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China reconfigura a economia global e expõe a crise do Ocidente, diz Richard Wolff

Economista afirma que a ascensão chinesa acelera a fragmentação europeia e empurra os EUA a “drenar” aliados numa tentativa final de conter China e BRICS

China reconfigura a economia global e expõe a crise do Ocidente, diz Richard Wolff (Foto: Reprodução)

247 – A ascensão da China como potência econômica e tecnológica é, hoje, o fator decisivo por trás da desorientação estratégica do Ocidente, do enfraquecimento da coesão europeia e da guinada cada vez mais agressiva dos Estados Unidos na disputa por hegemonia global, segundo o economista Richard Wolff. A avaliação foi apresentada em entrevista ao professor Glenn Diesen, publicada no YouTube, em que o professor analisa a crise do sistema internacional, o futuro do Ocidente, o papel da Europa e as tensões que cercam a OTAN.

Falando a partir de Nova York, Wolff sustenta que o fenômeno central não é apenas a personalidade do presidente Donald Trump — o atual presidente dos Estados Unidos — nem um suposto “desvio” norte-americano, mas a incapacidade histórica do Ocidente de lidar com uma transformação que não previu. Em sua síntese, “o verdadeiro problema aqui é a China” e “a China está mudando tudo”, impondo um novo eixo de poder econômico e político diante do qual Washington e seus aliados estariam sem estratégia consistente.

A “histeria” do declínio e a impotência diante da ascensão chinesa

Wolff organiza seu diagnóstico em chave histórica. Ele relembra que o poder global dos Estados Unidos se consolidou ao longo do século 20 com o enfraquecimento relativo das potências europeias após as guerras mundiais e com a Guerra Fria como estrutura de sustentação de uma ordem internacional liderada por Washington. Com o colapso da União Soviética, diz ele, a elite política norte-americana entrou num “momento unipolar”, tomado por uma confiança exagerada de que o país poderia “herdar o mundo” e impor, sem contestação real, seu projeto de globalização neoliberal.

No entanto, esse roteiro teria colidido frontalmente com um obstáculo que o Ocidente subestimou. “E então surge que há mais um obstáculo… não é a Europa, não é a América… é a China”, afirma Wolff. Para ele, não se trata apenas de um crescimento incremental: o salto chinês seria o maior fenômeno econômico contemporâneo. “Eles vieram mais longe e mais rápido do que qualquer desenvolvimento econômico do qual tenhamos registro”, diz, ao comparar a transformação do país em poucas décadas.

A consequência, segundo Wolff, é uma sensação de descontrole no centro do poder ocidental. Ele afirma que, nos últimos 30 anos, a China cresceu de forma sistematicamente superior à dos EUA e da Europa, sem que ameaças militares, pressão diplomática ou acordos econômicos tenham conseguido frear esse movimento. “Tudo falhou. Eles não desaceleram”, enfatiza. Em seguida, aponta um dado recorrente em seu argumento: “Este ano, eles terão um crescimento do PIB duas ou três vezes maior do que o dos Estados Unidos — e isso tem sido a norma por 30 anos”.

Estados Unidos tentam “drenar” aliados e impor nova subordinação

Na leitura do economista, a resposta norte-americana não teria produzido uma estratégia de longo prazo, mas uma reação de curto prazo baseada na exploração direta dos aliados históricos. Wolff descreve esse movimento como uma tentativa de “drenar” o império informal dos EUA — especialmente as economias mais ricas do G7 — para financiar uma última corrida contra a ascensão chinesa e contra a articulação geopolítica de novos polos globais, incluindo o BRICS.

Segundo ele, a lógica seria simples e brutal: se “o tempo está do lado da China”, Washington estaria buscando ganhos imediatos, impondo custos aos aliados que durante décadas estiveram sob sua proteção e liderança. “Precisamos de uma solução de curto prazo”, resume Wolff, antes de concluir: “Vamos drenar nosso império… os membros mais ricos do G7… Europa, Canadá, Japão e México. Vamos drenar todos eles”.

O economista observa que essa postura não se limita a Trump como figura individual, mas se insere no declínio estrutural do poder ocidental. Ainda assim, ele afirma que o estilo do atual presidente dos EUA cristaliza e acelera a tendência, rompendo normas e tornando explícitas práticas que antes eram camufladas pelo discurso diplomático. Wolff chega a classificar o fenômeno como um produto da própria crise: “A histeria chega ao ápice… produz nos Estados Unidos um palhaço como presidente”. Para ele, essa figura política expressa a disposição de abandonar regras e tratar aliados como alvos de chantagem econômica.

Nesse contexto, Wolff cita a relação com a União Europeia e menciona a possibilidade de acordos coercitivos envolvendo tarifas e exigências de compras e investimentos nos EUA. Em um dos trechos mais contundentes, ele descreve um cenário em que os EUA ameaçam impor tarifas “terríveis” e, como alternativa, oferecem tarifas “moderadas” condicionadas à aceitação de compromissos bilionários. Ele menciona, inclusive, a compra de gás natural liquefeito norte-americano e a transferência de investimentos europeus para a economia dos EUA como parte dessa suposta barganha.

A consequência, segundo Wolff, é que a Europa ficaria presa num dilema impossível: ao mesmo tempo em que se comprometeria com rearmamento e confrontação estratégica, seria obrigada a sacrificar sua capacidade de investimento interno e, especialmente, o modelo social construído no pós-guerra. “Cinco minutos de aritmética mostram que você não pode fazer isso”, afirma, defendendo que a subordinação europeia ao eixo norte-americano se tornou economicamente incompatível com a manutenção do bem-estar social.

A crise europeia e o nacionalismo como trava histórica

Wolff também dedica parte significativa de sua análise à Europa, que, em sua visão, enfrenta uma crise dupla: a dependência estratégica dos EUA e uma incapacidade política de superar o nacionalismo. Ele afirma que a construção europeia jamais conseguiu romper completamente com as rivalidades internas, e que isso impede a formação de um polo autônomo capaz de reagir ao novo mundo multipolar.

Para o economista, o nacionalismo europeu é um fenômeno histórico profundamente enraizado, originado na transição do feudalismo ao capitalismo e perpetuado por séculos. Ele recorre a uma analogia para ilustrar como as divisões internas europeias parecem irracionais para uma mentalidade mais integrada: seria como se, nos EUA, as pessoas fossem “fanáticas” por estados específicos, como “Nova Jersey contra Wisconsin”, em vez de se reconhecerem como parte de um mesmo projeto nacional.

Essa limitação estrutural explicaria por que, diante do reordenamento global, a Europa se revela vulnerável à pressão norte-americana e incapaz de articular uma estratégia independente. Para Wolff, a crise do Ocidente é também uma crise de imaginação política: o continente segue preso ao reflexo de antagonizar a Rússia e de buscar proteção em Washington, mesmo quando essa proteção se transforma em submissão econômica.

Rússia, China e o novo eixo eurasiático

Ao discutir a relação entre China e Rússia, Wolff concorda com o diagnóstico apresentado por Glenn Diesen sobre o papel decisivo da reorientação estratégica russa a partir de 2014. Ele reconhece que Moscou passou por transformações profundas no último século — revolução comunista, colapso soviético, reorganização interna e mudança de eixo geopolítico — enquanto, em sua leitura, o Ocidente permaneceu preso ao mesmo padrão de comportamento.

Wolff resume a diferença com uma frase dura: “A Europa e o Ocidente não fizeram nada comparável”. Para ele, China e Rússia se mostraram mais adaptáveis e mais capazes de reformular projetos nacionais e estratégicos, enquanto os EUA e seus aliados permaneceram presos à crença de que estratégias passadas poderiam continuar funcionando indefinidamente.

Nesse ponto, o economista faz uma observação irônica sobre o comportamento dos líderes ocidentais: enquanto Trump ocupa o noticiário com declarações diárias e gestos performáticos, Xi Jinping e Vladimir Putin falariam menos porque, em sua visão, não precisam intervir. “Eles estão falando um com o outro todas as noites, em descrença diante da autodestruição do Ocidente”, diz Wolff, sugerindo que o conflito contemporâneo envolve tanto economia e tecnologia quanto desgaste interno do mundo atlântico.

Guerra, nuclearização e o risco de uma escalada irracional

Ao ser questionado por Glenn Diesen sobre o risco de guerras de grande escala, Wolff afirma que existe um debate real dentro do establishment norte-americano. Ele diz haver uma divisão entre os que defendem confrontos mais cedo — por entenderem que o tempo não favorece o Ocidente — e os que avaliam que uma guerra direta é inviável no mundo nuclear.

“Há um grupo sério… que argumenta: lute a guerra mais cedo, não mais tarde”, afirma Wolff, citando o exemplo de setores que desejariam bombardear o Irã imediatamente. Mas ele ressalta que há outro campo que considera essa lógica suicida: “Vivemos em uma era nuclear e essa é uma carta que não pode ser jogada”.

Ele também recorre à experiência histórica para sustentar sua cautela: o fracasso dos EUA no Vietnã, a derrota no Afeganistão e os impasses no Iraque e na Ucrânia serviriam como alerta sobre os limites do poder militar, especialmente quando enfrentam resistências prolongadas. Em uma passagem marcante, Wolff menciona que os EUA recorrem a ações indiretas justamente porque não conseguem sustentar guerras longas com tropas em territórios difíceis.

Crise social nos EUA e explosão de desigualdade

A análise de Wolff se estende ao interior dos Estados Unidos, onde ele enxerga uma erosão acelerada do consenso social. O professor afirma que a desigualdade econômica atingiu níveis históricos e que a população está cada vez mais furiosa com a precarização do trabalho e a perda de renda. Em sua avaliação, esse quadro é combustível direto da instabilidade política.

Ele menciona um dado que descreve como revelador: os 10% mais ricos responderiam por mais de metade do consumo do país, enquanto os 90% restantes dividiriam menos da metade. O economista também aponta sinais de radicalização social, mencionando como exemplo a convocação de uma greve geral em Minneapolis em janeiro de 2026, em um movimento que, segundo ele, remeteria ao período da Grande Depressão.

Para Wolff, essa crise interna explica por que a retórica populista consegue capturar parte do eleitorado: ela vocaliza a sensação de perda de controle. Mas ele conclui que o governo atual não oferece mudanças estruturais e se limita à performance midiática. “Eles votaram nele… e ele não está mudando nada”, afirma, dizendo que Trump aprendeu a dominar o ciclo de notícias, mas não apresentou soluções reais para as contradições econômicas do país.

O “segredo” da China: pragmatismo e economia híbrida

Ao final da entrevista, Wolff faz um movimento inesperadamente propositivo. Ele defende que, se o objetivo é compreender o crescimento acelerado chinês, o Ocidente deveria abandonar debates ideológicos estéreis e investigar a engenharia econômica concreta que permitiu a modernização do país. “A pergunta número um deveria ser: o que os chineses descobriram?”, diz, citando Adam Smith e a questão clássica sobre a riqueza das nações.

Na interpretação do economista, a China evitou tanto a rigidez estatal absoluta quanto a idolatria do mercado: construiu uma economia híbrida, combinando iniciativa privada e forte presença estatal. “Eles produziram uma economia híbrida… algo em torno de 50/50 entre privado e estatal”, afirma, destacando o pragmatismo como chave. Para ele, o Ocidente, ao contrário, elevou a primazia do setor privado a uma espécie de dogma.

Ele chega a ironizar o debate ocidental entre “Estado ou mercado”, dizendo que essa disputa seria tão absurda quanto perguntar “qual é melhor: terça-feira ou sexta-feira?”. Em sua visão, a política econômica deveria ser julgada por resultados, não por pureza ideológica.

Europa pode se reposicionar e negociar de outra forma, sugere Wolff

Wolff encerra com uma provocação que amplia o alcance político de sua análise: a Europa, em tese, poderia sair da posição subalterna se rompesse com a lógica de alinhamento automático aos EUA e buscasse uma reinserção estratégica no mundo multipolar. Ele menciona como hipótese a possibilidade de um rearranjo europeu que considere negociações com China e Rússia, e cita até rumores de que o presidente francês Emmanuel Macron teria cogitado aproximação com o BRICS — ainda que ressalte não saber se isso ocorreu de fato.

O ponto central, porém, é que a Europa ainda seria um mercado rico, com centenas de milhões de consumidores e menor desigualdade do que os EUA, o que lhe daria margem para construir acordos mais equilibrados. Wolff lembra que a China se fortaleceu exigindo transferência tecnológica e integração produtiva nos contratos com empresas estrangeiras, em vez de aceitar a simples condição de colônia industrial.

Ao sugerir que a Europa poderia aprender com esse modelo, Wolff aponta que um reposicionamento estratégico exigiria coragem política e ruptura com a mentalidade da Guerra Fria. Para ele, insistir em tratar a Rússia como ameaça central e agir como apêndice de Washington só acelera a decadência.

A entrevista termina com um tom de pessimismo prudente: Wolff vê o Ocidente em crise porque se recusa a se transformar, enquanto China e Rússia souberam mudar — e mudaram rápido. Ainda assim, ele aponta uma fresta: se sociedades europeias e norte-americanas pressionarem por reformas profundas e por um novo pacto econômico, talvez ainda haja espaço para mudanças comparáveis às que reconfiguraram a Eurásia nas últimas décadas.

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