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Delcy diz que Venezuela “amadureceu” após agressão dos EUA

Dirigente relata que sequestro de Maduro consolidou unidade nacional e defende diálogo com Donald Trump e Marco Rubio como caminho para reduzir tensões

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, em Caracas - 11/08/2025 (Foto: REUTERS/Gaby Oraa)

247 – A presidenta encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou na terça-feira (3) que o país “se transformou e amadureceu” depois da agressão militar lançada no início de janeiro pelos Estados Unidos, operação que, segundo Caracas, culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. As declarações foram publicadas pela RT Brasil.

Segundo Rodríguez, o impacto da ofensiva norte-americana teria sido convertido em coesão social e em um redobrado compromisso interno com a paz. Ela falou em discurso no Palácio de Miraflores, em Caracas, descrevendo a reação popular como um processo de recuperação marcado por “maturidade” e “consciência” coletiva, mesmo após tentativas de desestabilização.

“Transformou a agressão em tranquilidade” e defesa da paz

No pronunciamento, Delcy Rodríguez sustentou que a Venezuela teria reagido ao ataque sem cair em um ciclo de convulsão interna. Ela disse que o país teria “transmutado” o choque em estabilidade e em um cuidado maior com a paz social.

"A Venezuela se transformou e amadureceu com o impacto da agressão dos Estados Unidos. Transmutou-o em tranquilidade, em cuidar hoje mais do que nunca da paz", afirmou.

A dirigente também declarou que, nas horas seguintes à operação, “grupos extremistas” teriam buscado “gerar caos” e “alterar a tranquilidade cidadã”, mas que essa movimentação não teria prevalecido. Para ela, a resposta popular foi de recomposição rápida e de busca por convergência.

"O povo se recuperou com grande maturidade, com grande consciência", disse, acrescentando que os venezuelanos teriam dado “passos importantes na direção do encontro nacional”.

Unidade nacional e recado a Washington: “diferenças devem ser tratadas diplomaticamente”

Rodríguez afirmou que o episódio teria reforçado um sentimento de unidade nacional em torno da rejeição a intervenções externas. Na avaliação apresentada por ela, a agressão teria produzido um efeito inverso ao pretendido, impulsionando a coesão interna e a exigência de respeito à soberania.

"Se há algo que uniu os venezuelanos é a rejeição a esse tipo de agressão", declarou.

Em seguida, ela defendeu que impasses e conflitos entre Caracas e Washington precisam ser conduzidos por canais formais e políticos, sem ações militares. A fala estabelece, como eixo, a ideia de que disputas devem ser resolvidas por negociação, e não por força.

"As diferenças, as controvérsias, as divergências com o governo dos EUA devem ser tratadas de forma diplomática, por meio do diálogo político e diplomático bilateral", afirmou.

Dentro dessa linha, Rodríguez disse ter mantido conversas telefônicas recentes com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e com o secretário de Estado, Marco Rubio. A dirigente venezuelana apontou que esse tipo de contato deveria orientar o relacionamento bilateral, com base em “respeito” e em regras internacionais.

"Esse deve ser o caminho, o respeito, o respeito à legalidade internacional, o respeito interpessoal, saber que é possível construir uma agenda de trabalho conjunta", disse.

A operação de 3 de janeiro e o sequestro de Nicolás Maduro, segundo Caracas

De acordo com o relato apresentado, os Estados Unidos teriam lançado, em 3 de janeiro, uma agressão militar “maciça” em território venezuelano, atingindo Caracas e os estados de Miranda, Aragua e La Guaira. As ações foram justificadas por Washington sob alegações de “combate ao narcoterrorismo”, conforme citado no material.

Ainda segundo a narrativa descrita, a operação teria terminado com o sequestro de Nicolás Maduro e de Cilia Flores, levados para Nova York. O texto também afirma que os alvos seriam majoritariamente “de interesse militar”, mas que áreas urbanas teriam sido atingidas e que haveria vítimas civis, ampliando a gravidade do episódio.

Caracas classificou a ação como “grave agressão militar” e, ainda segundo o relato, apontou que o objetivo dos ataques “não é outro senão apoderar-se dos recursos estratégicos da Venezuela, em particular do seu petróleo e minerais, tentando quebrar pela força a independência política da nação”. A formulação reforça a leitura de que a disputa extrapola a retórica de segurança e se vincula a interesses estratégicos.

Repercussão internacional: pedidos de libertação e defesa de não intervenção

O texto também informa que “muitos países do mundo”, incluindo Rússia e China, teriam pedido a libertação de Maduro e de sua esposa. Nesse contexto, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia teria afirmado que a Venezuela deve ter garantido o direito de decidir seu destino “sem qualquer intervenção externa”.

A menção à reação externa, tal como apresentada, busca situar o episódio como uma crise de alcance internacional, com implicações diretas para o princípio de soberania e para a legalidade internacional. Ao reforçar a defesa do caminho diplomático e do diálogo bilateral, Delcy Rodríguez procura, ao mesmo tempo, denunciar a ofensiva e projetar uma saída institucional para a tensão com Washington, ancorada em contatos diretos e no reconhecimento mútuo entre governos.

Entre a denúncia e a estratégia: paz interna e negociação como agenda

Ao afirmar que a Venezuela “amadureceu” após o ataque, Rodríguez combina dois movimentos: a denúncia da agressão e a construção de uma narrativa de resiliência, com ênfase em paz interna e “encontro nacional”. Em paralelo, ao insistir que divergências com os Estados Unidos devem ser tratadas diplomaticamente, ela sinaliza uma estratégia de contenção do conflito no plano político, destacando as conversas com Donald Trump e Marco Rubio como evidência de que o diálogo seria possível.

A forma como Rodríguez descreve o pós-operação também aponta para um objetivo interno: consolidar unidade diante de um adversário externo, atribuindo às tentativas de caos o rótulo de “extremistas” e apresentando o povo como ator central do “amadurecimento”. No plano externo, a mensagem é de que o caminho aceitável é o respeito à legalidade internacional e a negociação direta, sem agressões e sem ações unilaterais.

Com isso, a dirigente venezuelana tenta enquadrar a crise como um divisor de águas: um episódio de violência que, segundo sua versão, não quebrou a estabilidade nacional, mas a reorganizou em torno da defesa da soberania, da paz e de uma agenda diplomática para administrar — e, se possível, reduzir — a tensão com Washington.

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