Modi recebe o mais alto prêmio do Parlamento de Israel e é ovacionado na Knesset em visita que reforça parceria estratégica
Primeiro-ministro da Índia cita laços milenares, defende cooperação em defesa, investimentos e inovação e destaca vínculos culturais entre os dois países
247 – O primeiro dia da visita do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, a Israel foi marcado por símbolos de proximidade política e por recados estratégicos sobre o futuro da relação bilateral, com direito a uma cena rara na Knesset: uma ovação de pé durante uma sessão plenária especial, seguida da entrega da “Medalha do Presidente da Knesset”, a mais alta distinção concedida pelo Parlamento israelense.
Segundo a agência ANI, a honraria foi atribuída a Modi por sua “contribuição excepcional por meio de sua liderança pessoal” no fortalecimento dos laços entre Índia e Israel, tornando-o o primeiro líder estrangeiro a receber a medalha. O gesto coroou o discurso do premiê indiano e deu o tom de um encontro que procurou combinar calor humano, sinalização institucional e uma narrativa de parceria de longo prazo.
Ovação, medalha e gestos de proximidade na Knesset
A recepção dentro do plenário não se limitou à formalidade. Após a fala, parlamentares israelenses se aproximaram para cumprimentos rápidos, conversas breves e registros fotográficos, em uma sequência de gestos que, na avaliação de interlocutores presentes, procurou projetar a ideia de “camaradagem” entre duas democracias que vêm ampliando a cooperação em áreas sensíveis como defesa, tecnologia e segurança.
A cena também carregou um sentido histórico. Em 2017, Modi realizou uma visita considerada um marco, quando a relação foi elevada ao patamar de “Parceria Estratégica”. Agora, ao falar ao Parlamento israelense, o primeiro-ministro reforçou que a agenda bilateral se expandiu em escopo e ambição, sugerindo uma trajetória de continuidade política e institucional.
Pontes civilizacionais e a lembrança de mais de dois mil anos de vínculos
Ao costurar passado e presente, Modi evocou uma conexão anterior aos Estados modernos. Em um trecho de forte apelo simbólico, ele afirmou: "Muito antes de nos relacionarmos como Estados modernos, estávamos ligados por laços que remontam a mais de dois mil anos. O Livro de Ester se refere à Índia como Hodu. O Talmud registra comércio com a Índia em tempos antigos".
Na mesma linha, o premiê destacou a presença histórica de comunidades judaicas na Índia, apresentando esse fato como um elemento identitário do país. "As comunidades judaicas viveram na Índia sem medo de perseguição ou discriminação", disse, acrescentando que a preservação da fé e a participação plena na sociedade indiana seriam motivo de orgulho nacional.
A menção à convivência religiosa funcionou, no discurso, como um argumento para sustentar a ideia de afinidade política e social entre as duas nações. Ao citar referências antigas e experiências comunitárias, Modi procurou construir uma narrativa de legitimidade histórica para uma parceria que, hoje, se ancora em interesses estratégicos.
Independência, agricultura e inspiração no kibutz
Modi também recuou no tempo para vincular o relacionamento bilateral a debates políticos na Índia após a independência. Ele afirmou que discussões parlamentares indianas refletiam admiração pela transformação agrícola israelense, sobretudo pela capacidade de tornar produtivas áreas desérticas.
Nesse percurso, citou ainda o impacto do movimento dos kibutzim como inspiração para lideranças indianas, mencionando nomes como Acharya Vinoba Bhave e Loknayak Jayaprakash Narayan. Ao trazer esses exemplos, o premiê buscou sugerir que a relação entre os países não se restringe ao presente, mas inclui influências cruzadas em modelos sociais e em experiências de organização coletiva.
Defesa, economia e inovação no centro da agenda contemporânea
Ao tratar do cenário atual, Modi colocou a cooperação em defesa como um eixo prioritário. Em um mundo descrito por ele como incerto, o premiê afirmou que "uma forte parceria de defesa entre parceiros confiáveis como a Índia e Israel é de vital importância". A frase resume a aposta em convergência estratégica, com destaque para a confiança mútua como critério de aprofundamento.
Na dimensão econômica, Modi descreveu a Índia como a economia de grande porte que mais cresce nos últimos anos e disse que o país está “pronto” para se tornar uma das três maiores economias do mundo. Em paralelo, apresentou Israel como uma “potência” em inovação e liderança tecnológica, defendendo que essa combinação cria base natural para uma parceria voltada ao futuro.
O premiê detalhou metas de ampliação do comércio, do investimento e de projetos conjuntos em infraestrutura. Ele também ressaltou o papel do tratado bilateral de investimentos assinado no ano anterior. "Estamos comprometidos em expandir o comércio, fortalecer os fluxos de investimento e promover o desenvolvimento conjunto de infraestrutura. O Tratado Bilateral de Investimentos assinado no ano passado dará confiança e previsibilidade aos nossos negócios", afirmou.
Cultura, bem-estar e intercâmbio entre sociedades
Além de defesa e economia, Modi enfatizou a dimensão cultural, apontando a expansão de centros de ioga em Israel e o aumento do interesse por Ayurveda. Ele convidou jovens israelenses a visitar a Índia para conhecer tradições de “bem-estar holístico”, reforçando a estratégia de aproximar as sociedades por meio de turismo, cultura e práticas de saúde.
Ao insistir no componente humano da parceria, Modi declarou: "No coração da parceria Índia-Israel estão os laços entre nossos povos". Ele também convidou parlamentares israelenses a visitarem a Índia e aprofundarem os intercâmbios legislativos, mencionando que o Parlamento indiano criou um Grupo de Amizade Parlamentar para Israel.
Vozes da comunidade judaico-indiana em Israel destacam potencial conjunto
A visita de Modi também mobilizou membros da comunidade judaico-indiana em Israel, que expressaram entusiasmo e destacaram oportunidades ligadas à tecnologia e à escala econômica indiana. Ori Kadvil, da comunidade de Kochi, elogiou o tamanho do país e seu potencial tecnológico, afirmando ter se surpreendido ao saber que hackathons na Índia reúnem centenas de equipes.
Kadvil relatou a experiência do encontro com o premiê e disse: "Queremos unir os poderes dos nossos dois países para que possamos criar coisas maravilhosas para nossos povos e para o mundo inteiro", descrevendo a interação com Modi como “um evento interessante e alegre”.
Outro residente em Israel, Yarin Didi, apontou a combinação entre inovação israelense e mercado indiano como um caminho para ampliar a escala de novas tecnologias, com destaque para inteligência artificial. Em declaração à ANI, ele afirmou: "Estou muito orgulhoso de estar aqui hoje... Israel é conhecido por ter grande talento em termos de IA. Mas acho que a Índia tem... O mercado indiano é milhares de vezes maior do que qualquer coisa que eu tenha visto pessoalmente antes. Ambos têm o talento e o enorme potencial econômico para levar a inovação a uma escala maior".
De 1992 à parceria estratégica: uma relação em expansão
As relações diplomáticas entre Índia e Israel foram estabelecidas em 1992 e, desde então, a cooperação avançou em áreas como defesa, agricultura, gestão de água, tecnologia, inovação e desenvolvimento de capacidades. A elevação ao status de Parceria Estratégica, em 2017, foi apresentada como um ponto de virada, e o discurso atual de Modi ao Parlamento israelense buscou reforçar a continuidade desse impulso.
A combinação entre a ovação no plenário, a medalha inédita e a recepção calorosa de parlamentares procurou sinalizar uma relação que se pretende simultaneamente pragmática e sustentada por símbolos. Para os dois governos, a mensagem do primeiro dia da visita foi clara: o vínculo é tratado como estratégico, mas também como um projeto de longo prazo que tenta se ancorar em valores democráticos compartilhados, memória histórica e laços entre as sociedades.




