EUA aguardam sinal do Brasil para avançar em acordo bilateral sobre minerais críticos
Washington vê Brasil como parceiro estratégico e espera posição do governo para avançar em cooperação que pode render bilhões em investimentos
247 - Os Estados Unidos aguardam um posicionamento político claro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para avançar na negociação de um acordo bilateral voltado à exploração e ao desenvolvimento de minerais críticos. A sinalização foi transmitida por um porta-voz da embaixada norte-americana em Brasília, que afirmou que Washington considera o Brasil um parceiro relevante em uma agenda de cooperação econômica e tecnológica, relata o jornal O Globo.
Segundo o representante diplomático, a proposta envolve iniciativas consideradas estratégicas para os Estados Unidos, incluindo mecanismos para fortalecer cadeias industriais, estimular investimentos responsáveis na mineração e ampliar a cooperação tecnológica entre os dois países. O porta-voz destacou que o entendimento pode gerar benefícios econômicos e industriais para ambos os lados, dentro de uma agenda descrita como de “ganhos mútuos”.
Investimentos e projetos em discussão
De acordo com a embaixada norte-americana, já foram identificados no Brasil mais de 50 projetos de mineração com potencial de contribuir para a diversificação das cadeias globais de suprimento de minerais críticos. Esses empreendimentos poderiam atrair investimentos adicionais estimados em bilhões de dólares, segundo a avaliação do governo dos Estados Unidos.
Instituições financeiras ligadas ao governo norte-americano já oferecem apoio ao setor no país. A U.S. International Development Finance Corporation (DFC) e o Export-Import Bank dos Estados Unidos disponibilizam atualmente mais de US$ 600 milhões em financiamento para projetos ligados a minerais estratégicos em andamento no Brasil.
Entre os temas discutidos nas conversas bilaterais estão a definição de preços mínimos, incentivos à mineração e ao processamento industrial desses recursos e a facilitação de processos de licenciamento, considerados essenciais para ampliar a produção e o beneficiamento desses insumos.
Fórum em São Paulo deve ampliar debate
O tema ganhará destaque nesta semana com a realização do Fórum de Minerais Críticos, organizado pelo governo norte-americano em São Paulo. O evento, previsto para quarta-feira (18), deve reunir mais de 100 empresas e representantes de governos estaduais, sendo apontado pela embaixada dos Estados Unidos como o maior encontro do tipo promovido por Washington na América Latina em 2026.
Na avaliação norte-americana, o Brasil possui vantagens competitivas importantes no setor mineral, como ambiente institucional estável, expertise técnica consolidada e um setor de mineração considerado transparente. Esses fatores, segundo Washington, colocam o país em posição relevante no redesenho das cadeias globais de suprimento desses recursos estratégicos.
Governo brasileiro afirma estar aberto ao diálogo
O Ministério de Minas e Energia (MME) informou que o Brasil mantém disposição para dialogar e cooperar com iniciativas internacionais voltadas ao fortalecimento das cadeias globais de minerais críticos. "A atuação brasileira é pautada pelo fortalecimento da cooperação internacional, pela atração de investimentos, pelo desenvolvimento tecnológico e industrial no país e pela inserção do Brasil nas cadeias globais de valor, em diálogo com diferentes parceiros, incluindo Estados Unidos, União Europeia, China e outros atores estratégicos".
A pasta também ressaltou que qualquer iniciativa deve estar alinhada aos objetivos de desenvolvimento econômico e social do país.
Encontro entre Lula e Donald Trump pode tratar do tema
A negociação de um eventual acordo bilateral deverá ser debatida em um encontro em Washington entre o presidente Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda sem data definida.
Recentemente, o Brasil firmou acordos semelhantes com outros países. Em fevereiro, durante viagem à Índia e à Coreia do Sul, Lula assinou entendimentos voltados à cooperação em pesquisa, exploração e processamento de minerais críticos, além de iniciativas para estimular investimentos e ampliar cadeias industriais ligadas à transição energética e à tecnologia avançada.
Estratégia global dos EUA para reduzir dependência
Washington tem ampliado acordos internacionais com o objetivo de reduzir a dependência de fornecedores concentrados em poucos países. Em outubro de 2025, por exemplo, os Estados Unidos firmaram com a Austrália um marco de cooperação para mineração e processamento de minerais críticos e terras raras, incluindo mobilização de financiamento público e privado para projetos estratégicos.
Esses minerais — como lítio, níquel, cobalto, grafite, cobre, nióbio e terras raras — são considerados essenciais para indústrias de alto valor agregado. Eles são utilizados na produção de baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, semicondutores, equipamentos médicos e sistemas de comunicação, além de tecnologias militares.
Para os Estados Unidos, esses insumos passaram a ser tratados como um tema de segurança econômica e nacional, já que grande parte das cadeias globais de processamento e refino está concentrada em poucos países. Em vários desses minerais estratégicos, a China exerce papel dominante, sobretudo nas etapas industriais de beneficiamento e fabricação de componentes intermediários.
Diante desse cenário, a estratégia americana consiste em ampliar parcerias com países como Austrália, Canadá e Brasil, buscando diversificar fornecedores, estimular o processamento fora da China e fortalecer cadeias consideradas mais resilientes para setores estratégicos da economia global.


