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Família Vorcaro tenta gerar créditos de carbono em assentamento no Amazonas sem consulta e reacende suspeitas de fraude

Negociação com o Incra busca “repaginar” projeto cancelado após denúncias e pode servir para regularizar tokens já emitidos em área pública da União

Família Vorcaro tenta gerar créditos de carbono em assentamento no Amazonas sem consulta e reacende suspeitas de fraude (Foto: Divulgação )

247 – Uma empresa ligada a familiares de Daniel Vorcaro, do Banco Master, negociou com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a geração de créditos de carbono em uma área de assentamento agroextrativista no município de Apuí (AM), sem que a comunidade local tenha sido consultada previamente. A iniciativa, segundo apuração da Globo Rural, tenta retomar — sob novo formato — um projeto anterior que havia sido cancelado após acusações de fraude fundiária envolvendo uma fazenda com ampla sobreposição sobre terras públicas destinadas à reforma agrária.

As tratativas ocorreram ao longo de 2025 e envolvem a Alliance Participações e Investimentos Ltda, empresa que tem como sócios Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, e Natália Vorcaro, irmã do banqueiro. Quem aparece como representante e principal interlocutor público da companhia junto ao Incra é José Antonio Ramos Bittencourt, apontado como a interface da empresa nas negociações.

Nova tentativa reaproveita área pública e mira assentamento Aripuanã-Guariba

O foco do novo projeto é o Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Aripuanã-Guariba, que pertence à União e é administrado pelo Incra. A proposta prevê a monetização ambiental — por meio do mercado de carbono — de uma área ocupada por comunidades extrativistas, mas avançou sem que os assentados fossem formalmente informados sobre a iniciativa.

A reportagem da Globo Rural destaca que essa nova tentativa ocorre após o cancelamento, em 2024, de um projeto anterior de geração de ativos ambientais em área sobreposta ao mesmo assentamento, com denúncias que levaram o próprio Incra a levantar suspeitas de irregularidades fundiárias.

No projeto anterior, a Alliance e Bittencourt comandaram uma iniciativa para emitir “tokens de carbono” vinculados à Fazenda Floresta Amazônia, descrita como propriedade irregular. Segundo a Globo Rural, a fazenda possuía 68% de sobreposição com o PAE Aripuanã-Guariba, o que reforçou o entendimento de que o empreendimento buscava transformar em ativos financeiros uma área que, na prática, correspondia a terra pública da União.

Bastidores indicam “repaginação” para regularizar tokens já emitidos

Mesmo após as denúncias e o cancelamento do projeto anterior, Bittencourt, em nome da Alliance, voltou a procurar o Incra para construir uma nova proposta — agora restrita à área do assentamento, e não mais à fazenda particular apontada como irregular.

Uma fonte próxima aos envolvidos afirmou à Globo Rural que a retomada poderia servir como uma forma de regularizar os tokens de carbono que já teriam sido emitidos no projeto anterior, em 2023 e 2024. O movimento levanta questionamentos sobre a tentativa de revalidar ativos ambientais originados a partir de uma operação já interrompida por suspeitas graves.

Consultoria e eventos do Incra avançaram em 2025

Em junho, a consultoria técnica contratada pela Alliance, a Zabotto Ambiental, divulgou convites em vilas da região para uma reunião sobre o projeto chamado “PSA Aripuanã-Guariba” (Pagamento por Serviço Ambiental).

Já em outubro de 2025, o Incra promoveu eventos em Humaitá (AM) e Manaus, com o objetivo de discutir a gestão territorial do assentamento e a viabilidade de projetos de crédito de carbono. Representantes do Incra, da Zabotto Ambiental e o próprio Bittencourt participaram dos encontros.

No mesmo período, João Pedro Gonçalves da Costa, diretor nacional de governança da terra do Incra, enviou à Procuradoria Federal Especializada do órgão um pedido de parecer sobre a possível assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) relacionado à iniciativa.

Fontes internas ouvidas pela reportagem afirmaram que o acordo estaria perto de ser assinado, embora parte dos próprios servidores tenha demonstrado estranheza com a condução do processo.

Consultoria diz que consulta já teria ocorrido em 2024

Procurado pela Globo Rural, Alessandro Zabotto, da Zabotto Ambiental, afirmou que a consulta livre, prévia e informada utilizada no processo teria sido realizada ainda em 2024, quando o projeto anterior estava em andamento — justamente o que foi posteriormente cancelado sob acusações de fraude fundiária.

Segundo ele, com o andamento do TAC, uma nova reunião seria feita.

Zabotto também declarou que não tinha informação de que a Alliance era detida por Henrique Vorcaro e disse conhecer apenas a atuação de Bittencourt. Ele acrescentou que sua participação seria exclusivamente técnica.

Tokens de carbono foram encarteirados por fundos ligados à Reag, segundo reportagem

A Globo Rural relata que os tokens de carbono gerados no projeto anterior, entre 2023 e 2024, foram encarteirados por fundos da Reag, incluindo o New Jade 2, controlado pelo New Jade 1, além do Jade 2 e cotistas como Bittencourt e Marco Antônio de Mello — em nome de quem estaria a propriedade da fazenda.

O caso expõe como estruturas financeiras podem incorporar ativos ambientais mesmo quando a base territorial do projeto é questionada, ampliando o risco de distorções no mercado de carbono e abrindo espaço para disputas sobre legalidade, titularidade da terra e consentimento comunitário.

Incra afirma que TAC não foi assinado e aponta entraves jurídicos

Em resposta oficial, o Incra afirmou que não houve assinatura de TAC envolvendo a área pública e disse que descartou, em novembro de 2025, a conclusão do termo “em virtude de questões jurídicas” levantadas pela Procuradoria Federal Especializada.

O órgão informou que solicitou informações complementares e que a documentação apresentada ainda está sob análise técnica. Segundo o Incra:

“Apesar do pedido da empresa, não houve finalização da análise sobre a viabilidade de realização do projeto ambiental.”

O Incra também detalhou que Bittencourt protocolou, em 28 de janeiro de 2025, uma “Comunicação de Fato Relevante”, afirmando ter firmado contrato com Marco Antônio de Mello visando à geração de ativos ambientais. Ainda conforme a resposta oficial, após a consolidação do negócio, Bittencourt reconheceu que a área era pública, sob gestão do Incra, e informou a suspensão de qualquer ato de geração ou exposição comercial de ativos ambientais.

A autarquia destacou ainda que a Procuradoria entendeu existir um obstáculo jurídico à assinatura de TAC, inclusive pelo fato de contratos privados não estarem rescindidos, permanecendo apenas suspensos — o que impediria novos ajustes com o órgão público.

Por fim, o Incra reiterou que qualquer projeto de pagamento por serviços ambientais em áreas públicas vinculadas à política de reforma agrária deve passar pelo crivo da autarquia e das comunidades beneficiadas, conforme a legislação vigente.

Mercado de carbono vira novo campo de disputa na Amazônia

O caso expõe um padrão cada vez mais sensível na Amazônia: o avanço de projetos ambientais com potencial de monetização, em especial via créditos de carbono, sem transparência suficiente, sem consulta adequada às comunidades e com histórico de disputas fundiárias envolvendo terras públicas.

A tentativa de “repaginar” um projeto cancelado sob suspeitas — agora buscando respaldo institucional por meio de um TAC — amplia o debate sobre a integridade do mercado de carbono, o papel do Estado na proteção de assentamentos e a necessidade de garantir que comunidades tradicionais sejam protagonistas, e não apenas figurantes, em iniciativas que usam seus territórios como base para ativos financeiros.

A ausência de consulta prévia e o histórico de sobreposição territorial também reforçam um alerta: sem regras claras, fiscalização efetiva e participação social, projetos apresentados como “ambientais” podem funcionar como atalhos para legitimar operações que, no fundo, deslocam poder econômico para grupos privados e fragilizam os direitos de quem vive e preserva a floresta há décadas.

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