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Planalto vê acordo UE-Mercosul como trunfo político para as eleições

Tratado entre os blocos é visto como estratégico para ampliar mercados, fortalecer o multilateralismo e render dividendos políticos ao Planalto

Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

247 - O aval dado pelo Conselho da União Europeia para a assinatura do acordo comercial com o Mercosul encerra mais de 25 anos de negociações e é tratado pelo governo brasileiro como um movimento de alcance muito mais amplo do que o econômico. No Planalto, a avaliação é de que o tratado tem peso geopolítico relevante, amplia a inserção internacional do país e reforça uma agenda de cooperação em um cenário global marcado pelo avanço do protecionismo. As informações são da CNN Brasil.

O governo enxerga o acordo como um instrumento capaz de diversificar parceiros comerciais, reduzir dependências estratégicas e, ao mesmo tempo, fortalecer a narrativa política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em pleno ano eleitoral.

Do ponto de vista econômico, a expectativa é de que o tratado amplie mercados para produtos brasileiros, inclusive em países europeus pouco explorados comercialmente, além de eliminar tarifas e simplificar procedimentos aduaneiros. A Europa é vista pelo governo como um destino com maior estabilidade institucional e espaço para bens de maior valor agregado, enquanto, nas importações, o acordo pode ajudar a reduzir a dependência tecnológica do Brasil em relação aos Estados Unidos e à China.

O caráter multilateral do tratado foi o primeiro ponto destacado por Lula ao comentar a decisão europeia. “Dia histórico para o multilateralismo. Após 25 anos de negociação, foi aprovado o acordo entre Mercosul-União Europeia, um dos maiores tratados de livre comércio do mundo. Em um cenário internacional de crescente protecionismo e unilateralismo, o acordo é uma sinalização em favor do comércio internacional como fator para o crescimento econômico, com benefícios para os dois blocos”, afirmou o presidente.

Na mesma declaração, Lula ressaltou que “o texto amplia alternativas para exportações brasileiras e investimentos produtivos europeus e simplifica regras comerciais para os dois lados. Uma vitória do diálogo, da negociação e da aposta na cooperação e na integração entre os países e blocos”.

O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), também celebrou o avanço. Segundo ele, o acordo “promove emprego, investimento e comércio com regras, fortalece o multilateralismo e a sustentabilidade”.

A expectativa do governo brasileiro é que a assinatura formal do tratado ocorra no Paraguai, na próxima semana. Depois disso, o texto ainda precisará ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos congressos nacionais dos países do Mercosul, incluindo o Congresso Nacional brasileiro.

No Brasil, o Planalto trabalha para que a aprovação legislativa aconteça ainda no primeiro semestre, de modo a permitir que o acordo entre em vigor o quanto antes. Internamente, auxiliares do presidente avaliam que a conclusão do tratado, um dos principais objetivos da política externa de Lula, pode funcionar como um trunfo político em um período de forte disputa eleitoral.

O setor industrial acompanha o processo com expectativa positiva. A Confederação Nacional da Indústria considera que o acordo traz avanços estratégicos para a indústria brasileira e abre espaço para novos negócios, mas defende medidas adicionais para ampliar seus efeitos. “Para isso, vamos precisar de uma agenda muito sinérgica entre órgãos do governo, setor privado e agências estaduais de investimento”, afirmou Frederico Lamego, superintendente de Relações Internacionais da CNI.

Juntos, Mercosul e União Europeia reúnem cerca de 718 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto combinado superior a US$ 22 trilhões, o que faz do tratado o maior acordo comercial já firmado pelo bloco sul-americano. O texto prevê a eliminação de tarifas sobre aproximadamente 90% das exportações entre os dois lados, em um processo gradual que pode levar mais de uma década para ser plenamente implementado.

Do lado europeu, há interesse especial em ampliar o acesso a matérias-primas críticas, incluindo minerais estratégicos. A formação de maioria no Conselho da União Europeia só foi possível após a mudança de posição da Itália, que passou a apoiar o acordo depois da inclusão de salvaguardas, mecanismos de proteção em caso de crises de mercado, recursos antecipados para agricultores europeus e ajustes tarifários em produtos como fertilizantes.

Ao anunciar a decisão, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou o momento como histórico e afirmou que o acordo envia uma “sinalização forte” de que a Europa leva a sério suas prioridades, com potencial para gerar crescimento, oportunidades e maior prosperidade para cidadãos e empresas. Ainda assim, países como Polônia, França, Hungria, Irlanda e Áustria votaram contra o tratado, pressionados por setores agrícolas preocupados com a concorrência internacional.

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