HOME > Agro

Caiado atrai o agronegócio e pode tirar votos de Flávio Bolsonaro

Ex-governador de Goiás mobiliza o setor que era visto como um dos pilares da campanha de Flávio Bolsonaro

Ronaldo Caiado (Foto: Wesley Costa / Flickr Governador Ronaldo Caiado)

247 - A entrada de Ronaldo Caiado (PSD) na disputa presidencial altera o cenário político e impacta diretamente o apoio do agronegócio, setor estratégico que vinha se aproximando de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A movimentação do ex-governador de Goiás desacelera a adesão ao senador e introduz um novo fator de divisão entre lideranças rurais que, até então, avaliavam consolidar apoio ao campo conservador, informa o jornal O Globo.

A chegada de Caiado ao páreo interrompeu uma estratégia gradual de aproximação do agronegócio com Flávio Bolsonaro, que contava com o histórico alinhamento do setor ao bolsonarismo desde 2018. Lideranças passaram a adotar uma postura mais cautelosa, evitando manifestações públicas de apoio e mantendo diálogo com diferentes pré-candidatos.

Mesmo com desempenho inferior nas pesquisas, Caiado possui forte relação com o agronegócio. Durante sua gestão em Goiás, adotou políticas consideradas favoráveis ao setor, o que fortalece sua imagem entre produtores rurais. Dados do Ministério da Agricultura indicam que o estado registrou crescimento de 23% nas exportações de grãos em 2025, reforçando a percepção positiva de sua administração.

O impacto político da candidatura já é percebido internamente no setor. O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles, sintetizou o momento: “O agronegócio vai ficar dividido entre Caiado e Flávio no primeiro turno. Não tem uma preferência. O setor está muito vocacionado nesses dois nomes e ainda está acompanhando o cenário”.

A estratégia do agronegócio, segundo Meirelles, envolve a apresentação de uma pauta comum aos candidatos, incluindo demandas como segurança jurídica no campo, previsibilidade para o Plano Safra, ampliação do seguro rural e melhorias em infraestrutura, especialmente armazenagem. Esse conjunto de propostas já foi entregue tanto a Caiado quanto a Flávio Bolsonaro.

A entrada de Caiado também traz peso simbólico e histórico. Médico e pecuarista, ele foi um dos fundadores da União Democrática Ruralista (UDR), organização que ganhou notoriedade nos anos 1980 ao defender a propriedade privada em meio a conflitos fundiários. Esse histórico deve ser explorado em sua pré-campanha, com o discurso de “padrinho do agro” sendo utilizado em peças de comunicação.

Entre as medidas recentes adotadas em Goiás que reforçam sua imagem junto ao setor, destacam-se a extinção da contribuição ao Fundo Estadual de Infraestrutura — conhecida como “taxa do agro” —, a destinação de recursos para obras logísticas no campo e a revisão de multas aplicadas a pecuaristas.

Enquanto isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que buscará a reeleição, também tenta ampliar o diálogo com o agronegócio, embora enfrente resistências. Declarações consideradas controversas pelo setor e divergências ideológicas dificultam a aproximação, mesmo diante de iniciativas como o aumento de recursos no Plano Safra.

No campo bolsonarista, a mudança no cenário é vista como um revés. O agronegócio era considerado um dos pilares da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, capaz de conferir sustentação econômica e política. Agora, o apoio se tornou mais disputado.

O coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), minimizou o impacto da entrada de Caiado e afirmou: “O setor sabe da afinidade que temos com ele, e vamos procurar todos na hora certa. Não será difícil”.

Ainda assim, dentro da bancada ruralista não há consenso. O deputado Evair de Melo (PP-ES) avaliou que a nova candidatura eleva o nível da disputa: “Caiado com certeza qualifica o debate e endurece ainda mais o enfrentamento à esquerda. Melhor o Lula correr e ir preparando sua defesa”.

Diante da fragmentação do apoio, ganha força a possibilidade de composição política envolvendo a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Ex-ministra da Agricultura, ela é vista como um nome com forte interlocução no setor e potencial para ampliar a adesão.

Questionada sobre a possibilidade, Tereza Cristina evitou confirmação direta e declarou: “Depende de muitos fatores, como os partidos que vão coligar. Tenho certeza de que ele vai escolher o melhor nome para que tenha sucesso”.

O cenário, por ora, indica que o agronegócio deve manter posição estratégica, dividido entre candidaturas e buscando preservar influência na definição dos rumos da eleição presidencial.

Artigos Relacionados