Milei avança contra hotéis populares de Chapadmalal
Presidente argentino avança sobre hotéis populares de Chapadmalal e prepara concessão privada de complexo histórico do turismo social argentino
247 - O governo do presidente da Argentina, Javier Milei, decidiu avançar sobre os hotéis populares de Chapadmalal, complexo estatal à beira-mar que simbolizou por décadas o turismo social argentino e oferecia hospedagem subsidiada a trabalhadores, estudantes e famílias de baixa renda, em um movimento que marca uma nova etapa da agenda de privatizações e redução do papel do Estado no país, relata o Financial Times.
Localizado a cerca de 30 quilômetros de Mar del Plata, um dos principais destinos litorâneos da Argentina, o complexo de Chapadmalal reúne nove hotéis construídos no fim dos anos 1940, durante o governo de Juan Domingo Perón. A estrutura foi concebida como parte de uma política pública voltada ao direito dos trabalhadores ao descanso e às férias, um dos pilares do peronismo.
Durante décadas, milhares de argentinos puderam passar temporadas no local pagando valores muito abaixo dos praticados pelo mercado. Até recentemente, havia diárias subsidiadas que podiam variar entre US$ 3 e US$ 10, com alimentação incluída. A proposta era garantir que famílias sem condições de arcar com hotéis privados também tivessem acesso ao mar, ao lazer e a atividades culturais.
O complexo chegou a receber até 5 mil hóspedes por vez. Além dos hotéis, Chapadmalal conta com restaurantes, centro médico, capela, cinema e cinco teatros. O espaço também ficou conhecido por suas festas, bailes e atividades coletivas, em que turistas de diferentes regiões do país conviviam em uma estrutura pensada para o turismo popular.
A decisão do governo Milei de transferir a administração do complexo ao setor privado representa, para críticos da medida, o encerramento de uma política pública histórica. Em 2025, o presidente eliminou a obrigação legal de o Estado oferecer programas de turismo social. Em março de 2026, autoridades anunciaram a abertura de uma licitação para conceder Chapadmalal à iniciativa privada por 30 anos.
O complexo não pode ser vendido por causa das condições estabelecidas na aquisição do terreno, realizada nos anos 1940. Já Embalse, outro conjunto estatal de hotéis localizado às margens de um lago na província de Córdoba, deverá ser vendido pelo governo argentino.
A justificativa da gestão Milei é que o Estado não deve operar estruturas hoteleiras. O presidente, que defende uma agenda ultraliberal, afirma que a redução do tamanho do setor público é essencial para enfrentar as crises econômicas recorrentes da Argentina. Segundo o governo, o turismo social estatal tinha orçamento de cerca de US$ 7 milhões enquanto suas operações eram reduzidas em 2024.
O ministro da Desregulamentação, Federico Sturzenegger, defendeu a transferência da gestão dos hotéis à iniciativa privada. “Não faz sentido o Estado administrar uma atividade complexa na qual não tem vantagem competitiva nem experiência”, declarou no ano passado. Segundo ele, um operador privado poderia “aumentar seu valor turístico”.
A decisão ocorre em meio a uma série de mudanças promovidas por Milei em áreas associadas ao modelo de Estado construído pelo peronismo. O governo também tem avançado sobre regulações trabalhistas, proteções industriais e programas públicos considerados incompatíveis com sua visão de livre mercado.
Para funcionários, ex-trabalhadores e moradores ligados a Chapadmalal, a medida ameaça apagar uma experiência social e cultural que marcou gerações. Cintia Suárez, de 43 anos, trabalha há duas décadas no complexo e administra o museu Eva Perón instalado no local. Ela afirma que Chapadmalal permitiu que muitos trabalhadores tivessem acesso a uma experiência antes restrita às classes mais altas.
“Pessoas que passavam os dias trabalhando no campo vinham para cá e sentiam: ‘Sim, eu mereço isso’. As crianças saíam com esperança de que a vida podia ser boa”, afirmou Cintia.
Ela também ressaltou o peso simbólico do projeto. “Não se pode subestimar o valor cultural... o que significa para as pessoas ter direito ao tempo de lazer”, declarou. “Não há justificativa para tirar isso.”
A memória de Eva Perón permanece presente em Chapadmalal. A ex-primeira-dama, que morreu em 1952 antes da inauguração dos últimos hotéis, é homenageada em diferentes espaços do complexo. Relógios instalados em ônibus do hotel marcam a hora de sua morte, em uma referência permanente ao papel de Evita na construção simbólica do turismo social argentino.
Hugo Barbero, salva-vidas do hotel desde 2007, recorda que muitos visitantes chegavam ao complexo sem nunca ter visto o mar. Segundo ele, havia hóspedes que deixavam as malas no quarto e seguiam diretamente para a praia. Em uma das cenas que ficaram em sua memória, uma mulher de cerca de 50 anos se aproximou do Atlântico em um dia frio e se emocionou diante da água.
“Ela abriu os braços para abraçá-lo, os olhos cheios de lágrimas”, recordou.
O avanço da privatização provocou reação de ex-funcionários, sindicatos e grupos comunitários. Em maio, o governo demitiu os cerca de 50 trabalhadores que ainda atuavam em Chapadmalal. Organizações sindicais entraram com ações judiciais para tentar bloquear as demissões, enquanto moradores e lideranças locais passaram a pressionar pela preservação da função social do espaço.
María Eva Belza, diretora de um centro comunitário local e ex-professora, afirmou que o complexo teve papel importante também na educação e na formação de crianças. Ela contou que já levou estudantes de Buenos Aires em excursões escolares para Chapadmalal.
“Não vamos desistir deste lugar que significa tanto para nós”, declarou.
A província de Buenos Aires, governada pelo peronista Axel Kicillof, pediu ao governo Milei autorização para assumir a administração dos hotéis. Segundo a secretária provincial de Turismo, Sole Martínez, o pedido não teve resposta. Kicillof é hoje uma das principais lideranças eleitas do peronismo e rival político direto de Milei.
Martínez afirmou que “interesses empresariais massivos” teriam influenciado o plano de privatização das propriedades à beira-mar, especialmente em um momento em que Chapadmalal vive crescimento do turismo privado. Um funcionário da agência estatal que passou a controlar o complexo disse, porém, não ter conhecimento do pedido feito pela província.
Ainda não há data definida para a licitação. Também não foi estabelecido se os operadores privados deverão manter os hotéis como instalações acessíveis ou transformá-los em empreendimentos de padrão mais elevado. A Secretaria de Turismo da Argentina recusou-se a comentar o caso.
O debate em torno de Chapadmalal reflete a divisão política e social da Argentina. Enquanto o governo Milei sustenta que a retirada do Estado de atividades econômicas é necessária para reorganizar as contas públicas, peronistas e movimentos sociais afirmam que o país corre o risco de aprofundar desigualdades e desmontar políticas que garantiam acesso a direitos básicos.
Manuel Diez, de 73 anos, líder sindical regional aposentado e ex-funcionário de manutenção do complexo, relaciona o futuro dos hotéis ao cenário social mais amplo do país. “Agora temos um país onde apenas algumas pessoas conseguem viver bem e muitas pessoas estão vivendo muito mal”, afirmou. “O que está acontecendo com Chapadmalal representa o povo nesse sentido”.
A tensão ocorre em um momento de desgaste para o governo Milei. Após vencer as eleições de 2023 com forte apoio popular, o presidente viu sua base de sustentação enfrentar testes diante da queda de salários reais e do corte de empregos em setores como indústria, varejo e construção. Analistas avaliam que a continuidade da austeridade pode ampliar o desconforto social.
Marcelo García, diretor para as Américas da consultoria Horizon Engage, afirmou que a discussão sobre Chapadmalal vai além do modelo peronista de turismo social. “A pergunta que as pessoas estão fazendo agora não é ‘devemos ter turismo social no estilo peronista?’, mas ‘o modelo de Milei me permite uma qualidade de vida boa o suficiente para que eu possa tirar férias de vez em quando?’”, disse. “Isso deveria preocupar o governo”.
O complexo também se insere em uma tradição mais ampla de turismo subsidiado. Países como Espanha, França e Brasil mantêm programas voltados a servidores públicos ou grupos de baixa renda, embora poucos tenham estruturas estatais comparáveis à escala de Chapadmalal. Na Argentina, além dos hotéis administrados pelo Estado, sindicatos mantêm centenas de complexos turísticos para seus filiados.
Apesar de seu valor histórico, Chapadmalal perdeu visitantes nas últimas décadas. A redução de investimentos em manutenção, a menor prioridade dada por governos de direita ao turismo subsidiado e a deterioração de parte dos prédios contribuíram para o declínio. Entre 2019 e 2023, o governo peronista anterior investiu vários milhões de dólares em reformas, e o número de visitantes voltou a crescer antes da eleição de Milei.
Para hóspedes frequentes, a principal preocupação é que uma eventual concessão privada torne o espaço inacessível para trabalhadores e famílias de baixa renda. O artista de rua Gustavo Casais, de 31 anos, teme não conseguir voltar ao local caso os preços subam.
“Se a privatização é para apenas melhorar o hotel, então tudo bem, mas se significa que os preços serão impossíveis para pessoas comuns, isso é terrível”, afirmou. “Chapadmalal tem que ser para o povo.”
Com a licitação ainda sem data definida e o destino do complexo em aberto, Chapadmalal tornou-se um dos símbolos mais visíveis do confronto entre a agenda de austeridade de Milei e a memória social do peronismo. O futuro dos hotéis deve indicar se o antigo projeto de férias populares será preservado sob nova gestão ou substituído por uma lógica turística voltada ao mercado.



