Iniciativa no Rio de Janeiro transforma resíduo doméstico em solução sustentável para o saneamento
Tecnologia inovadora e inédita usada em ecofábrica na Mangueira aplica biorremediação para melhorar o saneamento e a qualidade de vida da comunidade
247 - Na comunidade da Mangueira, na zona norte do Rio de Janeiro, uma iniciativa local vem transformando um problema ambiental cotidiano em solução para o saneamento. Desenvolvida pelo Instituto Singular Ideias Inovadoras (ISII), a partir do projeto Omìayê, uma tecnologia inédita e inovadora alia ciência aplicada e tecnologia social para atuar no tratamento descentralizado de esgoto. A solução é o sabão ecológico Omì, produzido a partir de óleo de cozinha usado e enriquecido com um consórcio específico de microrganismos não patogênicos, como bactérias do gênero Bacillus, leveduras e lactobacilos. Esses microrganismos são incorporados à formulação do produto para contribuir com a biorremediação, reduzindo a contaminação da água e dos lençóis freáticos.
Desenvolvido em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), o sabão passa por um processo rigoroso de pré-tratamento do óleo residual, que inclui filtragem mecânica e físico-química com carvão ativado, garantindo a estabilidade e a qualidade do produto final. Após a saponificação, os microrganismos são incorporados por meio de técnicas de proteção e encapsulamento, assegurando sua viabilidade até o momento do uso. Na prática, ao ser utilizado em pias, banheiros e áreas comuns, o sabão libera esses microrganismos, que seguem pelas tubulações e redes de esgoto, acelerando a degradação da matéria orgânica, reduzindo odores e diminuindo a carga poluidora associada a doenças de veiculação hídrica. Os microrganismos presentes reforçam a capacidade natural da água de decompor sujeiras, reduzir poluentes e aumentar os níveis de oxigênio.
Para Gabriel Pizoeiro, diretor do Instituto Singular Ideias Inovadoras, o projeto Omìayê representa a materialização do compromisso da organização com soluções que nascem no território e retornam a ele como transformação concreta:
"O Omìayê sintetiza nossa visão de que a inovação social mais potente é aquela que respeita e fortalece o protagonismo comunitário. Quando desenvolvemos uma tecnologia de biorremediação com a UFF e a colocamos nas mãos de mulheres da Mangueira, estamos tratando esgoto e, simultaneamente, redistribuindo poder, conhecimento e dignidade. É esse o DNA do Instituto Singular: ciência aplicada que dialoga com justiça social e que reconhece que as comunidades são agentes ativos de sua própria transformação, e nunca receptoras passivas de soluções. O desafio do saneamento no Brasil exige mais do que grandes obras de infraestrutura. Precisamos de tecnologias sociais acessíveis, replicáveis e enraizadas nas realidades locais — e é isso que estamos provando ser possível na Mangueira", afirmou.
Para fomentar a produção do Omì, já foram coletados mais de 3.200 litros de óleo em pontos de coleta espalhados por comunidades, instituições de ensino, como a própria UFF, e demais projetos liderados pelo Instituto. Caso esse volume de óleo tivesse sido descartado de forma inadequada, seria capaz de poluir 81 milhões de litros de água, o equivalente a 32 piscinas olímpicas ou ao consumo mensal de cerca de 500 famílias.
Em vez de gerar poluição, esse resíduo retorna ao território como solução ambiental. Na ecofábrica comunitária instalada na Mangueira, o óleo reciclado já resultou na produção acumulada de mais de três toneladas de sabão e centenas de litros de detergentes. Esse volume permitiu o tratamento estimado de 660 mil litros de esgoto, o suficiente para encher 6.600 caixas-d’água residenciais. Além disso, um novo produto — um lava-roupas ecológico — encontra-se atualmente em fase de testes, mas já soma 200 litros produzidos, com potencial para tratar cerca de 20 mil litros adicionais de esgoto, ampliando a capacidade de resposta local aos desafios do saneamento.
Para Bruno Pierri, coordenador executivo do projeto Omìayê, o diferencial está na lógica de regeneração territorial:
“Na Mangueira, a ecofábrica comunitária opera um ciclo de regeneração em que o resíduo retorna ao território como solução ambiental. O que antes seria um passivo, como o óleo de cozinha usado, transforma-se em um vetor de biorremediação distribuída, capaz de atuar diretamente nas redes de esgoto onde o poder público muitas vezes não consegue chegar. É uma tecnologia de baixo custo, baseada na ciência, mas profundamente enraizada na realidade da comunidade, que gera impacto ambiental, sanitário e social ao mesmo tempo”, afirmou.
Entre as principais vantagens da tecnologia estão o baixo custo de implementação, a sustentabilidade do processo, a eficácia no enfrentamento de poluentes complexos, como resíduos orgânicos e metais, e o menor impacto ambiental em comparação a métodos tradicionais. Por se tratar de uma tecnologia social, executada por mão de obra 100% feminina local, o modelo também fortalece a participação comunitária, promove a educação ambiental e contribui para a redução da exposição da população a ambientes contaminados, com reflexos diretos na diminuição de doenças de veiculação hídrica.
Em um país onde mais de 90 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à coleta de esgoto, segundo a 16ª edição do Ranking do Saneamento (2024), iniciativas como as do projeto Omìayê demonstram que a inovação em saneamento básico também nasce nos territórios e pode ser escalada como parte da solução para um problema que afeta milhões de pessoas.


