Exportações brasileiras ao golfo caem com crise em Ormuz
Queda de 31% reflete impacto logístico da guerra iniciada por Donald Trump contra o Irã
247 - O bloqueio do Estreito de Ormuz, em meio ao conflito iniciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã, interrompeu a trajetória de crescimento das exportações brasileiras para países do golfo Pérsico, resultando em uma queda de 31,47% em março na comparação anual, com vendas somando US$ 537,11 milhões, segundo dados oficiais do comércio exterior. As informações foram divulgadas com base na plataforma ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), e na Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB), segundo a Folha de São Paulo.
Apesar da retração no mês mais crítico do conflito, a balança comercial com a região ainda registrou superávit de US$ 41,4 milhões em março, mesmo diante do aumento de 113% nas importações. No acumulado do primeiro trimestre de 2026, as exportações brasileiras para países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Bahrein e Omã cresceram 8,14%, atingindo US$ 2,41 bilhões, enquanto o saldo positivo chegou a US$ 1 bilhão
Impacto no agronegócio e nos principais produtos
O agronegócio, responsável por cerca de 75% das exportações brasileiras à região, foi fortemente afetado pela crise logística. Em março, o setor registrou queda de 25,38%, embora ainda acumule alta de 6,8% no trimestre, com US$ 1,44 bilhão
Produtos tradicionais sofreram retração significativa. O açúcar caiu 43,37%, totalizando US$ 54,07 milhões, enquanto o milho praticamente deixou de ser embarcado para o golfo. Por outro lado, o café apresentou desempenho positivo, com crescimento de 34,24% em março e de 64,3% no trimestre
Entre as proteínas, a carne de aves — principal item da pauta agropecuária — teve queda de 13,8% no mês, somando US$ 185,5 milhões. Já a carne bovina registrou avanço de 24,7% em março e de 65,29% no acumulado do ano
"O desempenho maior da carne bovina expressa uma valorização do preço médio desse produto e não da quantidade exportada. O preço da carne para exportação subiu. Mas o efetivo em toneladas mostrou um recuo", afirmou Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro
Custos logísticos e interrupções comerciais
Especialistas apontam que o conflito no Oriente Médio provocou uma série de entraves logísticos. O professor Celso Grisi, da FEA-USP, destacou que o fechamento do Estreito de Ormuz e o aumento dos riscos elevaram significativamente os custos de transporte
Segundo ele, os armadores passaram a cobrar "taxas de guerra", além de rotas alternativas mais longas, como o desvio pelo continente africano, o que ampliou despesas com frete e seguros
"Em síntese, o crescimento das vendas para países árabes é uma tendência estrutural impulsionada pela dependência alimentar da região e pela qualidade/certificação da carne brasileira, mas esse fluxo enfrenta severas interrupções logísticas durante picos de conflito", afirmou Grisi
Mercados estratégicos e tendências
Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos seguem como os principais destinos das exportações brasileiras, respondendo por 46,2% e 38,5% do total, respectivamente. Entre os produtos mais vendidos estão carnes de aves (34,6%), ouro não monetário (10,2%), açúcar (10,1%) e carne bovina (8,7%)
Mesmo com as dificuldades recentes, o mercado halal continua resiliente, com o Brasil consolidando sua posição como maior exportador global desse segmento. Em 2025, as exportações de carne bovina para países árabes já haviam registrado crescimento
Importações e fertilizantes
Do lado das importações, houve aumento expressivo na compra de fertilizantes, que subiu 268% em março em relação a fevereiro, alcançando US$ 30 milhões. Parte dessas cargas foi enviada por via aérea a partir do Qatar, como alternativa ao bloqueio marítimo
Já as importações de petróleo e derivados apresentaram queda em março, mas ainda acumulam crescimento de 29,5% no trimestre, totalizando US$ 1 bilhão
O cenário evidencia que, embora a demanda estrutural permaneça elevada, as tensões geopolíticas continuam sendo um fator determinante para o desempenho do comércio entre o Brasil e os países do golfo Pérsico


