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Edinho Silva alerta para crise global, avanço do nacionalismo e desgaste da democracia às vésperas de 2026

Presidente do PT afirma que disputa geopolítica liderada por Donald Trump pressiona a América do Sul e alimenta sentimento antissistema no Brasil

Edinho Silva (Foto: Evandro Macedo / LIDE)

247 - O presidente do Partido dos Trabalhadores, Edinho Silva, afirmou nesta segunda-feira, 9, que o Brasil se aproxima das eleições de 2026 em um ambiente marcado pelo descrédito na democracia representativa, pelo crescimento de sentimentos antissistema e pelos efeitos prolongados de uma crise econômica global. A declaração foi feita durante almoço promovido pelo LIDE em torno de seu nome, com a presença de lideranças políticas e empresariais, entre elas João Doria, o ministro Wellington Dias e o ex-senador Eduardo Suplicy.

Ao iniciar sua fala, Edinho agradeceu o convite do LIDE e destacou o espaço de diálogo proporcionado pela entidade. Ele saudou João Doria, a equipe do LIDE e fez menção especial ao ministro Wellington Dias, além de registrar a presença de Eduardo Suplicy e de dirigentes do Partido dos Trabalhadores. Edinho ressaltou que o encontro se dava em um momento político especialmente complexo, tanto no plano internacional quanto no cenário brasileiro.

Segundo o presidente do PT, o mundo vive a construção de uma nova geografia e de uma nova geopolítica internacional, cujo epicentro está no atual governo dos Estados Unidos, comandado por Donald Trump, atual presidente do país. Para Edinho, essa reconfiguração impacta todas as nações, mas atinge de forma ainda mais sensível os países da América do Sul.

Crise longa e fim do consenso da globalização

Edinho Silva afirmou que não há divergência entre analistas econômicos quanto ao fato de que o mundo atravessa uma crise econômica longa, comparável, do ponto de vista histórico, apenas à crise de 1929. Segundo ele, a crise iniciada em 2008 enterrou a concepção de que a economia global seria organizada apenas por grandes corporações internacionais, recolocando o Estado nacional como ator central da dinâmica econômica.

Para Edinho, essa retomada do papel do Estado nacional não elimina a financeirização da economia nem a internacionalização dos fluxos de capital, mas redefine o eixo das decisões estratégicas. Ele avaliou que tanto a crise de 2008 quanto a pandemia explicam grande parte das tensões internacionais atuais e ajudam a compreender por que o mundo apresenta hoje menores índices sustentáveis de crescimento econômico.

Nacionalismo, xenofobia e enfraquecimento democrático

Na avaliação do dirigente petista, o fortalecimento do Estado nacional veio acompanhado do crescimento do nacionalismo, da xenofobia e da perseguição a imigrantes em várias partes do mundo. Edinho recorreu a uma metáfora popular para descrever esse movimento, observando que, em contextos de escassez e empobrecimento, prevalece a lógica do “se falta farinha, meu pirão primeiro”. Segundo ele, essa visão se manifesta em slogans implícitos como “a Alemanha para os alemães”, “Portugal para os portugueses” e “a América para os americanos”.

Esse contexto, afirmou, tem provocado um enfraquecimento da democracia representativa em escala global. Edinho citou o aumento da abstenção eleitoral em diversos países como evidência de um crescente descrédito da população em relação às instituições políticas. Em sua análise, a percepção dominante é a de que as pessoas votam repetidamente, mas não veem melhora concreta em suas condições de vida, especialmente em um cenário de estagnação econômica que afeta com mais força os setores médios da sociedade.

Antissistema, redes sociais e cenário brasileiro

Edinho Silva destacou que o sentimento antissistema é potencializado por um fenômeno típico do século XXI: a popularização da comunicação via internet e redes sociais. Ele lembrou que, nos anos 1990, o debate era sobre a democratização dos meios de comunicação, enquanto hoje qualquer pessoa produz e dissemina conteúdo a partir de um celular. O problema, segundo ele, não está mais no acesso à produção de conteúdo, mas no fato de essa produção ocorrer em um ambiente de frustração econômica, descrédito institucional e polarização política.

Para o presidente do PT, o Brasil vive exatamente o reflexo desse desarranjo internacional. Ele afirmou que esse conjunto de fatores — crise econômica prolongada, enfraquecimento democrático e sentimento antissistema — moldará o ambiente político das eleições de 2026.

Políticas públicas e a experiência da pandemia

Ao abordar o cenário nacional, Edinho afirmou que o governo do presidente Lula atua na reorganização das políticas públicas após um período de profunda desestruturação, evidenciada de forma dramática durante a pandemia. Sem entrar em polêmicas diretas, ele citou exemplos concretos para ilustrar a falta de critérios técnicos na distribuição de recursos da saúde.

Edinho relatou que, quando era prefeito de uma cidade com cerca de 250 mil habitantes, recebeu R$ 25 milhões para enfrentar a pandemia, enquanto um município vizinho, com apenas 40 mil habitantes, recebeu R$ 78 milhões. Para ele, o episódio demonstra que o Sistema Único de Saúde chegou a operar “em frangalhos”, com repasses baseados mais em influência política do que na lógica técnica do SUS, considerado por ele um dos sistemas públicos de saúde mais organizados do mundo.

Agenda nacional de desenvolvimento exige maturidade política

Ao encerrar sua intervenção, Edinho Silva afirmou que o Brasil precisa demonstrar maturidade política para dialogar e construir consensos mínimos em torno de uma agenda estratégica de desenvolvimento nacional. Segundo ele, o país deve ser capaz de discutir temas estruturantes, independentemente de disputas partidárias, como a política para terras raras, a reindustrialização, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde e a educação.

Para Edinho, sem um debate qualificado e responsável sobre esses eixos centrais, o Brasil corre o risco de permanecer preso a conflitos políticos estéreis, incapazes de responder aos desafios impostos pela nova geopolítica global e pelas transformações econômicas do século XXI.

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