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Família de Daniel Vorcaro é ligada a projeto bilionário de créditos de carbono em área pública na Amazônia

Empresa comandada por pai e irmã do banqueiro teria adquirido 80% de unidades de carbono em operação que inflou fundos ligados à Reag

Daniel Vorcaro (Foto: Divulgação )

247 - A família de Daniel Vorcaro, banqueiro do Master acusado de articular um esquema fraudulento com fundos de investimento, aparece como investidora de um projeto bilionário de créditos de carbono baseado em estimativas infladas e ancorado em uma área pública da União na Amazônia. Segundo a apuração, isto torna o arranjo irregular e coloca o caso entre os maiores escândalos já associados a esse mercado.As informações foram reveladas em reportagem da Folha de S.Paulo, que diz ter obtido contratos, laudos e registros indicando que a família de Vorcaro está ligada  desde a origem à estrutura montada para explorar unidades de carbono em uma propriedade chamada Fazenda Floresta Amazônica, no município de Apuí (AM), com apoio de mecanismos financeiros que envolveram fundos administrados pela Reag.

O que são créditos de carbono e por que o caso chama atenção

Créditos de carbono são certificados adquiridos por empresas para compensar emissões de gases de efeito estufa. Projetos ambientais, como restauração florestal e energia limpa, podem gerar esses créditos conforme a quantidade de emissões evitadas ou removidas da atmosfera, permitindo a negociação no mercado.

Porém, a operação descrita se apoia em “unidades de estoque de carbono” apresentadas como estimativas, sem preço público transparente e sem referência clara de mercado, e usadas, mesmo assim, como base para reestruturar participações e elevar drasticamente o valor de empresas conectadas a fundos de investimento.

Como a família Vorcaro entra na operação

O elo entre o projeto de carbono e a família Vorcaro aparece em uma empresa chamada Alliance Participações, descrita como sociedade anônima fechada. Conforme os documentos citados na apuração, a Alliance é controlada por Henrique Moura Vorcaro, presidente da companhia, e por Natália Bueno Vorcaro Zettel, diretora e esposa de Fabiano Zettel, alvo de operação na semana anterior à publicação da reportagem. Eles são, respectivamente, pai e irmã de Daniel Vorcaro, que, segundo o texto, “sempre negou participação no negócio de carbono na região”.Em agosto de 2022, foi assinado um Contrato de Opção de Compra e Venda entre a Alliance, o fazendeiro Marco Antônio de Melo (apontado como dono da terra) e José Antônio Ramos Bittencourt, identificado como mediador. Pelo acordo, a Alliance teria se tornado detentora majoritária das unidades de carbono associadas à Fazenda Floresta Amazônica, com 80% do que seria produzido, enquanto Bittencourt ficaria com 20%.

A engrenagem dos fundos e a “turbinada” bilionária

Segundo o material descrito, o passo seguinte foi estruturar a entrada do projeto em fundos administrados pela Reag. Em 2023, já com o acordo formalizado, as operações teriam transformado 168,872 milhões de unidades estimadas de “estoque de carbono” do território em cotas de fundos.Nesse arranjo, Bittencourt recebeu cotas como pagamento e ficou, de acordo com o texto fornecido, com 2,5% do New Jade 2 e 7,5% do Biguaçu. O contrato também prevê a possibilidade de negociação com tokens de carbono, descritos como um tipo de “vale digital” usado para tentar converter uma promessa de ativo ambiental em instrumento financeiro, além de outros ativos como forma de quitação.O documento menciona ainda que Marco Antônio de Melo seria remunerado por cotas e tokens, mas sem detalhar percentuais ou especificar quais fundos seriam utilizados para esse pagamento.

De unidades estimadas a empresas avaliadas em dezenas de bilhões

O texto relata que esse carbono ligado à Alliance chegou às empresas Global Carbon e Golden Green, descritas como peças da rede que inflou o patrimônio de fundos sob gestão da Reag. Dois fundos teriam passado por reavaliação patrimonial depois que essas companhias foram “turbinadas” em mais de R$ 45,5 bilhões com base na geração de carbono em área pública da União — apontada como irregular.Conforme a apuração, a Golden Green e a Global Carbon passaram a valer R$ 14,5 bilhões e R$ 31 bilhões, respectivamente, mesmo sem vender um único crédito. Esses valores, segundo a reportagem, não representariam dinheiro disponível para saque por cotistas, mas ajudariam a inflar um patrimônio financeiro considerado fictício, capaz de sustentar operações e ampliar a narrativa de robustez dos ativos ligados aos fundos.

A questão fundiária: área da União e impedimentos legais

Um dos elementos mais sensíveis descritos é a situação da própria área que serviria de base ao projeto. A Fazenda Floresta Amazônica aparece, segundo o texto, envolvida em registros e documentos que indicariam tratar-se de terra da União, destinada à reforma agrária e, por isso, impedida de ser negociada por terceiros.

Ainda assim, o material aponta que auditorias teriam chancelado os negócios com base apenas nos balanços financeiros informados pelas próprias empresas, sem checagem concreta sobre a viabilidade do ativo que supostamente sustentaria aquelas avaliações.

Relações com fundos investigados e o caso Master

De acordo com o texto fornecido, a Golden Green tem como investidor o fundo Jade, e a Global Carbon, o New Jade 2, ambos administrados pela Reag e investigados desde a Operação Carbono Oculto, que apura suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC.O New Jade 2 também aparece, segundo a reportagem, na ponta de uma cadeia de controle de fundos que teria início no Hans 95, listado entre os apontados como fraudulentos pelo Banco Central no caso Master.

O que dizem os citados

Procurados, Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel informaram, por meio de advogados, que não têm envolvimento em ilegalidades e disseram atuar com boa-fé e governança. A reportagem reproduz a declaração: "O grupo empresarial, cujas atividades detêm boa reputação há mais de 40 anos, está à disposição para esclarecer o que for necessário às autoridades".Daniel Vorcaro declarou que "o Banco Master e seu controlador não participam da gestão, da administração, da precificação ou da modelagem técnica dos fundos mencionados, tampouco das companhias citadas que têm projetos vinculados a créditos de carbono". Sua defesa acrescentou que "as atividades, estimativas e valores declarados nos balanços dessas empresas são de responsabilidade exclusiva das respectivas gestoras e dirigentes", sem citar nomes.José Antônio Ramos Bittencourt, identificado como intermediário do negócio com a Alliance, afirmou que "o projeto de ativos de carbono foi interrompido ainda em sua fase pré-inicial devido ao apontamento, feito por consultoria especializada, de questões fundiárias no terreno". Ele também mencionou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em andamento junto ao Incra para tentar resolver a titularidade. Questionado sobre vínculo com a família Vorcaro, disse que "nunca teve nenhum contato com Daniel Vorcaro".

A Reag declarou que não vai comentar o assunto. O fazendeiro Marco Antônio de Melo não respondeu ao pedido de esclarecimentos.

Linha do tempo do caso, segundo a apuração

  • 2019: A Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), com 143,9 mil hectares, passa a ser negociada como origem de bilhões em créditos de carbono, embora descrita como terra pública da União

  • 2020: Surgem as empresas Global Carbon e Golden Green, voltadas ao mercado de carbono, já ligadas a fundos da Reag

  • 2021: Auditorias baseadas em balanços financeiros, sem lastro em mercado ou na realidade fundiária, elevam o valor das empresas para a casa dos bilhões

  • 2023: A Alliance Participações entra diretamente no negócio e compra 80% dos direitos ligados ao carbono da área

  • 2023: Pagamento ao fazendeiro e ao intermediário ocorre por meio de cotas: 2,5% do New Jade II e 7,5% do Biguaçu, ambos administrados pela Reag

  • 2023: Relatório da Unesp quantifica o “estoque de carbono” e indica 168,8 milhões de toneladas de CO₂, com método descrito como não aplicado no mercado

  • 2024: Com base no método teórico, as empresas ficam ainda mais bilionárias: Golden Green é apontada em R$ 14,6 bilhões e Global Carbon em R$ 31 bilhões

  • 2024: Transações entram na mira da Justiça após vir à tona que a área seria da União e destinada à reforma agrária
  • 2025: A Polícia Federal deflagra a Operação Carbono Oculto, investigando suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo fundos da Reag para o PCC.

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