Brasil supera tarifaço e bate recorde de exportações para 42 países
Diversificação comercial impulsiona exportações do Brasil para 42 países em meio a tarifas dos EUA e novos acordos internacionais
247 - O Brasil alcançou em 2025 um recorde de exportações para 42 países, em um movimento de diversificação comercial acelerado pelas novas barreiras impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, com tarifas de 50% aplicadas no segundo semestre do ano, informa o Monitor Mercantil.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que o país ampliou sua presença em mercados estratégicos e registrou volumes inéditos de vendas externas para destinos como Canadá, Índia, Turquia, Paraguai, Uruguai, Bangladesh, Filipinas, Panamá, Paquistão e Noruega. China e Estados Unidos também aparecem entre os países que atingiram recorde de compras de produtos brasileiros.
A mudança no cenário internacional levou empresas exportadoras brasileiras a acelerar a busca por alternativas comerciais, segundo analistas, autoridades e representantes do setor produtivo. A imposição de tarifas pelos Estados Unidos foi apontada como um dos fatores que pressionaram companhias a rever rotas, clientes e estratégias de inserção no mercado global.
Paulo Borba Casella, professor de direito internacional público da Universidade de São Paulo e coordenador do Grupo de Estudos do Btics, avaliou que as medidas adotadas por Washington reforçaram a necessidade de maior coordenação entre economias emergentes. “Essa situação envolvendo tarifas e sanções tarifárias destaca a necessidade de desenvolver outros mecanismos coordenados, inclusive entre os membros do Bbrics”, afirmou Casella à Xinhua.
Segundo o especialista, o novo ambiente também pode estimular o uso de outras moedas nas transações internacionais, reduzindo a dependência de estruturas tradicionais do comércio global.
A secretária de Comércio Exterior do Brasil, Tatiana Prazeres, afirmou que as companhias brasileiras precisaram ajustar suas estratégias diante da mudança no ambiente externo. Para ela, a diversificação já fazia parte da atuação de muitas empresas, mas ganhou novo peso após a elevação das tarifas pelos Estados Unidos. “Muitas empresas têm isso em seu DNA, mas a revisão da estratégia tornou-se uma necessidade diante das mudanças no ambiente externo”, disse Prazeres.
A ampliação dos mercados também ocorre em paralelo ao avanço de acordos comerciais. Na semana passada, o Congresso brasileiro aprovou tratados entre o Mercosul e Cingapura, além de um acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio, formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein.
Com esses instrumentos, a fatia do comércio exterior brasileiro coberta por acordos comerciais passará de 12% para 31%. A ampliação é vista como um passo relevante para abrir novos caminhos aos produtos nacionais e reduzir a vulnerabilidade diante de disputas tarifárias envolvendo grandes economias.
Constanza Negri, gerente de Comércio Exterior e Integração da Confederação Nacional da Indústria, afirmou que as tensões geopolíticas e as mudanças na política comercial internacional aumentaram o senso de pragmatismo entre governo e setor privado. “O contexto global, repleto de desafios e tensões geopolíticas, impulsionou um maior senso de pragmatismo”, declarou a executiva da CNI.
Para Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, a reorganização dos fluxos internacionais de comércio não pode ser compreendida apenas pela ótica econômica. Segundo ele, fatores políticos também passaram a influenciar de forma mais direta as decisões de exportadores e governos. “As relações comerciais não são meramente econômicas; elas também são fortemente influenciadas pela política”, afirmou Consentino.
Desde agosto de 2025, quando as tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros passaram a afetar diferentes setores, exportadores intensificaram os esforços para encontrar compradores em outros países. O movimento atingiu especialmente segmentos que dependiam fortemente do mercado norte-americano.
Um dos exemplos mais relevantes é o café brasileiro. A Alemanha ultrapassou os Estados Unidos como principal destino do produto, em uma mudança que ilustra o redirecionamento das vendas externas diante das novas barreiras tarifárias.
Após a imposição das tarifas norte-americanas, o volume de exportações brasileiras para os Estados Unidos caiu 30%. O resultado reforçou a percepção de que a diversificação de mercados se tornou um eixo central da estratégia comercial do país em um cenário internacional marcado por disputas, sanções tarifárias e rearranjos geopolíticos.



