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Lindbergh: caso Master é "inflexão na segurança pública", com o "andar de cima" na mira

“Enfrentar o colarinho branco é romper a lógica da seletividade penal, desmontar a engrenagem que sustenta a violência”, aponta o deputado

O deputado federal Lindbergh Farias - 21/10/2025 (Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados)

247 - O avanço das investigações sobre o Banco Master e instituições financeiras associadas passou a ser apontado como um marco na política de segurança pública brasileira. A apuração conduzida pela Polícia Federal, somada a medidas recentes do Banco Central, reacende o debate sobre a atuação do Estado contra crimes de alta complexidade financeira e o enfrentamento de estruturas historicamente protegidas do sistema penal.

Para o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do PT na Câmara, o caso representa uma mudança de eixo no combate ao crime organizado. Em postagem feita nesta quinta-feira (15), o parlamentar afirma que, ao atingir o núcleo financeiro das organizações criminosas, o Estado começa a enfrentar o crime “onde ele realmente se organiza”, superando a tradição de concentrar a repressão penal apenas sobre os mais pobres. 

Segundo Lindbergh, o histórico brasileiro sempre foi marcado por uma seletividade penal que blindou o chamado “andar de cima”. “Na história do Brasil, o debate ficou restrito à criminalização da pobreza, enquanto o andar de cima do crime organizado seguia blindado por um padrão histórico de desigualdade do sistema penal que sempre protegeu o criminoso do colarinho branco”, escreveu. Para ele, a atuação da Polícia Federal contra esse núcleo rompe com essa lógica e redefine prioridades na segurança pública.

O posicionamento do parlamentar ocorre no mesmo dia em que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag, instituição financeira suspeita de envolvimento em irregularidades e fraudes em operações relacionadas ao Banco Master. De acordo com o BC, a medida foi adotada após a constatação de um grave comprometimento da situação econômico-financeira da empresa e do descumprimento de normas essenciais do Sistema Financeiro Nacional.

A Reag aparece como peça central nas investigações a partir de documentos do Ministério Público Federal, do próprio Banco Central e de apurações da Polícia Federal. As investigações indicam que o Banco Master concedia empréstimos a empresas que não efetuavam o pagamento das parcelas, criando receitas apenas no papel. Em seguida, quase a totalidade dos valores era rapidamente transferida para fundos administrados pela Reag, que registravam ganhos considerados irreais pelas autoridades.

De acordo com os investigadores, ao final desse circuito financeiro, os recursos retornavam ao próprio Banco Master na forma de aplicações, fechando um fluxo que levantou suspeitas de gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. Esse mecanismo está no centro da segunda fase da Operação Compliance Zero, que tem entre seus alvos João Carlos Mansur, fundador da Reag.

Documentos do MPF apontam ainda que contratos de crédito tinham prazos de carência prorrogados às vésperas do início dos pagamentos e que, na prática, “não houve efetivo pagamento de juros nem amortizações”. O mapeamento dessas operações foi realizado pelo Banco Central, que passou a questionar a solidez dos fundos envolvidos e o acompanhamento dos valores liberados.

Em julho de 2024, a área de supervisão do BC exigiu do Banco Master comprovações de liquidez e controles mais rigorosos sobre os fundos que receberam recursos dos empréstimos. O banco, por sua vez, respondeu que tais esclarecimentos deveriam ser prestados pela Reag, o que, segundo técnicos do BC, evidenciou a “falta de adequado acompanhamento das operações estruturadas”.

Em correspondência enviada à autoridade monetária, a Reag informou que os ativos dos fundos eram majoritariamente compostos por papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), considerados de baixo valor pelo mercado, e afirmou ter capacidade de garantir até R$ 1 bilhão por mês em resgates por meio de outro fundo, o Gold Style. A análise do Banco Central, no entanto, identificou que não havia ativos líquidos suficientes para sustentar essas promessas, além de apontar falhas no gerenciamento do risco de crédito, o que embasou a decretação da liquidação extrajudicial.

Um documento do Banco Central enviado ao MPF reforça que as operações entre o Master e a Reag envolveram uma “reavaliação indevida de ativos, que permitiu aos fundos de investimento auferir rentabilidade extraordinária”. O caso considerado mais emblemático é o empréstimo de R$ 459 milhões concedido à Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias. Pouco depois do recebimento, cerca de R$ 450 milhões circularam por fundos recém-criados ou ligados à Reag, até serem utilizados para a aquisição e reavaliação de papéis de baixa liquidez.

Segundo a investigação, um dos fundos envolvidos chegou a registrar uma rentabilidade de mais de 10 milhões por cento em 2024, número considerado incompatível com parâmetros normais de mercado. A Polícia Federal também apura a suspeita de que, após transitarem por fundos da Reag, os recursos tenham retornado ao Banco Master por meio da compra de Certificados de Depósito Bancário, principal instrumento de captação da instituição.

Diante desses indícios, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e a João Carlos Mansur. Além da Operação Compliance Zero, a Reag também é investigada na Operação Carbono Oculto, que apura um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), com ao menos três fundos sob suspeita de repasses financeiros em curto intervalo de tempo.

A defesa de Daniel Vorcaro contesta as conclusões das investigações. Em nota, afirmou que as acusações “não correspondem aos fatos” e que o Banco Master era submetido a auditorias independentes e fiscalização contínua, declarando confiança de que o avanço das apurações afastará “premissas que não possuem sustentação técnica ou documental”. A Reag não se manifestou.

Para Lindbergh Farias, a combinação entre investigações criminais e decisões regulatórias sinaliza uma mudança estrutural. “A segurança pública exige um Estado forte contra o crime organizado. Enfrentar o colarinho branco é romper a lógica histórica da seletividade penal, desmontar a engrenagem financeira que sustenta a violência e afirmar, de forma concreta, que o combate ao crime começa no topo da pirâmide”, concluiu o deputado.

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