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Xiong’an: a cidade do futuro de Xi Jinping que pode se tornar a Brasília do século XXI

Nova metrópole planejada pela China busca aliviar a pressão sobre Pequim, concentrar inovação e servir de vitrine para um novo modelo de desenvolvimento

Xiong’an, a cidade inteligente que está sendo construída para abrigar empresas e instituições sediadas em Pequim (Foto: Brasil 247)
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247 – A cerca de 100 quilômetros ao sudoeste de Pequim, uma cidade inteiramente nova está surgindo do solo chinês. Concebida pelo presidente Xi Jinping como um projeto de “significado milenar”, a Nova Área de Xiong’an representa uma das mais ambiciosas experiências de planejamento urbano do século XXI. Mais do que uma nova cidade, trata-se de uma aposta estratégica para reorganizar o crescimento da região da capital chinesa, impulsionar a inovação tecnológica e demonstrar a capacidade do Estado chinês de planejar o futuro em horizontes de décadas.

Lançada oficialmente em 2017 pelo governo chinês, Xiong’an foi projetada para absorver funções consideradas não essenciais à condição de Pequim como capital política da China. A iniciativa busca reduzir a pressão demográfica, imobiliária e ambiental sobre a metrópole que abriga o Partido Comunista Chinês, o Conselho de Estado e os principais órgãos nacionais.

Ao mesmo tempo, a nova cidade foi concebida para se transformar em um centro de inovação, pesquisa científica, educação superior, tecnologia avançada e administração pública, reunindo universidades, hospitais, institutos de pesquisa e empresas estatais estratégicas.

Uma nova etapa da modernização chinesa

Ao longo das últimas décadas, determinadas cidades chinesas tornaram-se símbolos de momentos específicos da trajetória do país.

Shenzhen foi a cidade-símbolo da política de reforma e abertura lançada por Deng Xiaoping nos anos 1980. Pudong, em Xangai, tornou-se o ícone da integração chinesa à economia global.

Xiong’an surge agora como o principal símbolo urbano da era Xi Jinping.

Para os dirigentes chineses, o projeto não se limita à construção de edifícios e avenidas. O objetivo é criar uma cidade capaz de servir como laboratório para tecnologias urbanas avançadas, inteligência artificial, sustentabilidade ambiental, sistemas energéticos inteligentes e novos modelos de governança.

A cidade está sendo construída com redes subterrâneas integradas, sistemas digitais de gestão urbana, infraestrutura de baixa emissão de carbono, amplas áreas verdes e transporte moderno de alta capacidade.

O planejamento não foi concebido para uma década, mas para várias gerações.

Os paralelos com Brasília

Para observadores brasileiros, a comparação com Brasília é inevitável.

As semelhanças começam pela própria origem dos projetos.

Brasília nasceu da decisão política do presidente Juscelino Kubitschek de transferir a capital federal para o interior do país, acelerando a integração nacional e simbolizando um novo ciclo de desenvolvimento.

Xiong’an também nasceu de uma decisão política tomada no mais alto nível do Estado. Em ambos os casos, a construção da cidade foi encarada como um instrumento de transformação nacional.

Outra semelhança está no planejamento. Brasília foi desenhada antes de ser ocupada. Xiong’an segue a mesma lógica. Em vez de crescer de forma espontânea, a cidade está sendo construída a partir de um plano diretor abrangente que define desde a ocupação urbana até os sistemas de transporte, energia e serviços públicos.

As duas cidades também compartilham um forte conteúdo simbólico. Brasília representou a confiança do Brasil no desenvolvimento nacional durante os anos 1950. Xiong’an representa a confiança da China em sua capacidade de liderar a próxima fase da revolução tecnológica e industrial global.

As diferenças são ainda maiores

Apesar das semelhanças, existem diferenças fundamentais. Brasília tornou-se a capital do Brasil. Xiong’an não substituirá Pequim.

A capital chinesa continuará concentrando as principais funções políticas do país. O papel da nova cidade é complementar, absorvendo instituições, empresas, centros de pesquisa e órgãos administrativos que não precisam permanecer em Pequim.

Outra diferença importante é o contexto tecnológico. Brasília foi concebida na era do automóvel. Xiong’an está sendo construída na era da inteligência artificial. A cidade nasce integrada a sistemas digitais avançados, sensores urbanos, monitoramento em tempo real, gestão inteligente de energia e infraestrutura conectada.

Enquanto Brasília simbolizou a modernidade do século XX, Xiong’an pretende simbolizar a modernidade do século XXI.

O poder do planejamento estatal

O projeto também ajuda a compreender uma característica central do modelo chinês de desenvolvimento: a capacidade de mobilizar recursos nacionais em torno de objetivos estratégicos de longo prazo.

Desde seu lançamento, dezenas de órgãos públicos, universidades, centros de pesquisa e empresas estatais foram mobilizados para participar da construção da nova cidade.

Milhares de empresas já estabeleceram operações na região, enquanto grandes grupos controlados pelo governo central iniciaram processos de transferência de escritórios, centros tecnológicos e unidades administrativas.

A construção de Xiong’an demonstra como o Estado chinês utiliza instrumentos de planejamento econômico, financeiro e territorial para moldar o desenvolvimento nacional ao longo de décadas.

A infraestrutura da nova cidade

A construção de uma cidade inteiramente nova exige a mobilização de algumas das maiores empresas de engenharia e infraestrutura do planeta.

Entre elas está a PowerChina, um dos gigantes estatais chineses especializados em energia, urbanização, obras civis e infraestrutura estratégica.

A empresa participa de diversos projetos na nova cidade, incluindo empreendimentos urbanos de grande escala, sistemas energéticos, infraestrutura sustentável e soluções voltadas à construção da chamada “cidade inteligente”.

Um dos principais projetos associados ao grupo é o complexo Xiong’an PowerChina Zhihui City, concebido para reunir escritórios, hotéis, áreas comerciais, moradias e espaços destinados à inovação tecnológica.

A presença da PowerChina em Xiong’an ilustra a forma como as grandes empresas estatais chinesas atuam simultaneamente como agentes econômicos e instrumentos de execução de políticas nacionais. Mais do que simples construtoras, essas empresas funcionam como peças centrais do planejamento estratégico do país.

O que Xiong’an revela sobre a China contemporânea

A construção de Xiong’an oferece uma janela privilegiada para compreender a visão chinesa de desenvolvimento.

Ao contrário de modelos baseados exclusivamente na dinâmica de mercado, a nova cidade reflete uma estratégia que combina planejamento estatal, investimento público, inovação tecnológica e atuação coordenada de grandes empresas nacionais.

Para Pequim, o projeto não se resume à criação de uma nova área urbana. Trata-se da tentativa de construir um novo modelo de cidade para as próximas décadas, capaz de integrar crescimento econômico, sustentabilidade ambiental, tecnologia avançada e planejamento de longo prazo.

Se Brasília representou a aposta do Brasil moderno na interiorização do desenvolvimento, Xiong’an pode vir a ser lembrada como a cidade que simbolizou a entrada da China em uma nova etapa histórica. Uma etapa em que o país busca não apenas crescer, mas também definir como serão as cidades, a infraestrutura e a economia do século XXI.

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