Não é "democracia contra fascismo", é terceira via contra Bolsonaro

A esquerda, para combater a extrema direita, não pode ficar a reboque da direita tradicional e do imperialismo. Precisa estar alinhada ao bloco do povo

www.brasil247.com - Jair Bolsonaro, militares, urnas e o ministro do STF Luís Roberto Barroso
Jair Bolsonaro, militares, urnas e o ministro do STF Luís Roberto Barroso (Foto: ABr)


Por Juca Simonard

A situação nacional se resume, em termos gerais, a três blocos políticos. A extrema direita bolsonarista, que tem apoio de setores das Forças Armadas, dos políticos do baixo clero, da burguesia nacional e da classe média; a chamada “terceira via”, apoiada pelo setor mais poderoso da burguesia e do imperialismo; e a esquerda, sustentada principalmente pelos sindicatos, os movimentos sociais e a classe média empobrecida.

Nas últimas semanas, houve um acirramento do conflito entre a terceira via e a extrema direita. Por um lado, Jair Bolsonaro (PL) fez declarações que colocam a possibilidade de um golpe militar. Do outro, os tribunais supremos golpistas (STF e TSE) realizaram ações e fizeram declarações contra o bolsonarismo.

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Luís Roberto Barroso, do Supremo, afirmou que as Forças Armadas 'estão sendo orientadas a atacar e desacreditar' o processo eleitoral. A afirmação causou uma reação do das Forças Armadas, que, por meio do ministro da Defesa, o general do Exército Paulo Sérgio, publicaram uma nota contra o ministro do STF

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O militar também pediu que o TSE divulgasse os documentos das Forças Armadas questionando o sistema eleitoral. Bolsonaro, por sua vez, defendeu que houvesse uma apuração paralela das eleições deste ano e, nesta quinta-feira, 5, declarou que as Forças Armadas não terão papel de meros espectadores no pleito.

Ao mesmo tempo, surgiu a notícia de que o chefe da CIA, William Burns, orientou Bolsonaro a respeitar o sistema eleitoral imposto pelo TSE. No mesmo sentido, o porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Ned Price, afirmou que os brasileiros “precisam ter confiança em seu sistema eleitoral” e elogiou as instituições brasileiras.

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A subsecretária de Assuntos Políticos do Departamento de Estado norte-americano, Victoria Nuland, que recentemente visitou o Brasil, também disse ter confiança no sistema de votação brasileiro.

Fica claro que o confronto entre Bolsonaro e a extrema direita é uma digladiação entre o setor fundamental da burguesia — a ‘terceira via’ apoiada pelo imperialismo, que aparece nas figuras de ministros do STF — e a extrema direita. Brigam pelo controle do processo eleitoral. No entanto, parte da esquerda substitui essa compreensão da luta de classes para abordar o assunto como sendo um embate abstrato entre “democracia contra ditadura”. 

Essa análise da esquerda não poderia estar mais errada. Primeiro, os setores da direita que estão se contrapondo momentaneamente a Bolsonaro são parte central do golpe de Estado que colocou o atual governo no poder, prendeu o ex-presidente Lula e derrubou Dilma Rousseff. Chamá-los de “democráticos” — ou “científicos”, como se fazia na época da pandemia — apenas favorece o campo político dos mafiosos da terceira via.

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Segundo, estes setores não têm nada de democrático. Pelo contrário, são ainda mais ditatoriais do que o próprio Bolsonaro. Foram eles que estabeleceram o regime de exceção do golpe de Estado. E são eles que, para atacar o bolsonarismo, utilizam métodos autoritários contra a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, passando por cima dos direitos democráticos, assim como fizeram contra o PT. Os casos de Daniel Silveira e do jornalista de extrema direita Allan dos Santos, ambos censurados, revelam que o STF é a verdadeira ameaça à tão falada “democracia”.

A esquerda, quando aborda essas medidas como sendo “a luta da democracia contra o fascismo”, comete um grande erro. Coloca a bandeira da “liberdade” na mão dos demagogos da extrema direita, ao mesmo tempo em que ignora que as ações “contra o fascismo” só atingem os peixes pequenos, como Daniel Silveira, Roberto Jefferson, Allan dos Santos, entre outros. Isto é, além de jogar um setor da população que não concorda com os abusos dos tribunais no colo da extrema direita “libertária”, desconsidera que a terceira via, de fato, não faz nada para deter o fascismo — fascismo este que eles usaram para tirar o PT do poder.

Outro fator que leva à confusão da esquerda são as declarações já citadas de autoridades norte-americanas. Junto a isso, a recente conclusão da ONU de que Lula foi preso político e a capa da revista imperialista Time com entrevista do ex-presidente petista. Diante disso, parte da esquerda enxerga uma “unidade democrática” entre a esquerda e o imperialismo. Alguns indicam um possível apoio do imperialismo norte-americano e do presidente Joe Biden a Lula. Pior: outros apresentam os EUA como aliados na ilusória luta da democracia contra o fascismo.

Sobre esse último ponto, é implausível que a força mais reacionária do mundo, o imperialismo norte-americano, esteja aliado em qualquer medida à “defesa da democracia”.

Por exemplo, o Departamento de Estado dos EUA, que defendeu o sistema eleitoral brasileiro, assim como outras instituições norte-americanas (FBI, Ministério da Justiça, etc.), foi central no golpe de Estado, dando suporte, de forma ilegal, à Lava Jato, comprovadamente um operação de ingerência norte-americana no Brasil. Já Nuland ficou famosa quando, após participar das manifestações na Praça Maidan que levaram ao golpe da Ucrânia em 2014, teve um áudio vazado no qual ela admitia a participação dos EUA no golpe que levou à atual guerra russa. Os defensores das eleições brasileiras são os principais organizadores de golpes pelo mundo.

Sobre o apoio do imperialismo a Lula, é um delírio. As declarações dos EUA vão no sentido de fortalecer a terceira via e não de apoiar Lula. 

Ajuda a semear a confusão sobre o assunto a aliança de Lula com setores da direita, como o ex-governador Geraldo Alckmin, setores do PSB e do MDB e o “sindicalista” patronal Paulinho da Força. Essas alianças colaboram a semear a ideia de uma grande “unidade democrática” entre os trabalhadores e a burguesia. O que não se leva em conta, no entanto, é que estes elementos da direita são representantes secundários da burguesia brasileira, uma “sombra da burguesia”, como disse Trótski em sua avaliação sobre as Frentes Populares.

A burguesia brasileira, de forma geral, e o imperialismo não estão ao lado de Lula. Pelo contrário, querem impedir a volta do PT ao governo. A volta de Lula ao poder significaria uma grandiosa derrota do golpe de Estado que todos os setores da burguesia deram em conjunto. Significaria reverter as “reformas” do golpe e as privatizações, e retomar a política de desenvolvimento nacional que não condiz com a qualidade de colônia que o imperialismo quer para o Brasil.

Lula é uma ameaça para os golpistas. Essa semana, ele deu declarações importantes. Distanciando-se da política do imperialismo norte-americano, culpou Zelenski e a Otan pela guerra na Ucrânia e, em evento na Unicamp, reforçou que pretende fortalecer a aliança com os países oprimidos através do BRICS e desenvolver uma política para não ficar dependendo do dólar — assim com tem feito Rússia, China e Índia.

"Com Bolsonaro, os Brics estão um pouco fragilizados. Eles são possibilidade de mudar a ordem econômica mundial”, declarou o ex-presidente aos estudantes da universidade pública. E ainda fez críticas abertas aos EUA: "a gente não quer que eles façam como fizeram com Dilma, espionagem no governo brasileiro, não quer que eles nos tratem como cidadãos de segunda classe".

Nesse sentido, se a terceira via não vingar, para o imperialismo, é muito melhor um entreguista com o qual tenha algumas contradições, como Bolsonaro, do que um líder popular da esquerda, como Lula.

Por isso, a esquerda, para combater a extrema direita, não pode ficar a reboque dos setores tradicionais da direita e do imperialismo, como tem ficado nos últimos anos. Precisa estar alinhada ao bloco do povo, vermelho. O otimismo cego não favorece, prejudica. Para ser vitorioso, Lula conta apenas com a força que sempre o sustentou: a população brasileira, os sindicatos e os movimentos sociais, a classe operária e os trabalhadores do campo.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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