Investigação da PF mira fundos ligados a resort associado à família de Toffoli
Quebras de sigilo devem analisar transações financeiras relacionadas a fundos conectados ao Banco Master e ao resort Tayayá
247 - A Polícia Federal (PF) passou a aprofundar investigações sobre possíveis crimes financeiros envolvendo fundos de investimento associados ao resort Tayayá, empreendimento localizado em Ribeirão Claro (PR) que teve participação societária de uma empresa da família do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli.
O magistrado não é alvo da investigação, mas integrantes da corporação avaliam que operações financeiras relacionadas a ele ou a familiares podem aparecer entre os dados obtidos com as quebras de sigilo.
As informações foram publicadas inicialmente pela Folha de S.Paulo, que revelou o avanço das apurações a partir da análise de movimentações financeiras e da coleta de relatórios de inteligência. A PF pretende examinar documentos e dados de fundos que mantiveram conexões com o Banco Master e que, direta ou indiretamente, tiveram relação com o resort.
Segundo a reportagem, a polícia planeja requisitar Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para identificar eventuais transações consideradas atípicas ou suspeitas. A principal estrutura sob suspeita é o fundo Arleen, apontado nas investigações como parte de uma rede de fundos utilizada em supostas fraudes envolvendo o Banco Master.
Uma empresa da família de Toffoli, chamada Maridt, vendeu em 2021 sua participação no resort Tayayá justamente para esse fundo. Posteriormente, o próprio ministro confirmou ser um dos sócios da companhia e declarou ter recebido rendimentos pela venda das cotas da empresa ao Arleen. A revelação desencadeou questionamentos sobre sua atuação em processos relacionados ao banco, o que levou ao afastamento da relatoria do inquérito que investigava o caso no STF.De acordo com investigadores, como as apurações da PF se concentram em crimes financeiros ligados ao Banco Master, a análise de quebras de sigilo de fundos envolvidos no circuito de investimentos poderá, inevitavelmente, alcançar transações relacionadas ao ministro ou a familiares.
Até a publicação da reportagem original, Dias Toffoli não havia se manifestado sobre o avanço das investigações. Ele foi procurado pela reportagem da Folha por meio da assessoria do STF, mas não respondeu aos questionamentos.
Rede de fundos e prisões na operação
O fundo Arleen tem como cotista o fundo Leal, que por sua vez possui como investidor o advogado e pastor Fabiano Zettel, cunhado do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e apontado nas investigações como peça central da estrutura sob suspeita.Zettel foi preso na quarta-feira (4) juntamente com Vorcaro durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.Caso os investigadores identifiquem indícios de irregularidades envolvendo o ministro do STF, a corporação terá de enviar um relatório ao atual relator do caso no Supremo, ministro André Mendonça, solicitando autorização para eventuais medidas investigativas. Pela legislação brasileira, a PF não pode investigar ministros da Suprema Corte por suspeitas de crimes comuns sem autorização do próprio tribunal.
Origem do caso no Supremo
A investigação relacionada ao Banco Master chegou ao STF no final do ano passado após um pedido da defesa de Daniel Vorcaro para transferir o processo da primeira instância da Justiça Federal para a corte. Na ocasião, Dias Toffoli assumiu a relatoria do caso e determinou que as diligências fossem supervisionadas por ele.
Com o avanço das suspeitas envolvendo sua relação com o fundo que adquiriu participação no resort Tayayá, surgiram pressões para que o ministro se afastasse da condução do processo. Em fevereiro, a Polícia Federal enviou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório apontando possíveis irregularidades nas relações entre Toffoli e o Banco Master.O documento foi registrado como Informação de Polícia Judiciária e poderia abrir caminho para uma investigação ou análise sobre a imparcialidade do ministro. No entanto, Fachin tratou o material como um pedido de suspeição e o arquivou após Toffoli decidir deixar a relatoria do inquérito, que acabou sendo redistribuído ao ministro André Mendonça.
Na ocasião, Toffoli confirmou que integrava a sociedade da empresa Maridt e que a companhia vendeu sua participação no resort Tayayá em 2021 para um fundo vinculado à rede de investimentos associada ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Estrutura de investimentos investigada
Até 2025, o fundo Arleen manteve participação na Tayayá Administração e Participações, empresa responsável pelo resort no Paraná. O fundo também teve investimentos na DGEP Empreendimentos, incorporadora imobiliária da mesma cidade que possuía entre seus sócios um primo do ministro.A ligação entre o empreendimento e o caso do Banco Master ocorreu por meio de uma cadeia de fundos de investimento. O Arleen foi cotista do RWM Plus, que também recebeu aportes de fundos ligados ao Maia 95, um dos seis apontados pelo Banco Central como integrantes da suposta estrutura de fraudes associada ao banco.Todos esses fundos tiveram como administradora a Reag, empresa que também gerenciava fundos ligados a Vorcaro. A gestora é investigada na operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital).
Trocas de mensagens sob análise
Outra linha de investigação envolve contatos entre Toffoli e Daniel Vorcaro. O jornal O Globo revelou que, em 17 de novembro de 2025 — data da prisão do empresário — o ministro trocou ao menos nove mensagens com o ex-banqueiro.
Os horários dessas comunicações coincidem com anotações registradas em um bloco de notas atribuído a Vorcaro, que indicariam discussões sobre medidas relacionadas ao Banco Master e processos judiciais envolvendo o empresário.
A Folha de S.Paulo confirmou que houve trocas de mensagens e ligações entre os dois, embora o conteúdo das conversas não tenha sido divulgado.De acordo com a Polícia Federal, os elementos analisados até agora não justificam a abertura de investigação sobre a conduta do ministro Alexandre de Moraes no caso. Informações divulgadas anteriormente por O Globo apontaram que o Banco Master contratou, no início de 2024, um escritório de familiares de Moraes por R$ 3,6 milhões mensais para atuar na defesa de interesses da instituição por um período de três anos.

