Caso Master envolveu espionagem, tentativa de fuga e rede com 216 fundos e 143 empresas no país
Investigação revela espionagem, tentativa de fuga e estrutura financeira com centenas de fundos e empresas no escândalo do banco Master
247 - A investigação sobre o banco Master revelou um esquema que combina espionagem, tentativa de fuga internacional e uma complexa rede financeira envolvendo centenas de fundos e empresas. O caso, que ganhou novos contornos com a descoberta de invasões cibernéticas e articulações paralelas, mostra como o ex-banqueiro Daniel Vorcaro teve acesso antecipado a decisões judiciais e movimentações das autoridades.
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, o esquema incluiu a invasão do computador do procurador Gabriel Pimenta, responsável pela investigação no Ministério Público Federal (MPF), permitindo que documentos sigilosos chegassem ao investigado ainda antes de ações oficiais serem executadas.
De acordo com a apuração, a espionagem começou a ser detectada após uma varredura nos sistemas do MPF identificar acessos indevidos. Mesmo com o nível máximo de sigilo judicial, Vorcaro também teria sido informado previamente sobre o mandado de prisão expedido pelo juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, na tarde de domingo (17 de novembro).
O vazamento desencadeou uma série de movimentos considerados suspeitos pelas autoridades. Investigadores apontam que, no mesmo dia, houve uma tentativa de viabilizar um plano de fuga para Malta, enquanto a defesa do ex-banqueiro protocolava pedidos para evitar medidas cautelares. Paralelamente, foi anunciada uma proposta de compra do banco pela Fictor Holding Financeira — considerada por investigadores como um “simulacro” para facilitar a saída do país.
Horas antes, Vorcaro participou de uma reunião por videoconferência com dirigentes do Banco Central (BC), incluindo o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino. Na ocasião, ele mencionou negociações com investidores estrangeiros e afirmou que viajaria a Dubai, o que aumentou a suspeita de fuga. A Polícia Federal (PF) identificou ao menos três planos de voo diferentes associados ao empresário.
A defesa sempre negou qualquer intenção de evasão, sustentando que a viagem teria como objetivo tratar da venda do banco. Ainda assim, investigadores consideram que as múltiplas rotas indicam tentativa de deixar o país com apoio de informantes. Mensagens apreendidas pela PF apontam conexão com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, apontado como operador de um grupo dedicado à obtenção de informações e monitoramento.
A estratégia, no entanto, não teve sucesso. Vorcaro foi preso na noite de domingo (17), no aeroporto de Guarulhos, no momento em que tentava embarcar. No mesmo dia, o Banco Central aprovou a liquidação extrajudicial do Master e de instituições ligadas ao grupo.
Em relatório ao Tribunal de Contas da União (TCU), o BC apontou uma deterioração severa da situação financeira do banco, destacando “estratégias de negócios inadequadas” e “graves irregularidades e ilícitos”, incluindo a cessão de créditos inexistentes e o descumprimento de normas regulatórias. Segundo o órgão, a liquidação foi necessária diante de uma crise de liquidez considerada insustentável.
No momento da intervenção, o banco possuía apenas R$ 4,8 milhões em caixa, frente a compromissos imediatos de R$ 48,6 milhões em CDBs, chegando a R$ 123,8 milhões ao longo da semana. O déficit de liquidez ultrapassava 2.400%, evidenciando a gravidade da situação.
O caso também expôs pressões políticas e institucionais. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, relatou à CPI do crime organizado que, na semana da decisão que vetou a operação com o BRB, houve campanha pública contra dirigentes do órgão. “Na semana da rejeição da compra do BRB, eu me lembro de fazer o caminho da minha residência até o BC e não havia um ponto de ônibus em que não tivesse a foto de um diretor do BC [...] dizendo que ele estava fazendo um trabalho político por estar rejeitando”, afirmou.
Além disso, parlamentares do Centrão apresentaram um projeto para permitir ao Congresso destituir dirigentes do BC, movimento que coincidiu com a escalada de pressões sobre a instituição.
A dimensão do esquema financeiro também chamou atenção dos investigadores. Levantamento citado pela Folha de S.Paulo identificou a participação de ao menos 216 fundos e 143 empresas em operações relacionadas às fraudes. A estrutura foi mapeada com auxílio de software que organizou as conexões como um sistema complexo de interdependências.
Entre os ativos utilizados estavam papéis de difícil avaliação, como créditos antigos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) e créditos de carbono, que eram inflados para valorizações artificiais. Os recursos circulavam entre fundos e empresas, alimentando o esquema.
Em um dos episódios identificados, recursos dessa rede foram usados para adquirir uma mansão avaliada em R$ 36 milhões em Brasília, frequentada por autoridades.
A investigação segue em andamento, com novos desdobramentos sendo incorporados à análise das autoridades, enquanto o caso se consolida como um dos mais complexos já apurados no sistema financeiro brasileiro recente.


