Parque da Chapada dos Veadeiros completa 65 anos com gestão compartilhada como referência
Unidade no Cerrado reúne comunidades, ciência e poder público em modelo de conservação reconhecido internacionalmente
247 - O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, celebrou 65 anos de criação reafirmando seu papel estratégico na preservação do Cerrado e na integração entre conservação ambiental e desenvolvimento regional. A trajetória da unidade foi relembrada em um evento que destacou a atuação conjunta de gestores públicos, pesquisadores, brigadistas e comunidades locais, consolidando a gestão compartilhada como eixo central de um modelo que alia proteção da biodiversidade, uso público sustentável e fortalecimento do território. A celebração ocorreu no campus da UnB Cerrado, em Alto Paraíso de Goiás, reunindo diferentes gerações que ajudaram a construir a história do parque.
Reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco, o parque foi criado em 1961, durante o governo de Juscelino Kubitschek, a partir de uma proposta da Fundação Coimbra Bueno para proteger os recursos naturais do entorno da nova capital federal. Inicialmente batizado de Parque Nacional do Tocantins, o território passou a se chamar Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV) e hoje abrange cerca de 240 mil hectares, protegendo uma das áreas mais preservadas do Cerrado, bioma considerado um dos mais antigos e diversos do planeta.
Na abertura oficial do evento, o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Mauro Pires, destacou o caráter público da unidade de conservação e a responsabilidade coletiva em sua preservação. “Celebrar os 65 anos do Parque é reafirmar seu caráter de bem público e o dever coletivo de preservá-lo. A trajetória mostra que sua criação foi uma decisão acertada, que segue com dimensão essencial para a conservação do Cerrado, berço das águas, e para a proteção de um recurso fundamental para a vida, a economia e a biodiversidade”, afirmou.
A cerimônia também foi marcada por homenagens a trabalhadores que atuam diretamente na proteção do território. Agricultor assentado na região, Valdeci Carvalho contou sua trajetória dentro do parque, iniciada em 2007, quando ingressou como brigadista. O que começou como um trabalho temporário se transformou em quase 18 anos de dedicação, passando pelo enfrentamento direto aos incêndios e, mais recentemente, pela atuação na restauração ambiental como cofundador da Associação Cerrado de Pé. “O Parque me mudou como pessoa. Eu entrei pelo salário, mas depois você pega amor e o dinheiro vira um bônus. Perdi uma fase do crescimento da minha filha pelas escalas de trabalho, mas fiz isso por ela. Para que um dia ela, ou minha neta, pudessem ver um animal, ver uma cachoeira”, relatou.
Ao lado de Valdeci, Claudomiro Cortes, conhecido como Clau, relembrou a transformação social da região após a criação da unidade de conservação. Ex-brigadista do parque e integrante do Cerrado de Pé, organização formada por agricultores familiares, quilombolas e assentados, ele destacou o impacto econômico e social do turismo associado à preservação ambiental. “Antes, a Chapada vivia do garimpo, num cenário de muita pobreza e sofrimento. Com a criação do parque, veio o turismo, e o turismo trouxe uma vida melhor, trabalho mais digno e novas oportunidades”, declarou.
Segundo Clau, a associação coleta, em média, cerca de 30 toneladas de sementes por ano, abrangendo diferentes fitofisionomias do Cerrado, com espécies de capins, arbustos e árvores nativas. O trabalho alia restauração ambiental e geração de renda para as comunidades locais, adotando uma meta simbólica que se tornou o lema do grupo. “A gente criou uma meta que é coletar e plantar sementes tantas quantas estrelas no céu. A gente nem sabe quantas estrelas tem, mas a ideia é essa, não saber quantas a gente vai plantar e sair plantando o tempo todo”, explicou.
A relação histórica entre o parque e seu entorno foi abordada pela ex-chefe da unidade e atual coordenadora-geral de Uso Público e Serviços Ambientais do ICMBio, Carla Guaitanele. Ela compartilhou sua trajetória pessoal e profissional ligada ao PNCV e ressaltou o fortalecimento da participação social na gestão ao longo do tempo. “Desde adolescente, sempre tive o sonho de trabalhar no Parque Nacional. Quando estive à frente da gestão, foi a realização de um sonho de vida”, afirmou. Para ela, iniciativas como a ampliação do parque e o Manejo Integrado do Fogo são resultados diretos da cooperação entre o ICMBio e a sociedade. “São dois marcos na história daqui que não seriam possíveis apenas pela atuação do ICMBio”, destacou, acrescentando: “É um exemplo de integração com o entorno, uso público com distribuição de renda e conexão de áreas protegidas. É um caso de sucesso em que o Cerrado e as pessoas ganham”.
A evolução do diálogo entre o poder público e a população local também foi lembrada por Aristéia Avelino, liderança comunitária da Vila de São Jorge. Ela recordou que, nos primeiros anos, a atuação do Estado foi marcada por conflitos e distanciamento. “O papel era de polícia mesmo. O acesso era difícil, não havia acolhimento”, relatou. Com o tempo, segundo Aristéia, a aproximação entre a gestão da unidade e a comunidade contribuiu para reduzir tensões e fortalecer a cooperação. Hoje, ela avalia que o parque é o principal motor da economia local e elemento central da identidade territorial. “Quando a gente pertence, a gente faz a diferença na proteção desse ambiente”, afirmou, acrescentando: “É uma questão de soberania. Aqui está garantida a nossa água e os recursos da biodiversidade. Sem o parque, não existiria o turismo e talvez nem a comunidade estivesse ali”.
Os desafios futuros do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foram discutidos na mesa de encerramento do evento, que reuniu o chefe da unidade, André Ribeiro, a geóloga Joana Sanchez e técnicos do ICMBio. O coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação em Biodiversidade e Restauração Ecológica (CBC), Alexandre Sampaio, alertou para os impactos das mudanças climáticas sobre o manejo do fogo. “O que sabíamos sobre fogo está mudando drasticamente. Precisamos inovar e adaptar”, disse. Joana ressaltou a importância da ciência na gestão do parque, destacando que o mapeamento geológico contribui tanto para o combate a incêndios quanto para a segurança dos visitantes.
Ao final, André Ribeiro reforçou que o êxito do parque está diretamente ligado à continuidade das políticas públicas e à solidez das parcerias construídas ao longo dos anos. “Nosso desafio é manter o território, manter a equipe e manter as parcerias. A sociedade não aceita mais que a gente pare de trabalhar com a excelência que alcançamos. O parque é um exemplo de que a conservação só é possível com as pessoas”, concluiu. Ao completar 65 anos, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros se consolida como um território vivo, onde preservação ambiental, ciência e participação comunitária caminham juntas na defesa do Cerrado.


