HOME > Brasil

‘Não é simples romper com a família Bolsonaro’, diz Paulo Gracino

No Giro das Onze, professor analisou queda de Flávio Bolsonaro após áudio ligado a Vorcaro e apontou vínculo afetivo da base bolsonarista

Flávio, Carlos, Jair, Eduardo e Jair Renan Bolsonaro (Foto: Reprodução/X/@BolsonaroSP)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - A queda de Flávio Bolsonaro em cenários eleitorais após a repercussão do áudio envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi analisada nesta terça-feira (19) pelo professor Paulo Gracino Júnior no Giro das Onze, do Brasil 247. Para ele, o episódio expôs fragilidades da candidatura do senador, mas também revelou a dificuldade de ruptura entre a base bolsonarista e a família Bolsonaro.

As informações são do Giro das Onze, do Brasil 247. Durante a entrevista, Gracino afirmou que, entre os possíveis adversários de Lula, Flávio Bolsonaro é hoje o nome com mais vulnerabilidades políticas, especialmente depois do desgaste provocado pelo áudio citado no programa.

“Seria bom manter o Flávio. Dos adversários possíveis do Lula, ele é o que tem mais fraquezas hoje”, afirmou Gracino.

Segundo o professor, um dos dados centrais da pesquisa Atlas/Bloomberg é que os eleitores que deixam Flávio Bolsonaro não migram automaticamente para Lula nem para outros nomes da direita. Parte expressiva desse eleitorado, disse ele, vai para branco, nulo ou indecisos, o que indica um processo ainda aberto de disputa política.

“A maioria das pessoas que dizem não votar no Flávio não migra para o Lula, nem para Zema, nem para Caiado. Elas migram para branco e nulo”, analisou.

Para Gracino, em outro contexto político, um episódio como o áudio atribuído a Flávio Bolsonaro teria potencial para inviabilizar imediatamente uma candidatura. No Brasil, porém, ele avalia que o vínculo da base bolsonarista com Jair Bolsonaro e seus familiares não se desfaz de forma automática, mesmo diante de denúncias ou contradições.

“Em qualquer lugar do mundo, eu acho que um escândalo dessa magnitude, depois de ter falado o que o Flávio falou, de ter feito camisetas e tudo, a candidatura do Flávio seria implodida de vez, sem chance de recuperação”, disse.

O professor sustentou que a adesão de parte do eleitorado à família Bolsonaro ultrapassa o campo estritamente racional e envolve dimensões afetivas e identitárias. Essa relação, segundo ele, ajuda a explicar por que sucessivas acusações não resultam necessariamente em abandono imediato da base mais fiel.

“Os bolsonaristas fizeram algo de tão forte, que é um investimento libidinal tão forte que os eleitores do Bolsonaro têm na figura do Bolsonaro e da família, que não é simples assim essa ruptura”, afirmou.

Gracino também avaliou que o áudio envolvendo Vorcaro atinge diretamente o discurso anticorrupção da extrema direita. Para ele, o aspecto mais impactante foi a contradição entre a tentativa de Flávio Bolsonaro de associar adversários ao Banco Master e a posterior revelação de sua própria proximidade com o empresário.

“Eu fiquei impressionado com a disfarçatez do jogo da extrema direita. Eles seguem pari passu a cartilha: acuse-os do que você faz”, declarou.

Na avaliação do professor, a repercussão do caso tem efeito político relevante porque não precisa necessariamente converter eleitores bolsonaristas em apoiadores de Lula. O principal impacto, segundo ele, é produzir dúvida, desânimo e abstenção dentro da própria base adversária.

“Não precisa de você retirar a base adversária. O que você precisa é inocular a dúvida na base adversária”, disse.

Gracino afirmou ainda que o bolsonarismo mantém um piso eleitoral em torno de 28% a 33%, semelhante ao campo histórico ocupado pelo PT no eleitorado. A disputa decisiva, segundo ele, ocorre sobre a parcela flutuante da sociedade, que pode definir o resultado eleitoral.

“Dá para ver que o bolsonarismo gira em torno dos seus 28% a 30%, 33% do eleitorado. E historicamente o PT tem isso também”, afirmou. “Os outros 33% é que estão flutuando.”

Ao comentar os desafios da esquerda, Gracino defendeu que a campanha de Lula e os partidos progressistas precisam disputar esse eleitorado instável com uma mensagem capaz de mostrar os riscos de uma alternativa de extrema direita. Para ele, o debate eleitoral ocorre em um ambiente mais fragmentado, no qual acordos tradicionais com lideranças partidárias já não têm o mesmo efeito.

“Não dá mais para você fazer acordo por cima com lideranças de bancada. Os acordos têm que ser feitos um a um”, afirmou.

O professor também relacionou essa fragmentação ao papel das redes sociais e à transformação da dinâmica parlamentar. Segundo ele, deputados passaram a falar menos entre si e mais diretamente com suas bases digitais, o que enfraquece os antigos mecanismos de mediação política no Congresso.

“Eles falam para uma base que está nas redes sociais. Isso faz com que esses acordos, mesmo com lideranças, não sejam respeitados”, disse.

Em outro momento da entrevista, Gracino criticou a formação de subjetividades moldadas pelo neoliberalismo. Para ele, esse processo não apenas precariza o trabalho, mas também altera a forma como as pessoas compreendem direitos, tempo, proteção social e futuro.

“O discurso neoliberal não só precariza o trabalhador. Ele forma sensibilidade das pessoas”, afirmou. “Uma pessoa que trabalha precarizada não projeta para o futuro. Ela tem uma visão precária de tempo.”

Ao tratar da relação entre esquerda e periferias, Gracino defendeu que o diálogo com igrejas evangélicas populares não deve ocorrer apenas por meio de grandes lideranças religiosas. Segundo ele, a esquerda precisa se aproximar de comunidades locais, ouvir suas demandas e construir laços concretos em torno de direitos sociais.

“Você tem que chegar no pequeno pastor e falar: ‘Olha, tem como você reunir a comunidade aqui? Quem é católico? Todo mundo vai vir para a gente discutir os problemas aqui do bairro’”, disse.

Para o professor, esse tipo de aproximação não significa tentar converter lideranças religiosas ao petismo, mas criar espaços de participação comunitária. Na avaliação dele, a esquerda perdeu oportunidades de construir essa conexão ao longo dos últimos anos.

“Não é que ele vai virar petista, não vai virar comunidade eclesial de base. É só para ele perceber que do lado de cá tem uma política que vai incluir ele, vai se sentir ouvido”, afirmou.

Gracino também comentou a apropriação de símbolos nacionais pela extrema direita, como a camisa da seleção brasileira. Para ele, esses símbolos funcionam como marcadores de distinção política e poderiam ser esvaziados caso outros setores da sociedade voltassem a usá-los de forma ampla.

“A bandeira, a camisa, é só um signo de distinção. Ele não necessariamente tem que ter um conteúdo”, disse. “Se a esquerda começasse a usar a camisa da seleção, a direita ia ter que fazer outra coisa da vida.”

Ao final de sua participação, o professor reforçou que a disputa política atual passa pelo campo da cultura, dos afetos e da subjetividade. Para ele, enfrentar o bolsonarismo exige mais do que responder a escândalos: requer reconstruir vínculos sociais, disputar valores e apresentar políticas públicas capazes de alterar concretamente a vida da população.

Artigos Relacionados