No Parque Nacional da Tijuca, araras-canindés voltam a sobrevoar o Rio após dois séculos
Espécie retorna à Mata Atlântica carioca com projeto de reintrodução que aposta em ciência cidadã e restauração ecológica
247 - Depois de mais de 200 anos ausentes do céu do Rio de Janeiro, as araras-canindés voltaram a voar livres sobre a Mata Atlântica carioca. Três indivíduos da espécie Ara ararauna foram soltos no Parque Nacional da Tijuca no início de janeiro, marcando um passo simbólico e ecológico para a restauração da fauna em um dos biomas mais ameaçados do país. A iniciativa integra um esforço de longo prazo para recuperar funções ambientais essenciais e reconectar a floresta à sua biodiversidade original.
As araras, batizadas de Fernanda, Fátima e Sueli, chegaram ao parque em junho de 2025 e passaram por um cuidadoso processo de aclimatação antes da soltura definitiva, realizada no dia 7 de janeiro. O trabalho é conduzido pelo projeto Refauna, organização da sociedade civil dedicada à reintrodução de espécies nativas, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de parceiros institucionais.
Durante cerca de sete meses, as aves permaneceram em um recinto especialmente preparado dentro do parque, onde foram estimuladas a reconhecer o ambiente natural que havia sido habitado por seus ancestrais. Nesse período, passaram por treinamentos progressivos para fortalecimento muscular e aprimoramento do voo, além de um processo de adaptação alimentar voltado ao reconhecimento de frutos nativos da floresta. A equipe também trabalhou para reduzir a tolerância das araras à presença humana, condição essencial para a vida em liberdade.
A bióloga do Refauna e coordenadora da reintrodução das araras, Lara Renzeti, detalhou os bastidores do projeto e os desafios enfrentados desde o planejamento inicial. “O planejamento para trazer de volta as araras ao Rio começou em 2018, com destaque para a questão sanitária, que é desafiadora nesta espécie. O período de aclimatação exigiu uma dedicação enorme da equipe. Desejamos que elas se adaptem bem à vida livre e que os moradores e visitantes do Rio de Janeiro tenham, no futuro próximo, a oportunidade de avistar essas aves maravilhosas colorindo o céu da cidade. A reintrodução das araras agora precisa da colaboração dos cariocas, cuidando e valorizando os animais livres como eles devem ser”, afirmou.
Para a chefe do Parque Nacional da Tijuca, Viviane Lasmar, a soltura das araras representa um marco para a conservação ambiental urbana. “Daqui pra frente, em conjunto, seremos todos responsáveis pela sobrevivência desses animais em vida livre e, nós do ICMBio, acreditamos que a Ciência Cidadã é a grande aliada neste processo de monitoramento constante”, declarou.
Desde a chegada das aves ao parque, o projeto envolveu exames sanitários frequentes, avaliação comportamental e atenção rigorosa ao bem-estar individual. Esse cuidado explica por que uma quarta arara, Selton, que também integrou o grupo inicial, ainda não foi solta. O animal passa por um período de troca de penas, fase em que o voo pode se tornar inseguro, e seguirá em observação até reunir condições adequadas para a vida livre.
O monitoramento das araras será feito com o uso de anilhas, microchips e colares de identificação, além do acompanhamento direto da equipe técnica do Refauna. A estratégia inclui ainda a participação da sociedade por meio da chamada Ciência Cidadã, com registros de avistamentos feitos por moradores e visitantes. Para isso, podem ser utilizados aplicativos gratuitos de registro da fauna, como o SISS-Geo, desenvolvido pela Fiocruz, que permite o envio de fotos e informações mesmo sem conexão com a internet.
Segundo os responsáveis pelo projeto, esse modelo amplia significativamente a cobertura geográfica do monitoramento e garante um fluxo contínuo de dados em tempo real, contribuindo para decisões mais precisas por parte de gestores e biólogos. Paralelamente, o Refauna já iniciou diálogo com observadores de aves e estuda a realização de cursos de formação com guias que atuam no parque, fortalecendo a educação ambiental na região.
Durante a fase de aclimatação, as araras demonstraram interação natural com outros animais silvestres que frequentaram o recinto, como quatis e esquilos. Lara Renzeti relatou que essas aproximações ocorreram sem riscos. “Presenciamos alguns quatis entrando no recinto e não houve nenhum risco para nenhuma das duas espécies. O mesmo com um esquilo caxinguelê, que chegou a visitar o local de alimentação. Os macacos-pregos até passaram perto, mas não houve nenhum problema, embora as canindés tenham ficado mais alertas com a presença deles – algo que é normal e esperado por parte delas”, explicou.
No campo alimentar, um detalhe chamou a atenção da equipe: a preferência das araras por jabuticabas, fruto nativo da Mata Atlântica presente no parque. Apesar disso, a bióloga destacou que a adaptação ainda está em curso. “Elas terão que aprender a encontrar alimento, já que alguns frutos são sazonais, como a jabuticaba, que não está disponível nesta época do ano. Então, para ajudá-las nessa fase inicial, manteremos uma plataforma de alimentação, composta por ração e frutos comerciais, como banana, manga, goiaba, uva, laranja e coco, enquanto monitoramos. Isso será feito até que encontrem outras opções na floresta, como a macaúba, que elas experimentaram, gostaram e vão ter de buscar sozinhas”, disse.
Fernanda, Fátima e Sueli são apenas o começo de um plano mais amplo. A previsão é que Selton receba companhia ainda em 2026, com a chegada de dois ou três novos casais da espécie. Esses animais passam atualmente por exames sanitários e trâmites documentais, que avançam de forma positiva, segundo o Refauna. A expectativa é que a ampliação do grupo favoreça a reprodução e consolide o retorno definitivo das araras-canindés ao Rio de Janeiro.
O projeto prevê a reintrodução gradual de até 50 araras ao longo de cinco anos, inserindo-se em um esforço maior de combate à defaunação, problema caracterizado pela perda de espécies animais. Estudos apontam que cerca de 90% das plantas da Mata Atlântica dependem de animais para dispersar suas sementes, o que torna a presença da fauna essencial para a regeneração do bioma.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2023 indicam que 43% das espécies da fauna ameaçadas de extinção no Brasil são exclusivas da Mata Atlântica. A reintrodução das araras no Parque Nacional da Tijuca busca, portanto, restaurar processos ecológicos fundamentais e consolidar um modelo de refaunação capaz de orientar políticas públicas e inspirar novas iniciativas de conservação em todo o país.


