Vietnã mira crescimento de 10% ao ano e aposta em inclusão social até 2030
Congresso do Partido Comunista aprova metas de inovação, combate à pobreza, expansão do seguro-saúde e transição verde com neutralidade de carbono em 2050
247 – O Vietnã definiu um plano de desenvolvimento que combina aceleração do crescimento econômico com metas sociais e ambientais para a próxima fase de sua estratégia nacional. No início do 14º Congresso Nacional do Partido Comunista do Vietnã, encerrado nesta semana, o secretário-geral reeleito Tô Lam afirmou que o país precisa sustentar uma expansão anual acima de 10% pelo restante da década, apesar das turbulências internacionais.
Segundo reportagem do Brasil de Fato, o congresso reuniu cerca de 1.600 delegados e aprovou diretrizes para o período de 2026 a 2030, consolidando objetivos ambiciosos de crescimento do PIB, modernização industrial, redução da pobreza e avanço na transição energética. Ao abrir o encontro, Tô Lam declarou: “O Vietnã deve alcançar um crescimento econômico de mais de 10% ao ano para o restante da década, apesar de dificuldades e desafios globais”.
Metas econômicas aceleradas e corrida por inovação
O eixo central do planejamento é a meta média de crescimento de 10% ao ano entre 2026 e 2030, o que colocaria o Vietnã entre as economias de expansão mais rápida do mundo. Para viabilizar esse salto, a estratégia combina inovação, desenvolvimento tecnológico, modernização industrial e ampliação de infraestrutura, com foco em transporte, energia e conectividade digital.
O desempenho recente foi usado como base para justificar o otimismo. Em 2025, o PIB vietnamita cresceu cerca de 8%, o melhor resultado desde 2011, impulsionado por indústria, serviços e comércio exterior. No quarto trimestre, o crescimento chegou a 8,46%, a maior taxa trimestral em mais de uma década, sinalizando uma retomada forte após períodos de instabilidade global.
A direção partidária também estabeleceu metas de longo prazo: transformar o Vietnã em uma economia de alta renda até 2045 e elevar o PIB per capita para cerca de US$ 8.500 até 2030. Para isso, o plano prioriza setores de alto valor agregado, como tecnologias verdes, inteligência artificial, manufatura avançada e infraestrutura digital.
Reforma do Estado e ambiente de investimentos
Além do investimento produtivo, a liderança vietnamita apresentou reformas administrativas para reduzir burocracia e aumentar a eficiência estatal. O objetivo é acelerar processos de licenciamento, investimentos e comércio, criando um ambiente mais previsível para empresas e projetos estratégicos.
A lógica é direta: para sustentar um crescimento de dois dígitos, o país precisa ampliar capacidade de execução, encurtar prazos e dar escala a obras de infraestrutura e políticas industriais. Nesse desenho, a modernização estatal aparece como peça-chave para manter o ritmo de expansão e, ao mesmo tempo, organizar a transformação tecnológica e energética.
A estratégia busca conciliar planejamento nacional e atração de capital, combinando investimentos internos, estímulos à inovação e integração ao comércio global. O país vê a modernização industrial como motor para elevar produtividade e renda, ampliando o salto de uma economia baseada em manufatura e exportações para um patamar de maior complexidade tecnológica.
Crescimento com combate à pobreza e distribuição de renda
O plano aprovado no congresso não se limita a metas macroeconômicas. A diretriz é atrelar crescimento acelerado à redução das desigualdades, com foco em pobreza multidimensional, renda e acesso a serviços essenciais. Entre os objetivos, está reduzir a pobreza multidimensional para menos de 1% da população até 2030 e elevar a renda média per capita, promovendo uma distribuição mais equilibrada dos ganhos econômicos.
Um dos indicadores centrais é a ampliação do seguro-saúde para mais de 95% dos vietnamitas, reforçando a agenda de proteção social em escala nacional. O país também apresentou números que indicam avanços recentes. Em 2023, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) chegou a 0,766, com expectativa de alcançar 0,78 até 2030.
O combate à pobreza aparece como ponto de legitimidade do projeto político. Entre 2021 e 2025, a pobreza multidimensional caiu de 4,4% para cerca de 1,3%, resultado associado a políticas sociais, programas de assistência, seguro-saúde universal e iniciativas de habitação acessível. O fortalecimento do setor privado e, sobretudo, das pequenas e médias empresas foi apontado como alavanca de emprego, enquanto investimentos em educação e qualificação buscam ampliar a participação popular nas oportunidades abertas pelo crescimento.
O desenho enfatiza que crescimento sem inclusão tende a produzir tensões sociais e limites de sustentabilidade política. Por isso, o plano combina expansão produtiva, investimento social e mecanismos de proteção, com foco na elevação da qualidade de vida, no acesso a serviços básicos e na criação de oportunidades.
Transição verde, neutralidade de carbono e adaptação climática
A sustentabilidade ambiental foi incorporada ao planejamento como dimensão estruturante. Entre as prioridades, está a neutralidade de carbono até 2050, acompanhada pela expansão de energias renováveis, incluindo solar, eólica e hidrelétrica. O objetivo é reduzir gradualmente a dependência de combustíveis fósseis sem interromper a industrialização, buscando eficiência energética e queda de emissões.
O plano também prevê reflorestar milhões de hectares de áreas degradadas e investir em tecnologias verdes como parte da modernização econômica. A ambição é avançar na indústria e na infraestrutura sem ampliar vulnerabilidades ambientais e climáticas, especialmente em um país exposto a inundações, tempestades e ao aumento do nível do mar.
Nesse capítulo, a estratégia inclui planejamento urbano sustentável, proteção de recursos hídricos e adaptação às mudanças climáticas. A integração entre crescimento e metas ambientais aparece como tentativa de evitar que a expansão acelerada pressione de forma irreversível os ecossistemas e os territórios mais frágeis.
Unidade partidária, organização social e política externa
A condução do projeto depende, segundo os dirigentes, da estabilidade institucional e da coesão interna do Partido Comunista do Vietnã. O congresso definiu a composição do Comitê Central, com 200 membros, sendo 180 titulares e 20 suplentes, responsável por conduzir o país até 2031. Após o encerramento, Tô Lam foi reconduzido ao cargo de secretário-geral, garantindo continuidade na direção política.
A defesa da unidade interna foi apresentada como condição para transformar metas em resultados concretos. Tô Lam afirmou: “A unidade interna é o alicerce que garante que nossas metas econômicas e sociais se tornem realidade”. A liderança também reforçou a importância da inserção do Partido na vida social, econômica e cultural, por meio de associações de base, sindicatos, cooperativas e movimentos comunitários, com mobilização popular e participação cidadã em projetos nacionais.
No campo externo, o Partido Comunista do Vietnã reafirmou princípios de independência, soberania, multipolaridade e não alinhamento, buscando cooperação pragmática com China, Estados Unidos e União Europeia, sem subordinação a alianças militares. O país também destacou a manutenção de relações históricas com países socialistas, com menções a Cuba e Venezuela.
Um exemplo citado foi a mobilização do “Ano da Amizade Vietnã-Cuba”, que marcou 65 anos de relações diplomáticas em 2025. No período, a Cruz Vermelha do Vietnã organizou uma campanha que arrecadou mais de 600 bilhões de VND (cerca de US$ 23 milhões) para apoiar necessidades básicas e infraestrutura em Cuba, reforçando a solidariedade entre os dois países.
Com metas econômicas de alto impacto, compromissos sociais mensuráveis e uma transição verde ancorada em prazos, o planejamento vietnamita para 2026 a 2030 busca sustentar crescimento acelerado e, ao mesmo tempo, reduzir desigualdades e ampliar serviços públicos. A equação, agora, dependerá da execução: manter o ritmo do PIB, elevar produtividade e renda e cumprir objetivos sociais e ambientais em um cenário global que segue marcado por instabilidade e competição tecnológica.



