Papudinha vira “QG político” da direita na montagem de alianças eleitorais
Com visitas frequentes de aliados e advogados, Bolsonaro passa a influenciar alianças estaduais e estratégias eleitorais do PL mesmo sob custódia no DF
247 - A transferência de Jair Bolsonaro (PL) para a chamada Papudinha, no Distrito Federal, alterou a rotina do ex-presidente, que passou a receber acompanhamento médico constante, visitas regulares de advogados e contatos frequentes com antigos aliados. Mas, além do aspecto administrativo da custódia, o local vem ganhando outra dimensão: a de um espaço de articulação política do bolsonarismo. As informações são do jornal O Globo.
O 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal passou a funcionar como uma espécie de centro informal de validação estratégica, onde alianças eleitorais são discutidas e decisões sobre palanques estaduais são submetidas ao aval direto de Bolsonaro, mesmo enquanto ele permanece preso.
Segundo relatos de aliados ouvidos sob reserva, a dinâmica estabelecida dentro da unidade envolve um fluxo constante de informações políticas levadas por advogados e interlocutores próximos. O grupo apresenta cenários regionais, discute pesquisas internas, aponta disputas locais e retorna com orientações atribuídas ao ex-presidente.
O entendimento predominante no entorno bolsonarista, conforme descrito na apuração, é de que nenhuma decisão considerada relevante no campo conservador pode avançar sem a chancela de Bolsonaro. A interlocução é mantida principalmente por advogados e por seus filhos, que fazem a ponte com dirigentes partidários.
Entre os visitantes frequentes estão o ex-assessor da Presidência e integrante formal da equipe de defesa de Bolsonaro, João Henrique Nascimento de Freitas, que teria ido ao batalhão ao menos oito vezes recentemente. O ex-ministro Adolfo Saschida também teria feito o mesmo número de visitas, consolidando-se, segundo aliados, como elo constante entre a custódia e a direção nacional do PL. Procurados, ambos não quiseram comentar.
Outro personagem citado na reportagem é o advogado Marcelo Luiz Ávila de Bessa, ligado ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto. A visita de Bessa teria sido articulada a pedido de Valdemar, que tenta autorização para se encontrar pessoalmente com Bolsonaro desde o início da custódia, mas teve pedidos negados por também ser investigado nos mesmos processos.
O advogado esteve na Papudinha em 20 de janeiro, às 14h33, com registro oficial de atendimento jurídico. Nos bastidores, no entanto, a visita é tratada como uma interlocução política com foco na montagem de palanques estaduais e na tentativa de evitar iniciativas isoladas de aliados enquanto Bolsonaro segue fora do circuito presencial. Valdemar e Bessa também preferiram não se manifestar.
Conversas diárias com Torres e Silvinei ampliam pauta política
Além das reuniões com advogados, Bolsonaro mantém contato diário com o ex-ministro da Justiça Anderson Torres e com o ex-diretor da PRF Silvinei Vasques, que também estão presos no batalhão. As caminhadas sob escolta, segundo a apuração, se transformaram em momentos de debate sobre o cenário institucional, decisões judiciais e projeções eleitorais.
Entre os assuntos recorrentes está o veto ao PL da Dosimetria e a busca por articulações políticas para tentar reverter o desfecho. Também entram na pauta levantamentos eleitorais sobre o desempenho de nomes da direita em disputas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com expectativa de novos dados nos próximos meses para orientar alianças e investimentos políticos.
O estado de saúde do ex-presidente também passou a ser incorporado ao ambiente político. Informações sobre dieta, dificuldades para dormir e atendimentos médicos constantes circulam entre aliados e ajudam a reforçar o discurso de que Bolsonaro enfrenta problemas clínicos durante a prisão, incluindo episódios como crises de soluço.
Documentos oficiais registrariam atendimentos frequentes e deslocamentos de equipes médicas até a unidade, elemento que, fora da custódia, tem sido usado para sustentar argumentos favoráveis à concessão de prisão domiciliar.
A convivência com Torres e Silvinei, segundo relatos mencionados na reportagem, também teria servido como válvula de escape emocional. Em uma das conversas, Bolsonaro teria desabafado que ambos não seriam “criminosos”, mas que deveria haver “um propósito nisso”. Ainda segundo o relato, Torres teria respondido que “nada é por acaso”.
Foi nesse contexto que ocorreu, na quarta-feira, a visita do senador Rogério Marinho (PL-RN), apontado como principal articulador político da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O encontro teria durado cerca de duas horas e abordado o cenário eleitoral nacional, com foco na montagem de alianças estaduais.
Marinho afirmou ao jornal que a reunião teve como objetivo garantir que decisões estratégicas sejam tomadas com o aval de Bolsonaro.
"Precisamos ter o aval da liderança mais importante, que é o presidente Bolsonaro. Temos alternativas de composição e cada decisão gera consequências. Ele nos deu sua visão sobre os cenários nos estado”, confirmou
Segundo aliados, Marinho levou um diagnóstico detalhado dos estados e saiu com orientações sobre prioridades, riscos e limites de negociação. São Paulo e Minas Gerais teriam sido tratados como pontos centrais, tanto pela disputa ao Senado quanto pelo temor de fragmentação de candidaturas de direita. Goiás e Paraná também teriam sido incluídos no radar.
“O momento agora é de montagem de palanques, para termos representação para o candidato a presidente. A (escolha da) vice será um segundo momento”, afirmou Marinho.
Zema é sondado como vice
A possibilidade de composição nacional já começou a ser testada nos bastidores. Segundo a reportagem, emissários do PL procuraram o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e pediram que ele dê uma resposta sobre eventual aliança após o carnaval.
Apesar disso, Zema segue se apresentando publicamente como pré-candidato à Presidência e diz não pretender abandonar o projeto. No entorno de Bolsonaro, no entanto, ele é descrito como o “vice dos sonhos”, devido ao peso eleitoral em Minas e à capacidade de dialogar com o eleitorado liberal.
A reportagem aponta ainda que Bolsonaro incentiva aproximação com Zema, o que poderia beneficiar Flávio Bolsonaro com um palanque mineiro ao lado do vice-governador Mateus Simões (PSD), mesmo que o PL mantenha discurso oficial de lançar candidato ao governo em todos os estados.
Procurado, Zema afirmou que acompanha a situação do ex-presidente e não descartou visitá-lo.
Em Goiás, Bolsonaro defende aproximação com Caiado
Em Goiás, a articulação segue lógica semelhante. Bolsonaro tem defendido uma aproximação com o grupo do governador Ronaldo Caiado (PSD), apesar da resistência de setores do PL local, que apoiam a candidatura do senador Wilder Morais (PL-GO).
O deputado Bibo Nunes (PL-RS) reforçou o papel central de Bolsonaro nas definições regionais:
“Bolsonaro continua dando as orientações e indicando candidaturas nos estados. Na maioria das vezes, a decisão dele é fundamental para unir os pré-candidatos”, disse.
Além da articulação eleitoral e das estratégias jurídicas, Bolsonaro também mantém uma rotina de assistência religiosa dentro da unidade. Segundo a reportagem, ele recebe acompanhamento espiritual com os pastores Thiago Manzoni e Robson Rodovalho, além de realizar encontros reservados com parlamentares.


