Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Tecnologias digitais, concorrência e inovações: pequenas e médias empresas se tornam força motriz do BRICS

Em termos gerais, as pequenas e médias empresas são responsáveis por criar de 30% a 50% dos empregos nos países do BRICS

BRICS Pay (Foto: Reprodução (imagem gerada por IA via RT))

247 - As pequenas e médias empresas (PMEs) nos países do BRICS estão se tornando motores do desenvolvimento econômico. Elas ajudam a criar postos de trabalho, um ambiente competitivo e até a implementar novas tecnologias.

Mas como os países do BRICS apoiam o desenvolvimento de PMEs, com quais dificuldades se deparam e como planejam resolvê-las? Leia no material da TV BRICS:

Plano de desenvolvimento até 2030

Em cada um dos países do BRICS, o desenvolvimento das pequenas e médias empresas é uma questão de importância nacional. Em todos os lugares, há programas de apoio, tributação simplificada, créditos e garantias do governo, acesso preferencial a compras públicas e serviços para desenvolvimento e aumento da capacidade. No entanto, é claro que todas essas medidas, bastante eficazes para cada país individualmente, podem gerar um efeito sinérgico caso haja um fortalecimento da cooperação dentro da associação. Em 2025, na reunião dos ministros da Indústria em Brasília, os países do BRICS aprovaram o plano de desenvolvimento das pequenas e médias empresas até 2030. O objetivo é estabelecer uma estreita colaboração entre os empresários dos países-membros. Isso pode abrir muitas portas para milhões de empreendedores participarem das cadeias globais de valor, apoiar inovações e exportações. "O plano de ação não é apenas um documento de orientação, mas sim um verdadeiro mapa institucional de trabalho, e temos resultados mensuráveis em cada país dos quais nos orgulhamos", comentou Lubarto Sartoyo, presidente da Aliança de Estruturas Empresariais e Empresários do Sudeste Asiático, em entrevista exclusiva à TV BRICS. Na avaliação de Vicente Barrientos, professor, politólogo e presidente do Conselho Empresarial do BRICS (Brasil, Rio de Janeiro), a aprovação do plano transformou a colaboração em grupos de trabalho permanentes. "Já podemos ver resultados concretos no país. O programa ProCred 360 oferece crédito para microempresas, o Desenrola Pequenos Negócios reestrutura dívidas com descontos de até 90%, e o fundo FAMPE tem como meta atrair R$ 30 bilhões nos próximos três anos", afirmou. Na Índia, a cooperação internacional no plano de desenvolvimento das PMEs até 2030 também tem gerado frutos tangíveis. Segundo o Sindicato Russo-Asiático de Representantes da Indústria e Empresários, entre 2024 e 2025, quase 340 empresas participaram de exposições internacionais e 5.700 participaram de conferências internacionais. "O programa para primeiros exportadores [CBFT] ajudou 89 microempresas a compensar despesas com certificação, e o treinamento nos centros tecnológicos melhora sua competitividade global", comenta Lavish Taneja, vice-presidente e chefe do setor de trabalho com a Índia do Sindicato Russo-Asiático de Representantes da Indústria e Empresários (RASPP, na sigla em inglês). Na Indonésia, o Ministério do Comércio registrou 1.217 pequenas e médias empresas que entraram no mercado global por meio do programa UMKM BISA Ekspor, gerando transações no valor de US$ 134,87 milhões (cerca de R$ 710 milhões). O objetivo de atividade empresarial da população foi superado, alcançando 3,29%.

PMEs nos países do BRICS

Os países do BRICS fundamentam a necessidade de desenvolvimento das pequenas e médias empresas por várias razões. As PMEs favorecem o desenvolvimento de um ambiente competitivo e aumentam a taxa de emprego da população, além de serem mais ágeis na implementação de inovações. De acordo com o Instituto de Finanças do Governo da Rússia, na China, o pequeno negócio responde por mais de 60% do PIB e é o responsável pela introdução de novas soluções tecnológicas. O setor de PMEs também desempenha um papel importante na economia da Índia, representando mais de 40% do PIB. No Brasil, as PMEs representam cerca de 27% do PIB, enquanto na Rússia essa porcentagem é de 20%. Nos Emirados Árabes Unidos, 30%, e na África do Sul, as pequenas e médias empresas contribuem com cerca de 35% do PIB, empregando mais de 54% da população. Em termos gerais, as pequenas e médias empresas são responsáveis por criar de 30% a 50% dos empregos nos países do BRICS. Esse é um índice bastante alto, que os governos pretendem não apenas manter, mas aumentar, inclusive por meio de benefícios fiscais. "A tributação na Rússia e nos países do BRICS é, geralmente, bastante baixa. Acredito que uma tributação baixa é a chave para o desenvolvimento econômico sustentável. A China e outros países do BRICS oferecem diversos incentivos e isenções fiscais, voltados para estimular a criação de empresas, especialmente nas áreas de alta tecnologia, inovação e pequenas empresas, como baixas taxas de impostos corporativos e IVA [imposto sobre valor agregado]", destaca o especialista em economia e relações internacionais, Guillermo Miguel Rocafort Pérez.

Modelo chinês

Atualmente, as pequenas e médias empresas são oficialmente a força motriz da economia chinesa. Estima-se que as PMEs representem de 50% das receitas fiscais, 60-70% do PIB, 68% das exportações e cerca de 70% das inovações tecnológicas. Além disso, mais de 95% das estruturas empresariais da China são de pequenas e médias empresas. Cerca de 80% da população urbana empregada trabalha em pequenas empresas. As pequenas e médias empresas na China também são um importante motor de estabilidade para a indústria global. O país já conta com mais de 600 mil PMEs de alta tecnologia e inovação. Além disso, cresce o número dos chamados "pequenos gigantes": empresas avançadas, especializadas em nichos específicos, com grande participação de mercado e um forte potencial inovador. As autoridades chinesas pretendem continuar implementando políticas de formação de agrupamentos industriais e fortalecimento das capacidades inovadoras das empresas. Dessa forma, a China tem demonstrado resultados impressionantes no apoio às PMEs, transformando-as em um elemento-chave da economia. Os especialistas consideram a China um líder indiscutível no desenvolvimento de PMEs. O sucesso chinês, segundo a maioria dos especialistas, baseia-se em uma integração profunda e histórica nas cadeias globais, digitalização total e uma forte ligação "negócio–universidade–exportação". No entanto, especialistas não consideram essa abordagem uma fórmula universal para o sucesso de todos os países. "O modelo chinês não pode e não deve ser copiado mecanicamente. Ele é resultado de décadas de evolução em condições específicas. Para os países do BRICS, especialmente aqueles com mercados em desenvolvimento, é necessário mais, e não menos, envolvimento estatal, mas na forma correta", ressalta o especialista em comércio exterior Lubarto Sartoyo.

Estratégias de desenvolvimento de pequenas e médias empresas no BRICS

Nesse sentido, quase todos os especialistas concordam que o desenvolvimento das pequenas e médias empresas nos países do BRICS não é possível sem o apoio dos governos. Além dos programas internos do governo e das isenções fiscais, o próprio fato de os países do BRICS estarem em parceria, juntamente das iniciativas e instituições do grupo, também contribui para resultados positivos: - Novo Banco de Desenvolvimento (Banco do BRICS), que promove o crescimento das economias dos países participantes; - fundo de reserva de moedas do BRICS; - fundo de seguros do BRICS, que apoia o comércio mútuo; - acordo sobre a concessão de linhas de crédito em moedas nacionais do BRICS.

Em nível local, para apoiar as PMEs, no Brasil, por exemplo, foi criado um escritório especial, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), que gerencia um programa de apoio a pequenas empresas envolvidas na exportação. Também no Brasil, há isenção do imposto de renda para as organizações que fornecem garantias de crédito para as PMEs. "No Brasil, o pequeno negócio é o principal empregador, mas não o principal investidor em tecnologia. Não temos gigantes tecnológicos privados capazes de financiar a ciência aplicada sem a participação do governo. Portanto, nesse estágio, o Brasil precisa de mais, e não menos, participação do governo, mas não na forma de administração, e sim em forma de subsídios, garantias e capital. A China passou por essa fase 20 anos atrás", comenta Vicente Barrientos. Os especialistas têm uma visão semelhante sobre a Índia, onde 99% das empresas são microempresas. "Aqui, a modelo mais eficaz é o 'governo-parceiro', que não só investe diretamente [como programas ZED 2.0], mas também cria uma 'arena digital' [pelas plataformas GeM, ONDC], reservando 25% das compras governamentais para as PMEs", afirma o especialista Lavish Taneja. A Indonésia também precisa de apoio governamental para as PMEs, que, atualmente, estão passando por uma fase difícil, enfrentando a concorrência do mercado externo e a falta de habilidades tecnológicas. O governo atua como fonte de crédito por meio do programa KUR e como iniciador de programas de digitalização, sem os quais o setor privado não pode competir no mercado global.

Dificuldades e perspectivas

As dificuldades enfrentadas pelas PMEs não são exclusivas dos empresários indonésios. Entre alguns dos problemas mais comuns ao desenvolvimento das pequenas e médias empresas em todos os países do BRICS, especialistas destacam, com mais frequência, a dificuldade de acesso ao financiamento e a infraestrutura limitada. "As limitações mais persistentes são o financiamento, a baixa produtividade e as capacidades de gestão, além da desigualdade digital. Nos próximos três a cinco anos, a política voltada para as PMEs nos países do BRICS provavelmente se tornará mais condicional e orientada para resultados. O financiamento, a adoção de tecnologias digitais e o cumprimento de requisitos aumentarão o risco de um cenário duplo: as PMEs digitais escalarão mais rapidamente, enquanto as microempresas e as informais ficarão para trás", compartilha Éric Escalona Aguiar, professor associado da Universidade Bernardo O'Higgins, em Santiago do Chile, especialista em economia e comércio internacional. No entanto, apesar dos riscos de uma possível disparidade entre as PMEs digitais e as tradicionais, os especialistas ainda consideram a implementação de tecnologias digitais e IA um dos mecanismos mais eficazes para o desenvolvimento e aumento da competitividade das pequenas e médias empresas nos países do BRICS. "A digitalização melhora o desempenho das PMEs principalmente pela redução dos custos de transação [pagamentos digitais, faturas eletrônicas], expansão do alcance de mercado [e-commerce, plataformas] e distribuição mais eficiente de créditos com base em análise de dados", observa Escalona Aguiar, em entrevista à TV BRICS. Para ele, ao lado de outras iniciativas do BRICS, a digitalização, assim como os investimentos adicionais, pode dar às pequenas e médias empresas dos países do grupo um forte impulso para o crescimento. "Para resolver a situação das PMEs, os países do BRICS estão trabalhando estrategicamente em várias áreas, como a transformação tecnológica acelerada, na qual a IA desempenha um papel crucial, a integração mais profunda nas cadeias regionais de valor e o fortalecimento da cooperação financeira Sul-Sul", enfatiza Guillermo Miguel Rocafort Pérez, em entrevista à TV BRICS. Dentro de alguns anos, com o aumento dos esforços nessas áreas, os especialistas esperam resultados significativos do plano de desenvolvimento das pequenas e médias empresas aprovado pelo BRICS em 2025. Isso permitirá que as pequenas e médias empresas dos países da associação participem da formação das cadeias globais de valor, implementem inovações e expandam as exportações.

Este artigo foi elaborado por Svetlana Khristoforova.

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