Fundo investigado por ligação com PCC transferiu R$ 180 milhões a empresa suspeita de financiar milícia
Recursos teriam sido usados em esquema que envolve lavagem de dinheiro, ameaças e empresas ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro
247 - Um fundo investigado na Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema financeiro, transferiu cerca de R$ 180 milhões para a empresa Super Empreendimentos, apontada em investigações como peça-chave em um esquema de pagamentos ilícitos. A movimentação ocorreu entre 2020 e 2025, segundo alerta encaminhado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), informa o jornal O Globo.
O fundo Gold Style — um dos alvos da operação — teria realizado operações consideradas suspeitas com o objetivo de ocultar os verdadeiros beneficiários dos recursos e dissimular a origem do dinheiro no mercado financeiro, conforme destacou a comunicação ao Coaf. A empresa Super Empreendimentos já teve como diretor Fabiano Campos Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, entre 2021 e 2024.
As investigações da Polícia Federal indicam que a Super Empreendimentos manteve vínculos com o núcleo familiar de Vorcaro e teria sido utilizada como instrumento para financiar um grupo clandestino envolvido em monitoramento e intimidação de autoridades, jornalistas e adversários comerciais. A suspeita foi reforçada por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que apontou a empresa como principal fonte de financiamento dessas atividades.
Segundo os investigadores, a estrutura de pagamentos ilícitos era operada por Zettel em conjunto com Ana Claudia Queiroz de Paiva, sócia da Super. A dupla utilizaria recursos da empresa para realizar repasses a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, apontado como líder operacional de um grupo responsável por ameaças e coações.
Para ocultar o fluxo financeiro, os valores eram transferidos para empresas de fachada controladas por Mourão, como a King Participações Imobiliárias Ltda. Esse mecanismo teria sido utilizado para mascarar tanto a origem quanto o destino dos recursos.
O fundo Gold Style, responsável pelas transferências milionárias, é administrado pela gestora Reag, também alvo das investigações. A empresa aparece em diferentes frentes da Operação Carbono Oculto e em outro inquérito que tramita no STF. Segundo as apurações, a Reag teria administrado fundos utilizados pelo grupo de Mohamad Hussein Mourad — investigado por fraudes fiscais bilionárias — para aquisição de usinas e lavagem de dinheiro ligado ao setor de combustíveis.
Além da Super Empreendimentos, o alerta ao Coaf aponta movimentações financeiras para outras empresas investigadas, como a BK Instituição de Pagamentos e a Aster Petróleo, que recebeu R$ 311 milhões e é considerada foco central das fraudes atribuídas ao grupo de Mourad.
A investigação também conecta a Reag a operações envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro. Entre os pontos analisados estão transações circulares que teriam inflado artificialmente o balanço da instituição financeira. Esse mecanismo incluía a emissão de créditos por empresas ligadas ao banco e posterior reinvestimento desses valores na própria instituição.
Outro desdobramento aponta que fundos administrados pela Reag participaram de operações relevantes no mercado financeiro. Um deles, o fundo Borneo, tornou-se um dos maiores acionistas privados do Banco de Brasília (BRB), com participação de 7,89% em ações preferenciais.
Dados do Banco Central mostram ainda que fundos ligados à Reag adquiriram Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Banco Master em 2024, operação que ajudou a reforçar a captação de recursos da instituição. Pouco depois, parte significativa desses valores foi resgatada e transferida para outros fundos, que acabaram repassando recursos à Super Empreendimentos.
As defesas de Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel não se manifestaram até o momento.


