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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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Idiomar, o idiota raiz

Ele começou seu projeto com método. Leu tudo o que encontrou sobre comportamento humano. E fez exatamente o contrário

lustração - IA/Freepik-Artigo-Carlos Castelo-Idiomar, o idiota (Foto: IA / Freepik)

Havia, na rua de baixo, um homem com um objetivo muito claro na vida: tornar-se o maior idiota de todos os idiotas. Não o tolo comum (esse tipo você encontra em fila de banco, num comentário de internet ou na reunião de condomínio), mas o idiota absoluto, referência internacional, padrão ISO de idiotice.

Chamava-se Idiomar, o que já ajudava.

Ele começou seu projeto com método. Leu tudo o que encontrou sobre comportamento humano. E fez exatamente o contrário. Se um livro dizia escute mais do que fala. Idiomar interrompia até o próprio eco. Se aconselhavam pense antes de agir, ele agia antes de atuar.

Criou um cronograma. 

Segundas: opiniões fortes sobre assuntos que desconhecia. 

Terças: discussões acaloradas com atendentes de telemarketing.          

Quartas: tentar ensinar especialistas sobre suas próprias áreas. 

Quintas: compartilhar notícias falsas. 

Sextas: dar conselhos amorosos estando solteiro desde 1998.

Sábados eram dias livres para improvisos estúpidos.

Mas Idiomar era ambicioso. Não bastava ser um imbecil funcional; ele queria ser inovador. Inscreveu-se em cursos como O milagre econômico de Paulo Guedes, Introdução ao pensamento trumpiano, Como administrar escolas cívico-militares. Tirou nota máxima em todos.

Passou a treinar na frente do espelho. Fazia caretas de superioridade enquanto dizia coisas como: “Eu nunca li nada, e daí?”, “Não preciso de fatos, tenho a minha opinião”, e sua favorita: “Isso sempre foi assim”, mesmo quando claramente não era.

Para medir seu progresso, criou indicadores. Quantas vezes foi corrigido por dia? Quantas discussões perdeu? Quantas pessoas mudaram de assunto quando ele se aproximava? Os números subiam. Idiomar sorria.

Um dia, decidiu que precisava de validação pública. Abriu um canal na nas redes sociais chamado “Idiota Raiz”. Lá, falava sobre economia, medicina, astrofísica e culinária vegana (com bacon). O sucesso foi imediato. Seguidores surgiam aos milhares: a maioria por identificação.

Idiomar concluiu que estava perto da consagração.

Só havia um problema. Apesar de todo o esforço, algo o incomodava. À noite, deitado, pensava: “E se eu ainda não for o maior palerma? E se houver alguém pior?” A dúvida corroía seu sono e introduzia nele um traço perigosíssimo: a autocrítica.

Desesperado, decidiu dar o passo final. Anunciou que faria uma transmissão ao vivo, um evento definitivo, no qual revelaria algo de grande importância.

No grande dia, um número impressionante de estúpidos o assistia.

Idiomar entrou em cena com um papel na mão.

— Amigos imbecis — começou. Como todos sabem, passei treinando, estudando e me dedicando a ser o maior idiota do planeta. Descobri, no entanto, uma coisa importante.

Todos ficaram ansiosos pelo que vinha. Ele seguiu:

— Notei que, quanto mais eu tentava ser um grande idiota, mais precisava pensar sobre como ser esse idiota. E quanto mais eu pensava, menos idiota eu ficava.

Reverberou um “Óóóó!”

— Portanto — continuou —, o verdadeiro idiota é aquele que nunca tentou ser.

E desligou a câmera.

Idiomar desapareceu da internet, da rua de baixo e, dizem, foi visto lendo um livro enorme. Sem interromper.

Mas o canal continuou crescendo.

E os seguidores, órfãos de Idiomar, passaram a competir entre si.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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