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Em negociação com o PT, MDB se divide entre apoio a Lula e neutralidade nas eleições

Direção nacional indica que 16 diretórios estaduais são contrários ao alinhamento com o presidente, enquanto 11 apoiam a aliança

14.02.2025 - Cerimônia de divulgação dos investimentos do governo federal para a COP30, em Belém-PA (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 - O MDB chega ao ano eleitoral dividido quanto a um eventual apoio à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Palácio do Planalto. Levantamento interno da direção nacional indica que 16 diretórios estaduais são contrários ao alinhamento com o petista, enquanto outros 11 defendem a aproximação. Diante da fragmentação, a sigla passou a considerar a hipótese de neutralidade na disputa presidencial, permitindo que cada estado decida sua posição, informa o jornal O Globo.

O comando nacional tem reforçado que a prioridade estratégica do partido está na formação dos palanques estaduais. A decisão formal sobre o posicionamento na eleição presidencial será tomada apenas na convenção nacional, instância que reúne parlamentares, presidentes de diretórios e delegados. Estados com maior desempenho eleitoral nas últimas eleições têm peso ampliado na deliberação interna.

A última vez que o MDB esteve oficialmente ao lado do PT em uma eleição presidencial foi nas campanhas de Dilma Rousseff, quando indicou Michel Temer como vice. Mesmo nesses pleitos, houve dissidências regionais: em 2010 e 2014, setores da legenda apoiaram candidatos do PSDB. A ruptura entre as duas siglas se consolidou após o golpe contra Dilma, e a reaproximação ocorreu de forma gradual, com divisões mais evidentes a partir do segundo turno de 2022.

Na tentativa de ampliar sua base de apoio, o Palácio do Planalto avalia oferecer ao MDB a indicação para a vice-presidência, atualmente ocupada por Geraldo Alckmin (PSB). Internamente, porém, a leitura predominante é de que a neutralidade ainda é o caminho mais provável.

O presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, destacou a tradição descentralizada da legenda. “Nosso foco é na montagem dos palanques estaduais, respeitando a estratégia eleitoral de cada diretório. Essa é uma característica histórica do MDB”, afirmou. Ele acrescentou: “Por isso, sempre digo: o MDB não tem dono".

Os diretórios favoráveis ao apoio a Lula concentram-se principalmente nas regiões Norte e Nordeste. No Pará, reduto do governador Helder Barbalho, há alinhamento com o governo federal. O ministro das Cidades, Jader Filho, declarou ao Poder360 que considera “questão de coerência” o MDB apoiar o presidente, já que a legenda ocupa ministérios estratégicos na Esplanada.

Em Alagoas, onde o ministro dos Transportes, Renan Filho, é apontado como possível candidato ao governo estadual, também há inclinação favorável ao Planalto. Ele é citado entre os nomes cogitados para compor uma eventual chapa presidencial como vice, caso o MDB formalize apoio. Outra possibilidade mencionada é a de Helder Barbalho.

O senador Renan Calheiros afirmou que a proposta partiu do próprio presidente. “Quem falou isso (de ter a vice) foi o Lula, não fomos nós. Ele tratou disso comigo no dia 17 de dezembro, na Granja do Torto”, disse. O parlamentar ponderou que seria necessário um convite formal para que a legenda discutisse oficialmente o tema.

Lula também deve contar com apoio nos quatro estados governados por aliados onde o MDB ocupa as vice-governadorias: Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. No entanto, rearranjos regionais indicam que essa configuração pode não se repetir integralmente neste ano.

Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, a resistência ao alinhamento com o PT é expressiva. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, avalia migrar para o PSB para disputar o Senado pelo estado. O prefeito da capital, Ricardo Nunes, aliado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem defendido a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência.

No Centro-Oeste, o cenário também é desfavorável ao apoio a Lula. Em Goiás, o vice-governador Daniel Vilela é aposta do MDB para a sucessão estadual, enquanto o atual governador Ronaldo Caiado (PSD) se coloca como pré-candidato ao Planalto. Vilela rechaça uma aliança com o PT: “Não vejo a mínima possibilidade de aliança entre MDB e o PT. Defendo que o MDB faça parte da construção de uma frente de centro-direita".

No Sul, o posicionamento majoritário segue a mesma linha. No Rio Grande do Sul, o vice-governador Gabriel Souza articula candidatura ao Executivo estadual com apoio do governador Eduardo Leite (PSD), que também manifesta interesse na corrida presidencial.

Em Minas Gerais, o partido trabalha com a pré-candidatura do ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Gabriel Azevedo. Outra alternativa discutida é o presidente da Assembleia Legislativa, Tadeu Leite, nome lembrado por setores petistas como possível palanque para Lula no estado.

No Rio de Janeiro, o alinhamento com o PT tampouco é considerado provável. O ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, principal liderança da legenda no estado, é próximo da família Bolsonaro e aguarda no Supremo Tribunal Federal a retomada do julgamento que pode redefinir sua situação eleitoral. Ele está inelegível em razão de condenação por crime ambiental.

Desde 2002, quando indicou a vice na chapa de José Serra, o MDB alternou candidaturas próprias e neutralidade nas eleições presidenciais, tendo apoiado formalmente o PT apenas nas disputas de 2010 e 2014. O histórico reforça a tradição de autonomia regional que volta a marcar o debate interno da sigla neste novo ciclo eleitoral.

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