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Três anos da emergência Yanomami mostram avanços em proteção, saúde e território

Operações integradas, presença permanente do Estado e políticas de saúde e direitos humanos transformaram a realidade da Terra Indígena Yanomami desde 2023

Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Foto: Fundação Nacional dos Povos Indígenas)

247 - Três anos após o reconhecimento oficial da crise humanitária vivida pelo povo Yanomami, o cenário na maior terra indígena do país apresenta mudanças significativas em áreas como segurança, saúde, direitos humanos e recuperação ambiental. A emergência em saúde pública foi decretada em janeiro de 2023, após visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Roraima, quando a situação de 30,4 mil indígenas era considerada crítica, com mortes, destruição ambiental e avanço do garimpo ilegal. Desde então, uma ampla ação interministerial passou a ser coordenada pelo governo federal para enfrentar os impactos acumulados de anos de abandono. 

O Decreto nº 11.384/2023 instituiu um comitê sob coordenação da Casa Civil para articular respostas integradas envolvendo mais de 20 órgãos federais. O objetivo central foi garantir a retirada dos invasores, restaurar o usufruto exclusivo do território pelos indígenas e assegurar a presença permanente do Estado. Para o líder indígena Júlio Ye’kwana, presidente da Associação Wanasseduume Ye’kwana, os resultados são perceptíveis. “Depois de um período muito difícil, marcado por muita dor, com mortes, destruição da floresta e invasão do nosso território pelo garimpo, vimos uma mudança real: a retirada dos invasores trouxe alívio, proteção e esperança para o nosso povo, com a atuação do Governo Federal e das operações de desintrusão”, afirmou.

A estratégia de desintrusão ganhou novo fôlego em 2024, com a criação da Casa de Governo em Boa Vista, vinculada à Casa Civil. A estrutura centralizou as ações de segurança, fiscalização ambiental, saúde, assistência social e inteligência, permitindo resposta contínua às redes do garimpo ilegal. Entre março de 2024 e janeiro de 2026, mais de 9 mil operações foram realizadas, resultando em prejuízos estimados em R$ 644 milhões para os criminosos.

Segundo o diretor da Casa de Governo, Nilton Tubino, o combate ao garimpo vai além dos pontos de extração. “As ações de comando e controle na Terra Indígena Yanomami são permanentes e contínuas. O enfrentamento ao garimpo ilegal não se limita aos pontos de extração, mas avança sobre toda a cadeia logística, com fiscalização das rotas, controle dos acessos fluviais e aéreos e atuação integrada de inteligência para desarticular a rede que sustenta a atividade ilegal. Nós não vamos parar com as ações de proteção da terra”, declarou.

Tubino detalhou que a força-tarefa envolve órgãos como Funai, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Abin, Força Nacional, ICMBio, Censipam, além do Comando Operacional Conjunto Catrimani II, responsável por apoio logístico, evacuações aeromédicas, destruição de pistas clandestinas e patrulhamento fluvial. A presença permanente é garantida por pontos de emprego de força em Surucucu, Auaris e Waikás, com apoio do Exército Brasileiro e vigilância aérea coordenada pelo Comando de Operações Aeroespaciais.

O impacto das operações também foi reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal. Em setembro de 2025, o então presidente da Corte, ministro aposentado Luís Roberto Barroso, visitou a região e avaliou: “Acho que em nenhum lugar esse projeto de desintrusão foi feito de forma tão competente e eficiente como aqui. Estou verdadeiramente impressionado com o funcionamento e com a liderança do trabalho realizado.” O cumprimento das metas levou à extinção da ADPF 709, mantendo a Petição 9.585 para ações de sustentabilidade.

Os números da fiscalização mostram a dimensão da ofensiva: apreensão ou inutilização de 249 quilos de ouro, 242 quilos de mercúrio, 236 mil litros de óleo diesel, além da destruição de 77 pistas de pouso, 45 aeronaves, 308 embarcações e 1.969 motores. “A perda da infraestrutura enfraquece, desestrutura e torna cada vez mais inviável a prática de extração ilegal de garimpo na TI”, explicou Tubino.

O monitoramento do Censipam indica queda expressiva da área de garimpo ativo, que passou de 4.570 hectares em março de 2024 para apenas 56 hectares em dezembro de 2025. Paralelamente, a área da saúde registrou avanços com a inauguração do Centro de Referência em Saúde de Surucucu, em setembro de 2025, que já realizou 1.537 atendimentos, resolvendo 71% dos casos sem necessidade de remoção.

A redução da desnutrição infantil é outro indicador relevante. Dados do Ministério da Saúde apontam queda de 70% nas mortes por desnutrição no primeiro semestre de 2025, em comparação com 2023. A enfermeira Daiane Souza relatou a mudança no cotidiano das comunidades. “Hoje a gente vê uma outra realidade. Crianças que foram atendidas aqui com desnutrição hoje apresentam melhora. É muito bom ver o trabalho gerando retorno. A gente não vê mais o grau de desnutrição que via antes. É maravilhoso.” Já a nutricionista Regiane Carvalho destacou o reforço das equipes e dos insumos. “Para se ter uma ideia, eu não tinha essas fórmulas para tratar as crianças com desnutrição. Eu fazia a fórmula caseira: açúcar, óleo, flocão e leite. É impactante ver a mudança.”

No campo ambiental, a retirada de 242 quilos de mercúrio ajudou a reduzir riscos de contaminação de rios, peixes e comunidades. “O rastro de destruição que o mercúrio deixa, contaminando rios, peixes e até mesmo os indígenas, é difícil de reverter. Por isso, quando a gente impede que essa substância entre na floresta, estamos evitando uma série de problemas”, afirmou Tubino. Projetos de recuperação ambiental, como a Rede de Monitoramento Ambiental da Terra Indígena Yanomami, liderada pelo Ibama, e o Plano de Recuperação Ambiental conduzido pela Funai em parceria com a Universidade de Brasília, buscam mitigar os impactos do garimpo.

A servidora da Funai Nathali Germano explicou que o plano é construído a partir da escuta das comunidades. “A gente faz a escuta das comunidades, entende melhor os problemas que foram trazidos, impactos na roça, nos frutos, nas palhas, em todos os recursos que as comunidades utilizam”, disse. O pesquisador da UnB Maurice Nilsson ressaltou que, apesar da retomada do território, “a terra foi bastante modificada pelos impactos do garimpo”. Para o pesquisador indígena Genivaldo Crepuna Yanomami, o objetivo é claro: “Queremos a regeneração da floresta para voltarem as caças, as pescas, o caranguejo, o camarão”.

A agenda de direitos humanos também avançou com a criação do Centro de Referência em Direitos Humanos Yanomami e Ye’kwana, que já iniciou atendimentos e reúne uma equipe multiprofissional de 28 profissionais. Para o indígena Reinaldo Yanomami, um dos atendidos, “o centro é muito bom”. No campo do desenvolvimento sustentável, projetos de piscicultura, segurança alimentar e produção agroflorestal começaram a ser implantados, com participação direta das comunidades.

As ações culminam em uma série de eventos previstos para marcar os três anos da Emergência Yanomami, incluindo a inauguração de unidades demonstrativas de produção sustentável no território. O conjunto das iniciativas evidencia uma mudança estrutural na relação do Estado brasileiro com o povo Yanomami, baseada na proteção territorial, na garantia de direitos e na reconstrução das condições de vida.

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