Após fracasso do tarifaço, Eduardo Bolsonaro tenta atuação internacional por Flávio
Eduardo Bolsonaro aposta em rede internacional da extrema-direita para projetar o senador como pré-candidato ao Planalto
247 - Sem mandato na Câmara dos Deputados, Eduardo Bolsonaro passou a mobilizar a rede de relações internacionais construída ao longo dos últimos anos para fortalecer politicamente o irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A estratégia envolve uma agenda fora do país, com encontros com autoridades estrangeiras e participação em eventos internacionais da direita, em meio às articulações que miram a pré-candidatura de Flávio à Presidência da República, informa a Folha de São Paulo.
A movimentação ganhou força durante uma viagem ao Oriente Médio, onde os irmãos já se reuniram com ao menos 16 autoridades, incluindo presidentes, primeiros-ministros, ministros e parlamentares. Inicialmente, Flávio comunicou ao Senado que se afastaria do Brasil entre 18 de janeiro e 7 de fevereiro em missão oficial, com despesas custeadas por recursos públicos. Posteriormente, prorrogou a estadia por mais cinco dias e afirmou que arcaria com os gastos adicionais com recursos próprios.
O roteiro incluiu passagens por Israel e Bahrein, com planos de seguir para os Emirados Árabes Unidos e o Catar. Há ainda a possibilidade de compromissos em países europeus, que não foram definidos. No início de janeiro, Flávio também esteve nos Estados Unidos, onde Eduardo reside desde março de 2025.
Mesmo após ter o mandato cassado no fim do ano por excesso de faltas, Eduardo continua sendo apresentado como parlamentar em eventos internacionais. Isso ocorreu, por exemplo, na Conferência Internacional de Combate ao Antissemitismo, realizada em Jerusalém. A mudança de foco ocorre após derrotas recentes na interlocução com Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, que, após diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reduziu o impacto de tarifas e revogou a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes.
Durante a conferência em Israel, Flávio Bolsonaro assumiu publicamente a condição de pré-candidato. “Senhoras e senhores, eu discurso hoje não só como senador, mas como pré-candidato a presidente do Brasil”, afirmou em discurso na última terça-feira (27). Na mesma ocasião, declarou que os Estados Unidos ajudaram a “construir um novo modelo de cooperação internacional” e inauguraram uma nova fase para a América Latina.
Em Israel, os irmãos se encontraram com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o presidente Isaac Herzog e o ministro do Combate ao Antissemitismo, Amichai Chikli. Com este último, gravaram um vídeo no qual Eduardo se refere a integrantes do Hamas como “selvagens”. A agenda incluiu ainda encontros com o ex-primeiro-ministro da Áustria, Sebastian Kurz, o primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, e o embaixador argentino Axel Wahnish. Uma foto com o diplomata foi compartilhada pelo presidente da Argentina, Javier Milei.
A viagem também envolveu reuniões com parlamentares europeus. Os irmãos divulgaram imagens ao lado de pelo menos seis deputados do Parlamento Europeu, entre eles os espanhóis Hermann Tertsch e Jorge Buxadé, do Vox, o português Pedro Frazão, vice-presidente do Chega, e o polonês Dominik Tarczyński. Após o encontro, Tarczyński publicou uma mensagem defendendo a eleição de Flávio em 2026.
No Bahrein, a agenda incluiu reuniões com o primeiro-ministro e príncipe herdeiro Salman bin Hamad bin Isa Al Khalifa, com o príncipe Sheikh Khalid bin Hamad Al Khalifa e com o parlamentar Hassan Ibrahim Hassan. Segundo Flávio Bolsonaro, os compromissos têm como objetivo o “diálogo institucional, a cooperação internacional e a troca de experiências em temas estratégicos”.
A aproximação de Flávio com as articulações internacionais conduzidas por Eduardo representa uma inflexão em sua trajetória política. Desde 2024, o senador havia se mantido distante das principais comitivas lideradas pelo irmão, que buscavam denunciar no exterior a suposta existência de uma “ditadura” no Brasil e defender sanções contra o país. Após o fim do governo de Jair Bolsonaro, Flávio realizou apenas três viagens internacionais em missão oficial.
O senador não participou, por exemplo, da comitiva bolsonarista que esteve em Washington em abril do ano passado, com a presença de ao menos 15 parlamentares. Entre eles estavam os deputados Paulo Bilynskyj (PL-SP) e Rodrigo Valadares (União Brasil-SE), que agora acompanham os irmãos na viagem ao Oriente Médio.
Eduardo Bolsonaro foi denunciado em setembro sob a acusação de tentar intervir em processos envolvendo Bolsonaro. Em novembro, Alexandre de Moraes determinou o cancelamento de seu passaporte diplomático.
Para o professor de relações internacionais e coordenador do Observatório da Extrema Direita, David Magalhães, a atuação externa é estratégica. “A articulação internacional é central para a extrema direita e para o bolsonarismo, porque a ascensão da ultradireita é um fenômeno global”, afirma. Segundo ele, o apoio buscado por Flávio pode reduzir o custo político de posições mais radicais no exterior e, internamente, ajudar a construir uma imagem de pertencimento a um campo político global.
Nesse contexto, Magalhães avalia que Eduardo exerce papel decisivo. “O que se observa agora é uma tentativa de transferir parte desse capital político, dessas conexões e dessa legitimidade internacional para Flávio Bolsonaro, apresentando-o como herdeiro e continuidade dessa articulação internacional já consolidada”, conclui.


