Díaz-Canel diz que Cuba não repetirá cenário da Venezuela e destaca resistência ao bloqueio
Presidente cubano afirma que a ilha tem história própria, unidade popular e disposição de lutar para defender a revolução
247 – O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, afirmou que a ilha não repetirá o cenário vivido pela Venezuela e defendeu que a realidade cubana não pode ser analisada por meio de comparações automáticas com outros países. A declaração foi dada em entrevista exclusiva à RT, publicada na sexta-feira, 17 de abril, durante o V Colóquio Internacional Pátria de Comunicação Digital, realizado de 16 a 18 de abril em Havana.
Segundo a RT, Díaz-Canel comentou a situação atual de Cuba em meio à política adotada por Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e explicou por que acredita que o processo cubano seguirá um caminho distinto do observado na Venezuela. Ao tratar do tema, o dirigente enfatizou a trajetória histórica de resistência da ilha diante do bloqueio e das agressões externas.
“Nunca gosto que nos comparem com as realidades de outro país, primeiro porque isso não reconhece a história particular. Cuba é uma nação que esteve por mais de 60 anos sob bloqueio, resistindo a agressões, sempre fomos alvo de agressões. E sobrevivemos, resistimos a essas agressões e conseguimos até avançar, embora não tenhamos alcançado tudo o que sonhamos e tudo o que queríamos, precisamente pelas implicações e limitações impostas pelo bloqueio”, afirmou.
A fala de Díaz-Canel reforça um dos pilares centrais do discurso político cubano: a ideia de que a permanência da revolução depende da capacidade de resistência nacional diante das pressões externas. Ao rejeitar analogias simplificadoras, o presidente sustenta que Cuba acumulou, ao longo de mais de seis décadas, uma experiência singular de sobrevivência econômica, política e institucional, marcada por sanções, isolamento e enfrentamentos geopolíticos.
Ao mesmo tempo, Díaz-Canel destacou o que definiu como uma característica própria da sociedade cubana: a coesão interna em torno da defesa do país. “A força da unidade do nosso povo é algo muito próprio do nosso país”, disse o presidente, ao voltar a rejeitar comparações com a Venezuela, que classificou como “uma nação irmã”. Na mesma resposta, ele evocou a relação histórica entre Havana e Caracas e ressaltou a dimensão política da Revolução Bolivariana liderada por Hugo Chávez.
Díaz-Canel afirmou que Chávez, “por quem temos muito carinho e que Fidel declarou como o melhor amigo de Cuba”, “protagonizou e liderou uma revolução bolivariana que também abriu um espaço e uma perspectiva para a integração na América Latina e no Caribe há duas décadas”.
A entrevista também teve um momento de forte carga política e simbólica ao abordar a disposição do povo cubano para defender a revolução. “O que posso te assegurar é que aqui há um povo disposto a lutar”, declarou Díaz-Canel à RT.
Na sequência, o presidente cubano mencionou os 32 combatentes cubanos que perderam a vida na Venezuela ao defender Nicolás Maduro, sequestrado em janeiro pelos Estados Unidos. A partir dessa lembrança, Díaz-Canel formulou uma das declarações mais enfáticas da conversa: “E se 32 combatentes cubanos caíram na Venezuela defendendo o presidente dessa nação, o que não seriam milhões de cubanos com esse mesmo exemplo, lutando para salvar a revolução e defender o território cubano”.
A declaração reforça a mensagem de que, para a liderança cubana, a defesa da soberania nacional não é apenas um princípio institucional, mas um elemento profundamente enraizado na memória política da revolução. Ao mobilizar a ideia de sacrifício e solidariedade internacionalista, Díaz-Canel procurou transmitir a noção de que Cuba dispõe de base social, convicção ideológica e experiência histórica para enfrentar novas ofensivas externas.
As falas ocorreram no contexto do V Colóquio Internacional Pátria, evento que se consolidou desde 2022 como espaço de articulação e debate sobre comunicação, tecnologia e soberania informacional. De acordo com a RT, o encontro reúne especialistas locais e internacionais, ativistas políticos, jornalistas, acadêmicos, formadores de opinião e blogueiros, em uma agenda voltada ao enfrentamento da desinformação, à proteção da soberania digital e à análise do impacto das novas tecnologias.
Entre os temas centrais do fórum estão a guerra da informação, o combate às campanhas de notícias falsas, o desenvolvimento da inteligência artificial e os desafios associados às novas ferramentas tecnológicas. A programação inclui conferências, apresentações, mesas-redondas, aulas magnas e estandes de meios de comunicação nacionais e internacionais que atuam em Cuba.
Antes da entrevista, Díaz-Canel visitou o estande da RT no evento e utilizou uma ferramenta de inteligência artificial que permite fazer uma selfie com o líder da Revolução Cubana, em mais um gesto que conecta a narrativa histórica do país com as novas disputas no campo digital.
Em meio ao recrudescimento das tensões geopolíticas e à pressão permanente dos Estados Unidos sobre a ilha, a entrevista de Díaz-Canel sinaliza que a direção cubana pretende responder com uma combinação de memória histórica, reafirmação da soberania e mobilização política interna. Ao rejeitar paralelos automáticos com a Venezuela, o presidente procurou deixar claro que, na visão de Havana, Cuba seguirá se apoiando em sua própria trajetória de resistência para enfrentar o novo ciclo de confrontos.


