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Investigadores planejaram ações simultâneas contra o Banco Master, mas Justiça atrasou operação

Atraso judicial impediu ações conjuntas e levou a fases separadas da Operação Compliance Zero

Segurança do lado de fora do Banco Master, após a prisão do acionista controlador do banco, Daniel Vorcaro, em São Paulo - 18 de novembro de 2025 (Foto: REUTERS/ Amanda Perobelli)

247 - Os investigadores responsáveis por apurar as fraudes atribuídas ao Banco Master pretendiam deflagrar, de forma simultânea, duas frentes da Operação Compliance Zero ainda em novembro do ano passado. O plano, no entanto, foi frustrado por atrasos na tramitação dos pedidos judiciais, o que levou à execução das ações em momentos distintos e alterou o cronograma originalmente traçado pelas autoridades.

A primeira fase da operação foi realizada na segunda-feira (17), quando o dono do banco, Daniel Vorcaro, foi preso. No mesmo dia, o colegiado de diretores do Banco Central aprovou a liquidação do Banco Master, decisão tornada pública na manhã de terça-feira (18), antes da abertura do mercado financeiro.

A segunda etapa da Compliance Zero ocorreu apenas na quarta-feira (14), quase dois meses depois, e teve como foco o suposto uso irregular de fundos de investimento ligados à Reag. As investigações apontam para a existência de uma ciranda financeira que teria sido liderada por Vorcaro com o objetivo de desviar recursos por meio desses fundos. Na quinta-feira (15), o Banco Central decretou a liquidação da Reag.

O pedido que resultou na primeira fase da operação foi encaminhado a um juiz de Brasília, com base em denúncia apresentada pelo Banco Central ao Ministério Público Federal. A apuração envolve a venda de carteiras falsas de crédito ao BRB (Banco de Brasília), em um esquema que, segundo os investigadores, teria causado prejuízos estimados em R$ 12,2 bilhões.

Já a solicitação referente às buscas e apreensões relacionadas aos fundos de investimento foi apresentada à Justiça Federal de São Paulo ainda em outubro do ano passado. O esquema envolvia empresas e pessoas interpostas ligadas a Vorcaro e ao Banco Master. Embora a ciranda financeira fosse anterior à fraude das carteiras de crédito consignado, a ação policial acabou ocorrendo apenas posteriormente.

Um investigador relatou, sob condição de anonimato, que a intenção inicial era realizar as duas operações ao mesmo tempo, diante das conexões entre os casos. A autorização judicial em São Paulo, porém, não foi concedida dentro do prazo considerado necessário, o que levou os responsáveis pela apuração a optarem pelo desencadeamento imediato da primeira fase para não comprometer os trabalhos.

Àquela altura, a Polícia Federal já monitorava Daniel Vorcaro e havia identificado três planos de voo do ex-banqueiro para deixar o país. Ainda assim, no decorrer das investigações, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, decidiu na terça-feira (3) que todas as diligências e medidas relacionadas ao caso passariam a ser analisadas diretamente por ele, retirando a atribuição da primeira instância.

A decisão atendeu a um pedido da defesa de Vorcaro, apresentado na quinta-feira (28), após a apreensão de um envelope com documentos ligados a um negócio imobiliário envolvendo o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA). Toffoli também determinou o grau máximo de sigilo do processo, restringindo o acesso às informações sobre as partes, o andamento das ações e as decisões judiciais.

Responsável pelo caso no Supremo, o ministro autorizou a segunda fase da operação, mas criticou publicamente a Polícia Federal por atrasos no cumprimento dos prazos para colocar os agentes em campo. Em despacho, cobrou explicações do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, que respondeu atribuindo o descumprimento a questões operacionais, como a necessidade de atualização de endereços de alguns alvos.

Apesar das críticas, Toffoli manteve o sigilo do processo e determinou que o material apreendido na segunda fase permanecesse sob a guarda da Procuradoria-Geral da República, e não da Polícia Federal. Após a divulgação do despacho, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, esteve na noite de quarta-feira (14) na sede da PF, em um gesto interpretado como demonstração de apoio ao diretor-geral da instituição.

Na semana da primeira operação, Vorcaro tinha uma reunião prevista no Banco Central, mas solicitou a antecipação do encontro para a própria segunda-feira (17). Naquela mesma noite, acabou preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar para o exterior. Posteriormente, a prisão foi relaxada, e o ex-banqueiro passou a cumprir prisão domiciliar, permanecendo monitorado por agentes da Polícia Federal.

Para investigadores envolvidos no caso, não houve coincidência entre a prisão de Vorcaro na primeira fase e a detenção do empresário Fabiano Zettel na segunda etapa da operação. Cunhado de Vorcaro, Zettel foi preso na quarta-feira (14), também no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para viajar de jatinho com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Ele foi solto ainda pela manhã, após ser alvo de prisão temporária decretada com o objetivo de preservar o sigilo da operação.

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