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Chico Lucas deixa o Piauí e assume papel-chave na segurança do governo Lula

Ex-secretário estadual assume secretaria nacional com missão de ampliar políticas baseadas em dados, integração policial e tecnologia

Francisco Lucas Costa Veloso, o "Chico Lucas" (Foto: Governo do Piauí)

247 - Francisco Lucas Costa Veloso, conhecido como Chico Lucas, foi escolhido para comandar a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça. Aos 41 anos, o advogado piauiense chega a Brasília após três anos à frente da pasta no Piauí, onde apostou no uso intensivo de dados, na integração das forças policiais e no diálogo com a academia para reduzir indicadores de violência. A nomeação o coloca no centro de uma das áreas mais sensíveis do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com a tarefa de articular políticas nacionais e enfrentar a expansão do crime organizado, informa a Folha de São Paulo.

O convite partiu do novo ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, e contou com o apoio do Conselho Nacional de Secretários de Segurança Pública (Consesp), que reúne os chefes das pastas estaduais. A escolha reflete o peso político e técnico acumulado por Chico Lucas no Piauí, estado governado por Rafael Fonteles (PT), de quem é aliado de longa data. Filiado ao PT, ele construiu uma trajetória que mescla atuação jurídica, experiência institucional e protagonismo na formulação de políticas públicas.

Formado em direito pela Universidade Federal do Piauí, Chico Lucas é procurador do estado desde 2009. Iniciou a carreira ainda jovem, aos 19 anos, na Polícia Rodoviária Federal, e tornou-se procurador aos 25. Entre 2016 e 2018, presidiu a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no Piauí. A relação com Rafael Fonteles vem da juventude, quando estudaram na mesma escola, e se consolidou politicamente ao longo dos anos.

Ao assumir a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, em 2023, adotou uma estratégia de forte presença policial nas ruas, especialmente por meio de blitze em vias urbanas das principais cidades. A política lhe rendeu o apelido de “Chico Blitze” e marcou o início de uma gestão que combinou ações ostensivas com planejamento técnico. Paralelamente, montou uma equipe com mais de 50 pesquisadores, entre mestres e doutores, responsáveis por subsidiar a formulação de políticas de segurança baseadas em evidências.

Os resultados apareceram nos indicadores oficiais. Entre 2022 e 2025, o estado registrou redução de 31% nas mortes violentas, queda de 38% nos roubos de veículos e diminuição de 49% nos roubos em geral. As mortes decorrentes de intervenções policiais também recuaram, somando 20 casos em 2025. O desempenho contrastou com a realidade de outros estados do Nordeste governados pelo PT, como Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte, que enfrentaram crises mais agudas relacionadas à disputa entre facções criminosas.

A principal vitrine da gestão, no entanto, foi o programa de recuperação de celulares roubados e furtados. A iniciativa reduziu esse tipo de crime em 53% e possibilitou a recuperação de mais de 14 mil aparelhos no Piauí. O modelo ganhou projeção nacional, foi incorporado pelo Ministério da Justiça em 2024 e passou a ser replicado em pelo menos nove estados, entre eles São Paulo e Rio de Janeiro.

Outra frente de inovação foi o lançamento do BO Fácil, aplicativo que permite o registro de boletins de ocorrência, o envio de denúncias anônimas e o acionamento do número 190 por meio do WhatsApp. A ferramenta ampliou o acesso da população aos serviços de segurança e reforçou o uso da tecnologia como eixo central da política estadual.

No Piauí, Chico Lucas construiu a imagem de um gestor de perfil linha-dura, mas que defende a adoção de políticas alinhadas à garantia dos direitos humanos. É descrito como um articulador pragmático, disposto a enfrentar embates políticos quando necessário. Logo no início da gestão, protagonizou debates intensos ao lançar o programa “Pacto pela Ordem”, um conjunto de 13 medidas voltadas ao combate ao crime organizado. O pacote endureceu punições para crimes envolvendo policiais e criou um fundo destinado a apoiar vítimas da violência.

Entusiasta do uso de tecnologia, investiu em sistemas de videomonitoramento, abriu concurso para a contratação de 3 mil policiais e ampliou, ao longo de três anos, o número de mandados de prisão cumpridos e de apreensões de drogas. Apesar dos avanços, a gestão também lidou com desafios persistentes, como o fortalecimento das facções criminosas e o aliciamento de jovens em situação de vulnerabilidade.

Dados do governo estadual apontam que as ocorrências de tráfico de drogas cresceram 117% nos últimos dois anos, totalizando 2.650 registros. As organizações criminosas diversificaram suas atividades, passando a atuar em esquemas de lavagem de dinheiro, falsificação de bebidas e controle de postos de combustíveis. Segundo o sociólogo Arnaldo Eugênio, especialista em segurança pública, “elas disputam territórios e aliciam jovens que são vulneráveis. É preciso reforçar ações nas áreas educacional e social”.

Em dezembro, em operação integrada com a polícia de São Paulo, a Secretaria de Segurança do Piauí prendeu empresários investigados na operação Carbono Oculto 86 e interditou cerca de 40 postos de combustíveis ligados ao PCC. A ofensiva evidenciou a capacidade de articulação interestadual que agora será exigida em escala nacional.

À frente da Secretaria Nacional de Segurança Pública, Chico Lucas terá como desafios centrais avançar nas discussões para a aprovação da PEC da Segurança no Congresso Nacional, enfrentar a resistência de governadores alinhados à direita e coordenar estratégias de combate às facções criminosas em todo o país, ampliando uma agenda que combina repressão qualificada, inteligência e políticas públicas estruturantes.

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