Cuba: os atuais desafios da ilha socialista

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(Foto: Reuters)


Como previa o atual presidente cubano Miguel Diaz-Canel, a crise da COVID 19 abateria o país com força especial, ou seja somando-se os fundamentos globais da pandemia e o uso da mesma para se tentar minar o socialismo, após o seu arrefecimento. 

Para tanto, Cuba mobilizou os esforços para a produção independente não de uma, mas de três vacinas contra a COVID. Ao ver que não haveria desastre humanitário em Cuba, o imperialismo já se mobilizava para agravar o quanto fosse possível a situação daquela nação, incluindo o bloqueio de envios de agulhas, seringas, luvas, máscaras, álcool e sabão para evitar o êxito da vacinação do povo cubano junto com suas medidas preventivas. Ainda assim, se valendo do jogo mais vil e sujo que ficará registrado na História, os bárbaros do capital não lograram êxito. Cuba foi um dos países com menos vitimas pela COVID em todo o planeta.

Ao preparar-se para a reabertura do país, mais sufocamento da economia… quase nenhum país cedendo a abertura de emissão de títulos cubanos. A suposta amizade chinesa se resumiu à pífios empréstimos com vencimento a curto prazo, em uma nação que precisaria, no fim, reestruturar sua infraestrutura pesada.

A crise da COVID fez o PIB de Cuba cair 11%, fazendo alguns analistas/oportunistas falarem que a economia colapsava a níveis do chamado “período especial”, do começo dos anos 90 quando a maior ilha do Caribe chegou a ter a retração de 13% do PIB. Trata-se de um comparativo oportunista e mentiroso por duas razões: 

1°- Naquela década o PIB caiu de forma sucessiva e Cuba estava completamente isolada. Tendo seus únicos parceiros econômicos os países do socialismo do leste europeu; 2° - Cuba passou por mais de vinte anos de crescimento econômico desde então. Logo, obviamente, deve-se ponderar o carácter relativo da queda. Em 2023 já se projeta a recuperação da economia nos moldes pré-COVID. 

Há, porém, problemáticas que existem na ilha e cujo a solução ainda parecem nebulosas, senão já comprovadamente equivocadas. O primeiro problema está na mudança da política cambial. No dia 1° de janeiro de 2021, mudou-se o sistema de duas moedas: antes tínhamos a moeda local e outra para turistas, o peso conversível (CUC). Esse sistema dava ao governo o monopólio das divisas, centralizava a maior parte da política de abastecimento, desestimulava o uso do dólar e controlava a inflação. O problema desse sistema era a crescente desigualdade setorial nos salários, fazendo um campesino ganhar salários médios na base dos 80 dólares, obrigando-o a dedicar-se exclusivamente ao consumo interno.

1 CUC comprava algo em torno de 23 pesos cubanos. Para se comprar 1 CUC era necessário 1,2 dólar ou 0,9 euro. Hoje o dólar e o euro estão praticamente pareados oficialmente em 120 pesos cubanos e, com a liberação do uso dessas moedas, cria-se - naturalmente - o valor paralelo, que está em torno de 150/170 pesos cubanos “nas ruas”. 

A política de desestímulo do uso do dólar se resume hoje à proibição da abertura de contas com essa moeda. Ora, o dólar é a moeda de maior liquidez do planeta… obviamente que há uma enxurrada de dólares circulando. Com seu acúmulo, cria-se uma política de importação por conta própria de produtos de bens de consumo adquiridos em países como o Panamá e o México, ocasionando um ciclo inflacionário e minando as ações de regulamentação do abastecimento no país. Para 2023 projeta-se uma inflação de 40%… e todos sabem que é ela a maior inimiga dos salários.

Para contrapor a esse fenômeno, o governo tenta desmonetizar as compras vindas do turismo.  Não se bebe um mojito em um hotel cubano (todos estatais ou de economia mista) sem se cobrar no cartão de crédito o valor. Assim também se vale para o charuto (que quase quadruplicou o seu valor por sua alta demanda internacional), para estadias, para eventos, etc… Doutro lado temos o mandatório consumo de alimentos básicos pela distribuição pelo Estado, podendo ser gratuito ou subsidiado em moeda nacional. 

Na prática a economia pode crescer, mas a sensação para o setor de serviços é de imobilidade na retomada de bens supérfluos. Daí uma certa insatisfação nas ruas, ainda que não haja cubano que passe por necessidades fundamentais como educação, saúde, medicamentos, moradia, segurança pública, cultura e lazer em abundância. 

Penso que o sistema de unificação de moedas poderá ser revisto em breve, pois ao tentar-se abolir um sistema de duas moedas sob o controle do Estado, criou-se, no fim, quatro: uma com o controle do Estado, o dólar, o dólar canadense e o euro. Traria - talvez - vantagens em uma conjuntura de abastecimento satisfatório, o que não é o caso. 

No fim, a eleição de Lula poderá impulsionar de forma muito positiva - ainda que não decisiva - as divisas cubanas. 40 mil médicos já estão em treinamento da língua portuguesa e deverão chegar no segundo semestre desse ano. A produção de vacinas cubanas aumentou, também pela encomenda do governo federal brasileiro que passará a usá-las em larga escala por aqui. Por fim, o novo governo do Brasil talvez tenha interesses, como sempre teve, em trabalhar com o abastecimento global alimentar de Cuba, em especial com o suprimento de envasados (Cuba diminuiu sua produção de refrigerantes e cervejas de 280 milhões de latas para 25 milhões - fruto do bloqueio) e quer fazer parte do Porto de Mariel que poderá ser até o começo da década de 30 no mais importante porto do mundo. 

Caso o imperialismo não queira ganhar dinheiro vendendo para Cuba e Venezuela, o Brasil - da Bauducco à Brastemp - tem interesse em fazer bons negócios. Vale lembrar com honestidade: desde o governo FHC, passando pelo governo Lula e Dilma, nunca tivemos medo de fazer negócios com Cuba. O imperialismo não é louco de impôr sanções ao nosso país. Deixamos de ser os vira-latas dos EUA. O Brasil voltou a ser um país soberano, quiçá, internacionalista.

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