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Itamaraty avalia riscos e oportunidades em acordo de minerais críticos com os EUA

Diplomacia analisa proposta dos EUA e pondera impactos na relação com a China

Instalações de mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais (Foto: Gil Leonardi / Imprensa MG)

247 - O Ministério das Relações Exteriores (MRE) avalia os riscos e as oportunidades de uma eventual adesão do Brasil à estratégia dos Estados Unidos para diversificar a cadeia global de suprimento de minerais críticos. O movimento, liderado pelo governo norte-americano, é interpretado como parte de uma ofensiva para reduzir a dependência internacional da China no setor.

As informações foram publicadas pela Agência iNFRA, que apurou junto a uma fonte do governo brasileiro que, até sexta-feira (6), o Brasil ainda não havia recebido convite formal para participar da iniciativa, apesar de ter acompanhado discussões recentes realizadas em Washington.

Segundo a reportagem, representantes da embaixada brasileira nos Estados Unidos estiveram presentes na “Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos de 2026”, realizada na quarta-feira (4), na capital norte-americana. Esses diplomatas ficaram responsáveis por encaminhar ao Itamaraty os detalhes do plano apresentado pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e pelo vice-presidente norte-americano, JD Vance.

A proposta norte-americana busca articular um bloco internacional capaz de reduzir a concentração chinesa na produção e no refino de minerais considerados estratégicos para setores como tecnologia, defesa e transição energética. Entretanto, representantes do setor de mineração alertam que a adesão pode trazer custos diplomáticos e comerciais, principalmente devido ao peso da China como principal parceiro econômico do Brasil.

Setor mineral vê oportunidades, mas alerta para riscos com a China

O presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração (ABPM), Luiz Maurício Azevedo, afirmou que o setor tende a olhar com interesse para qualquer iniciativa capaz de atrair investimentos, mas defendeu cautela antes de aceitar condições impostas por Washington.

“Não adianta nada fecharmos questão em relação a terras raras e abrirmos um flanco para o minério de ferro, que a China é nosso maior comprador”, declarou Azevedo.

O dirigente reforçou que a análise deve ser ampla e considerar os impactos indiretos sobre outras cadeias relevantes para o país. “Tudo tem que ser muito bem pensado, ser visto de uma forma holística”, acrescentou.

Diplomacia brasileira aposta em pragmatismo e neutralidade

Para o diretor-executivo da Associação de Minerais Críticos (AMC), Frederico Bedran, esse tipo de ponderação já deve estar ocorrendo dentro do Itamaraty, já que a política externa brasileira historicamente se orienta por pragmatismo e neutralidade.

Bedran também reconheceu que há fundamento na preocupação dos Estados Unidos e de países europeus quanto à concentração chinesa no setor mineral. Ele avalia que, caso o Ocidente esteja em processo de reorganização, a proposta pode ser considerada positiva.

“Tudo bem ter cautela, tem mesmo que estar alinhado aos objetivos dos diversos governos, mas se o ocidente está se rearranjando, se de repente conseguir estabelecer preços mínimos, uma proposta dos EUA talvez seja bem-vinda”, afirmou.

Debate sobre preços mínimos ganha força em meio a acusações contra Pequim

A reportagem aponta que Pequim tem sido acusada por governos e setores empresariais do Ocidente de adotar preços artificialmente baixos para impedir a viabilização de novos projetos fora da China. Entre as críticas recorrentes, está a alegação de que a China amplia rapidamente a oferta global sempre que novos empreendimentos surgem em outros países, derrubando o valor do produto e inviabilizando concorrentes.

Azevedo destacou a dimensão da capacidade chinesa no setor e sua influência global tanto como produtora quanto como consumidora.

“A China tem capacidade muito maior do que todos nós de colocar esse material. Também é o maior consumidor, dentro do seu parque industrial”, afirmou.

Dentro desse contexto, a possibilidade de estabelecer preços mínimos internacionais foi discutida na reunião em Washington e é vista com bons olhos por empresas do setor mineral, especialmente por ajudar a evitar oscilações bruscas que podem comprometer investimentos.

Empresas de médio porte pressionam por segurança jurídica no Brasil

O texto da Agência iNFRA também chama atenção para o papel das chamadas junior companies, empresas de porte médio que costumam liderar projetos de prospecção, estruturação e captação de recursos no setor mineral. Já as grandes mineradoras, segundo a reportagem, geralmente entram quando o risco do empreendimento diminui e a produção já começou.

Apesar da expectativa de atração de capital estrangeiro, essas companhias ainda aguardam avanços no ambiente regulatório brasileiro. Para Azevedo, o país precisa acelerar esse processo e garantir segurança jurídica aos investidores.

Ele defende que o governo brasileiro faça seu “dever de casa” e apresente sinais claros de estabilidade regulatória para estimular novos projetos.

Bedran também afirmou que o Brasil precisa deixar evidente seu apoio ao setor mineral, argumentando que não basta promover o potencial das reservas nacionais sem uma estratégia definida. Segundo ele, membros do governo federal e aliados têm criticado o avanço da exploração de minerais críticos no país.

“É juntamente com isso que chegam os instrumentos para desenvolvimento da cadeia, como mecanismo de garantia e incentivos para a agregação de valor que o setor tanto precisa”, declarou o diretor-executivo da AMC.

A discussão ocorre em um momento de crescente disputa internacional por cadeias de fornecimento mais seguras e diversificadas, em especial diante da importância estratégica de minerais críticos para tecnologias industriais e energéticas. Para o Brasil, a decisão sobre aderir ou não a uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos envolve não apenas investimentos e expansão do setor mineral, mas também impactos diretos sobre sua política externa e suas relações comerciais com a China.

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