Com "Abacatudo" e "Moranguete", "Novela das Frutas" preocupa psicólogos; entenda
Conteúdo viral criado por IA mistura humor e temas sensíveis, gerando alerta sobre impactos psicológicos em crianças e jovens
247 - A chamada “Novela das Frutas”, fenômeno impulsionado por vídeos curtos nas redes sociais, tem ganhado popularidade ao apresentar personagens como “Abacatudo” e “Moranguete” em histórias polêmicas e humanizadas. Produzido com o uso de inteligência artificial, o conteúdo levanta preocupações entre especialistas sobre possíveis efeitos psicológicos, especialmente em crianças e adolescentes, conforme reportagem do Metrópoles.
Os vídeos são criados por diferentes usuários e frequentemente incluem elementos como linguagem ofensiva, preconceito, misoginia e sexualização. As narrativas, estruturadas como pequenos episódios no estilo reality show, conquistam o público com enredos envolventes e personagens caricatos, rapidamente impulsionados pelos algoritmos das plataformas.
A psicóloga Maysa Nóbrega explica que esse tipo de conteúdo pode ser classificado como “brain rot”, termo utilizado para descrever materiais superficiais e de consumo rápido. “Estamos em uma sobrecarga de informações muito grande. Chega informação de todo lugar, então esses vídeos oferecem uma válvula de escape, porque são histórias, muitas vezes, graves, como frutas em corpos humanos. É estranho, mas a parte emocional é familiar, porque são situações do dia a dia, coisas que a gente vê, lê e acompanha em notícias”, afirmou.
Segundo a especialista, o formato contínuo desses vídeos, com ganchos que estimulam o espectador a assistir ao próximo episódio, favorece um consumo prolongado e pouco reflexivo. “Isso contribui para uma dessensibilização, porque banaliza situações. Com isso, as pessoas vão normalizando situações, como traições, violência e morte. O cérebro se acostuma com coisas fáceis. Tudo que exige mais reflexão vai sendo deixado de lado. Você ri, esquece, e é nesse esquecimento que acontece a banalização”, destacou.
A psicóloga Victória Pannunzio avalia que o uso de personagens animados pode suavizar a percepção de temas delicados. “O espectador sabe, no fundo, que as frutas não têm sentimentos e não sentem dor. Mas ainda assim, podem se identificar com a história que contam ali. Ainda sentem emoções decorrentes daquele conteúdo, mas, dessa vez, as emoções presentes são de menor magnitude, permitindo que aquele indivíduo expresse e reflita sobre elas com um certo afastamento emocional”, explicou.
Ela acrescenta que o consumo desse tipo de conteúdo também pode funcionar como uma forma de escapismo. “O indivíduo, mesmo os adultos, precisam de um cenário lúdico para imaginar e criar. Expressar a dor, pautar o sofrimento e as violências. E a arte é o cenário perfeito para isso”, afirmou.
Apesar do aspecto aparentemente leve, especialistas alertam para os riscos do consumo frequente, sobretudo entre o público infantil. Maysa Nóbrega destaca que o cérebro humano ainda não está preparado para lidar com o volume intenso de estímulos das redes sociais, o que torna esses conteúdos ainda mais atraentes.
“Se o conteúdo está na internet, ele pode chegar até a sua criança. Em algum momento, seu filho pode cruzar com um vídeo que aborda esses temas. Na infância, o acompanhamento precisa ser mais direto. Você vai precisar observar, conversar e orientar”, alertou.
Victória Pannunzio também chama atenção para a estética dos vídeos, marcada por cores vibrantes e elementos visuais semelhantes aos de desenhos infantis, o que amplia o alcance entre crianças. Segundo ela, essa combinação entre aparência lúdica e conteúdo sensível exige atenção redobrada dos responsáveis.
“É preciso estar atento ao controle parental e educar os pais para que se mantenham vigilantes sobre o acesso de seus pequenos a conteúdos explícitos. O controle parental oferecido pelas plataformas muitas vezes se mostra ineficiente e ainda expõe os pequenos a conteúdos nocivos. É preciso conversar com seu filho, orientar as crianças e se manter atento aos sinais”, concluiu.


