HOME > Cultura

IA reconfigura Bollywood e acelera revolução no cinema da Índia

Estúdios indianos reduzem custos, encurtam prazos e expandem dublagens com inteligência artificial

O épico Mahabharat foi recriado por IA (Foto: Reuters)

247 – A indústria cinematográfica da Índia, a mais prolífica do mundo em volume de produções, vive uma transformação profunda com o avanço da inteligência artificial. Em estúdios de Bengaluru e em grandes produtoras de Bollywood, a tecnologia já é usada para reduzir drasticamente o tempo de produção, cortar custos, adaptar filmes para diversos idiomas e até modificar finais de obras antigas. Segundo reportagem da Reuters, essa corrida tecnológica está reorganizando a economia do audiovisual indiano e colocando em choque duas forças centrais do setor: a busca por eficiência e as dúvidas sobre autenticidade criativa.

A reportagem da Reuters mostra que, enquanto Hollywood segue limitado por regras sindicais mais rígidas e por preocupações com substituição de trabalhadores, o cinema indiano avança de forma muito mais agressiva no uso da IA. O resultado é um cenário em que produtoras, plataformas e gigantes da tecnologia apostam que a Índia poderá assumir a dianteira global em uma nova etapa da produção audiovisual.

Estúdios trocam o barulho dos sets pelo zumbido dos computadores

Em um dos exemplos mais emblemáticos dessa virada, a Collective Artists Network, uma das principais agências de talentos de Bollywood, passou a desenvolver também “estrelas digitais”. Em sua estrutura em Bengaluru, cineastas utilizam ferramentas de inteligência artificial para criar conteúdos inspirados na mitologia hindu, um dos gêneros mais populares do país.

Entre os projetos estão produções baseadas em textos clássicos como o Ramayana e o Mahabharat. Em uma das cenas mencionadas pela Reuters, o deus Hanuman aparece voando enquanto carrega uma montanha. Em outra, a princesa Gandhari surge se vendando ao se casar com um rei cego. O uso da IA nesse tipo de narrativa não é casual: trata-se de um segmento com grande apelo popular e forte potencial comercial.

Rahul Regulapati, responsável pelo estúdio de IA da Collective, o Galleri5, resumiu de forma direta o impacto econômico da mudança. “A IA está reduzindo os custos de produção para um quinto do que eram no cinema tradicional em gêneros como mitologia e fantasia”, disse. Sobre o tempo de execução, ele foi igualmente enfático: “Caiu para um quarto”.

Queda de público e pressão por eficiência aceleram a mudança

A adoção da inteligência artificial ocorre em um momento de pressão econômica sobre o cinema indiano. Embora o país continue produzindo mais filmes do que qualquer outra nação e mantenha um sistema de estrelato poderoso, com nomes como Shah Rukh Khan e Amitabh Bachchan, os hábitos do público mudaram de forma significativa nos últimos anos.

Segundo dados citados pela Reuters, da consultoria Ormax Media, o número de frequentadores de salas de cinema caiu de 1,03 bilhão em 2019 para 832 milhões em 2025. Ainda que a bilheteria tenha alcançado o recorde de US$ 1,4 bilhão no ano passado, a receita do setor tem oscilado desde a pandemia e dependido de poucos sucessos de grande porte, além de ingressos mais caros.

Nesse ambiente, a IA passou a ser vista por muitos executivos como uma resposta objetiva ao aperto orçamentário. De acordo com análise da EY citada pela Reuters, a tecnologia pode elevar em 10% a receita das empresas indianas de mídia e entretenimento e reduzir custos em 15% no médio prazo.

Vikram Malhotra, fundador da Abundantia Entertainment, afirmou à Reuters que sua produtora, que anunciou recentemente um investimento em um estúdio de IA avaliado em US$ 11 milhões, está construindo essa capacidade do zero. A expectativa é que, em três anos, conteúdos gerados ou assistidos por inteligência artificial respondam por um terço de sua receita.

Releituras com IA reacendem disputa sobre a alma das obras

Uma das experiências mais controversas relatadas pela Reuters envolve o relançamento do filme Raanjhanaa, sucesso de 2013 da Eros Media World. A empresa reeditou a obra com ajuda de IA e substituiu o final trágico, em que o protagonista morria, por um desfecho feliz, no qual ele abre os olhos diante da surpresa da mulher amada, que sorri entre lágrimas.

A mudança provocou forte reação. O ator Dhanush, protagonista do longa, criticou duramente a intervenção e escreveu na rede X que a versão recriada com IA havia “despojado o filme de sua própria alma” e estabelecido “um precedente profundamente preocupante tanto para a arte quanto para os artistas”.

Apesar da rejeição de parte do meio artístico, o relançamento teve resultado comercial relevante. A maior rede de cinemas da Índia, a PVR Inox, informou à Reuters que 35% dos ingressos disponíveis para a versão em língua tâmil foram vendidos no mês de lançamento, em agosto. Esse índice ficou 12 pontos percentuais acima da média registrada em 2025.

Diante disso, a Eros decidiu ampliar a aposta. Pradeep Dwivedi, CEO do grupo, disse à Reuters que a companhia está revisando seu catálogo de 3 mil títulos “para identificar candidatos à adaptação assistida por IA”. Segundo ele, trata-se de “uma oportunidade de receita e também de uma estratégia de renovação criativa”.

Diferença em relação a Hollywood expõe disputa regulatória

O contraste com os Estados Unidos é marcante. Em Hollywood, o uso da inteligência artificial enfrenta barreiras impostas por acordos sindicais e por contratos que limitam alterações digitais em interpretações de atores ou decisões criativas sem consentimento.

A Reuters destaca que, sob as regras da SAG-AFTRA, os estúdios não podem alterar digitalmente a atuação de um artista nem criar réplicas digitais sem consentimento informado. Já o contrato da Directors Guild of America impede que os estúdios usem IA para decisões criativas sem consultar o diretor e veta que a tecnologia execute o trabalho dos membros da entidade.

Na Índia, o terreno regulatório é mais aberto, e isso favorece experimentos mais ousados. Para Dominic Lees, pesquisador de cinema e IA da Universidade de Reading, no Reino Unido, a ambição indiana supera a de centros tradicionais da indústria. “Se eles conseguirem entregar, então a mudança na realização cinematográfica com IA será para a Índia”, afirmou à Reuters.

Mitologia hindu vira laboratório de escala industrial

A mitologia hindu se tornou um dos campos mais promissores para esse novo modelo de produção. A Collective planeja oito títulos gerados por IA centrados em divindades como Hanuman, Krishna, Durga e Kali. Já a JioStar, joint venture de mídia entre a Reliance, do bilionário Mukesh Ambani, e a Walt Disney, exibiu uma adaptação gerada por IA do épico Mahabharat.

Segundo a empresa, a série, lançada em outubro na plataforma de streaming da JioStar, acumulou ao menos 26,5 milhões de visualizações. O número é expressivo, embora ainda distante do impacto de uma adaptação televisiva anterior, exibida entre 1988 e 1990, que chegou a 200 milhões de espectadores.

O desempenho de audiência, no entanto, não eliminou as críticas. A versão em IA do Mahabharat tem nota 1,4 de 10 no IMDb. Entre as reclamações registradas por espectadores estão falhas de sincronização labial, baixa qualidade visual em algumas sequências e uma sensação de artificialidade estética.

Alok Jain, executivo sênior da JioStar, disse à Reuters que a reação do público “tem sido uma mistura de apreciação e debate saudável, o que é natural para qualquer salto criativo ambicioso”. Ele acrescentou que a empresa avalia desenvolver histórias originais em formato de IA.

O público consome, mas resiste

Esse é talvez o ponto mais delicado da transformação em curso. A inteligência artificial ajuda a baratear a produção e ampliar a escala, mas nem sempre conquista a confiança do público. Em vários casos, conteúdos produzidos com IA vendem bem e, ao mesmo tempo, recebem avaliações duras.

O escritor e produtor norte-americano Jonathan Taplin, que trabalhou com estúdios de Hollywood, foi contundente ao comentar a tendência. Para ele, usar IA para produzir longas inteiros é “uma afronta a toda a história do cinema”. Em outra crítica, afirmou: “Ela vai encher seus cinemas e telas com uma lama formulaica”.

Na Índia, mesmo vozes críticas reconhecem a força econômica do movimento. O diretor Anurag Kashyap disse à Reuters que se preocupa com a expansão da tecnologia e com a ausência de salvaguardas mais claras para seu uso. Ainda assim, admitiu que os estúdios veem racionalidade comercial no modelo. “Na Índia, cinema não é arte. É puramente negócio, então os estúdios vão usar isso para fazer mitologia”, declarou. E concluiu com franqueza: “Nosso público é um otário para isso”.

Dublagem com IA pode ser a porta de entrada mais aceita

Se os filmes totalmente gerados por inteligência artificial ainda enfrentam resistência, a dublagem assistida por IA aparece como uma frente com maior potencial de aceitação. A Índia tem 22 línguas oficiais e centenas de dialetos, o que fragmenta o mercado interno e torna a dublagem decisiva para transformar um filme em sucesso nacional.

Historicamente, espectadores reclamam da falta de sincronia entre voz e movimento labial. É justamente esse problema que empresas de IA tentam resolver. Em visita da Reuters à startup NeuralGarage, em Bengaluru, o cofundador Subhabrata Debnath demonstrou uma personagem gerada por IA falando em inglês. Em seguida, foi sobreposta uma faixa de áudio em alemão e, em poucos minutos, a personagem passou a “falar” fluentemente no novo idioma, com lábios e mandíbula sincronizados.

Debnath explicou à Reuters que a tecnologia preserva “a performance, a identidade e o estilo de fala da pessoa”, ao mesmo tempo em que altera o rosto o suficiente para tornar a dublagem visualmente natural.

A NeuralGarage foi utilizada no ano passado para dublar para o telugu o filme em hindi War 2, da Yash Raj Films. A produtora não respondeu às perguntas da Reuters, mas o caso reforça a percepção de que a IA pode se consolidar primeiro não como substituta completa do cinema tradicional, e sim como ferramenta poderosa de adaptação e circulação de conteúdo.

Gigantes da tecnologia entram na disputa pelo audiovisual indiano

A movimentação não se limita às produtoras. Grandes empresas de tecnologia já entraram na corrida para se posicionar no setor audiovisual indiano. O Google firmou parceria com o diretor de Bollywood Shakun Batra, em agosto, para produzir uma série cinematográfica de cinco partes usando sua ferramenta de geração de vídeo Veo 3 e o sistema Flow AI.

Mira Lane, vice-presidente de tecnologia e sociedade do Google, disse à Reuters que a IA pode permitir que artistas independentes criem sequências complexas que “de outra forma poderiam estar fora de alcance devido a restrições orçamentárias ou logísticas”.

A Microsoft também se associou à Collective e informou à Reuters que fornece poder computacional para ajudar a “moldar a próxima onda da narrativa global”. Já a Nvidia, presente em festivais indianos dedicados ao cinema com IA, tem defendido a redução dos custos de computação para ampliar o acesso à nova linguagem de produção. Em um desses eventos, Pradeep Gupta, vice-presidente global da companhia, afirmou que a empresa trabalha para cortar custos de modo que qualquer pessoa possa “criar algo substancial sem colocar muito dinheiro” na produção.

Festivais, laboratórios e novas linguagens expandem a fronteira

A transformação já extrapola os estúdios e alcança o circuito cultural. Festivais dedicados a curtas gerados por IA se multiplicaram em cidades como Los Angeles, Cannes e Barcelona. Na Índia, o primeiro evento do tipo ocorreu em novembro, na Royal Opera House de Mumbai, reunindo jovens criadores e até um robô dançarino no tapete vermelho.

Em fevereiro, a segunda edição do festival indiano de cinema com IA, em Nova Déli, reuniu aspirantes a cineastas e representantes da Nvidia em torno da promessa de um novo ecossistema de produção. A mensagem é clara: a Índia quer ocupar posição central nessa nova etapa do audiovisual, combinando abundância de histórias, apelo popular, escala industrial e flexibilidade regulatória.

Para contornar as limitações dos prompts de texto convencionais, estúdios como a Collective adotam um sistema híbrido. Atores vestem trajes de captura de movimento com sensores para registrar os gestos corporais em dados tridimensionais, enquanto smartphones captam expressões faciais. Esse material alimenta a cadeia de produção baseada em IA, permitindo um controle mais refinado sobre os personagens digitais.

A Índia pode liderar uma nova era, mas o debate está longe de terminar

O que emerge desse processo é uma indústria em mutação acelerada. A Índia não apenas experimenta a inteligência artificial como ferramenta de apoio, mas começa a reconfigurar toda a lógica de produção, distribuição e reaproveitamento de conteúdo. Nesse movimento, a promessa de ganhos econômicos é evidente: menos tempo, menos custo, mais escala e maior capacidade de circulação entre diferentes mercados linguísticos.

Mas o preço cultural dessa transformação ainda está em disputa. A reação crítica a obras modificadas por IA, os questionamentos sobre qualidade estética e as preocupações com a descaracterização da criação artística mostram que a adesão do público não será automática nem homogênea.

Ainda assim, se o ritmo atual for mantido, a Índia pode se tornar o principal laboratório mundial do cinema guiado por inteligência artificial. E, nesse caso, a disputa pelo futuro do audiovisual não passará apenas por Hollywood, mas por Bengaluru, Mumbai e pela capacidade indiana de transformar tecnologia em indústria cultural de massa.

Artigos Relacionados