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Equipe ligada à inteligência dos EUA investigou urnas eletrônicas em Porto Rico

Apuração envolveu FBI e levantou suspeitas não comprovadas sobre vulnerabilidades no sistema eleitoral da ilha

Tulsi Gabbard (Foto: REUTERS/Nathan Howard)

247 - Uma equipe vinculada ao gabinete da chefe da inteligência dos Estados Unidos, Tulsi Gabbard, conduziu no ano passado uma investigação sobre as máquinas de votação utilizadas em Porto Rico, segundo informações confirmadas por seu escritório e por três fontes com conhecimento direto da operação, segundo a agência Reuters. A apuração ocorreu na primavera do hemisfério norte e envolveu a retirada de equipamentos e dados eleitorais para análise técnica. 

O objetivo inicial era cooperar com o FBI na verificação de alegações de que sistemas eleitorais da ilha caribenha teriam sido alvo de interferência estrangeira. No entanto, a investigação não encontrou qualquer evidência clara de interferência externa nas eleições realizadas no território norte-americano.

Em comunicado oficial, o gabinete de Tulsi Gabbard confirmou a investigação realizada em maio, mas negou que ela tivesse relação direta com acusações envolvendo a Venezuela. Segundo a nota, o foco esteve exclusivamente na identificação de vulnerabilidades nos sistemas eletrônicos de votação utilizados em Porto Rico. A equipe recolheu um número não especificado de máquinas e cópias adicionais de dados para análise forense, procedimento que, segundo o escritório, é considerado padrão nesse tipo de exame técnico.

“O ODNI encontrou práticas extremamente preocupantes de segurança cibernética e de implantação operacional que representam um risco significativo para as eleições dos Estados Unidos”, afirmou o gabinete, acrescentando que infraestruturas semelhantes são usadas em outras regiões do país. O texto também aponta falhas relacionadas ao uso de tecnologia celular considerada vulnerável e a problemas de software que poderiam permitir acesso indevido a partes sensíveis do sistema eleitoral.

Fontes da Reuters relataram que a operação em Porto Rico se inseriu em um contexto mais amplo de iniciativas de integrantes do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltadas à apuração de alegações não comprovadas de fraude eleitoral. Segundo essas fontes, a preocupação com o tema remonta à derrota eleitoral de Trump em 2020 e permanece presente em setores de sua base política.

A atuação de Gabbard ganhou ainda mais atenção após sua aparição em uma operação recente do FBI em um centro eleitoral no condado de Fulton, na Geórgia. Especialistas em segurança nacional expressaram preocupação de que o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional (ODNI) possa ter extrapolado suas atribuições ao se envolver diretamente em questões eleitorais internas, tradicionalmente conduzidas por órgãos de aplicação da lei.

O gabinete de Gabbard afirmou que ela não esteve fisicamente presente na operação em Porto Rico, embora sua agência tenha desempenhado papel de coordenação. Autoridades envolvidas na investigação na Geórgia buscavam registros relacionados à eleição presidencial de 2020, que Trump alega, sem provas, ter sido marcada por fraude generalizada.

Segundo autoridades atuais e ex-funcionários do governo norte-americano citados pela Reuters, temas ligados à segurança eleitoral doméstica costumam ser tratados por órgãos policiais, e não por serviços de inteligência. Ainda assim, o escritório de Gabbard sustentou que tinha autoridade legal para conduzir o trabalho. “Dada a ampla autoridade estatutária do ODNI para coordenar, integrar e analisar inteligência relacionada à segurança eleitoral e nosso trabalho conhecido sobre vulnerabilidades à interferência estrangeira e outras ameaças, o ODNI realizou um exame dos sistemas eletrônicos de votação usados nas eleições de Porto Rico”, afirmou um porta-voz.

As fontes disseram que as suspeitas iniciais envolveram alegações não comprovadas de participação do governo do presidente venezuelano Nicolás Maduro em possíveis irregularidades eleitorais, hipótese que levou à análise de eventual interferência externa. Três fontes contestaram a negativa do gabinete de Gabbard sobre o papel da Venezuela e afirmaram que agentes do FBI investigavam essa teoria, embora nenhuma evidência pública tenha surgido até o momento.

A operação contou com a participação do escritório do FBI no sul da Flórida, que atuou em coordenação com um grupo supervisionado por Gabbard voltado à análise de ameaças à segurança eleitoral. Esse grupo reuniu autoridades de segurança nacional, agentes de aplicação da lei e contratados do governo, segundo as fontes.

O gabinete de Gabbard informou ainda que o procurador dos Estados Unidos em Porto Rico, sua equipe de agentes de investigações de segurança interna e um agente supervisor do FBI “facilitaram a entrega voluntária de hardware e software de votação eletrônica ao ODNI para análise”.

Porto Rico é um território dos Estados Unidos cujos residentes são cidadãos norte-americanos, mas não têm representação com direito a voto no Congresso nem participam das eleições presidenciais gerais. Embora eleições na ilha já tenham enfrentado problemas administrativos, não há registros de provas confiáveis que sustentem acusações de ataques estrangeiros ao sistema de votação local.

“Temos problemas amplamente relatados na administração eleitoral. Mas todos são atribuíveis à incompetência e à corrupção, não à interferência estrangeira”, afirmou Pablo José Hernández Rivera, democrata eleito em 2024 para representar Porto Rico na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, em mandato sem direito a voto.

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