã é marcada por confrontos internos e externos contínuos, criando um ambiente em que crises políticas, pressões internacionais e instabilidade social se retroalimentam.

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