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Acordo bilionário vincula financiamento de US$ 565 milhões a interesses dos EUA nas terras raras brasileiras

Documento condiciona aporte financeiro a cláusulas que priorizem fornecimento a empresas estadunidenses e limitam acesso da China a minerais brasileiros

Área de mineração de Serra Verde, em Goiás (Foto: Divulgação)

247 - Um acordo inédito entre o governo dos Estados Unidos e a mineradora brasileira Serra Verde vincula um financiamento de US$ 565 milhões a mecanismos que garantem influência estadunidense sobre o destino da produção de terras raras no Brasil. Segundo a revista Veja, a operação foi conduzida pela U.S. International Development Finance Corporation (DFC), a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA, e inclui condições até então não divulgadas publicamente.

O documento prevê cláusulas de "offtake" — mecanismo que garante prioridade de fornecimento a determinados compradores — voltadas a assegurar que parte da produção da Serra Verde seja destinada a empresas estadunidenses ou alinhadas aos interesses dos EUA. O acordo limita a disponibilidade dos minerais para outros mercados, inclusive para a China, país que atualmente domina a cadeia global de terras raras e é o principal alvo estratégico da iniciativa.

A operação integra uma estratégia mais ampla do governo dos EUA — liderado pelo presidente dos Donald Trump — para reduzir a dependência da China no setor de minerais críticos. As terras raras são insumos essenciais para uma vasta gama de tecnologias modernas, incluindo celulares, computadores, carros elétricos, equipamentos médicos e de defesa, turbinas eólicas, baterias recarregáveis e sistemas a laser — o que torna o controle sobre sua cadeia de suprimentos um tema de segurança nacional para as grandes potências.

O acordo com a Serra Verde representa uma das iniciativas mais concretas dos EUA para garantir acesso direto a fontes de minerais estratégicos fora de seu território, em um cenário geopolítico no qual a disputa pelo controle de cadeias de suprimentos tecnológicos se intensifica entre Washington e Pequim. Ao condicionar o financiamento ao direcionamento da produção brasileira para o mercado norte-americano, a DFC assegura não apenas o acesso aos minerais, mas também influência sobre decisões comerciais de uma empresa sediada em território brasileiro.

No campo legislativo, propostas têm sido apresentadas para ampliar o controle nacional sobre esses recursos. Um projeto em tramitação prevê a criação de uma reserva nacional de terras raras, com planejamento estatal da exploração e definição centralizada de autorizações e concessões. A iniciativa busca garantir que a utilização desses minerais atenda aos interesses estratégicos do país.

O grupo das terras raras é formado por 17 elementos químicos: Cério, Disprósio, Escândio, Érbio, Európio, Gadolínio, Hólmio, Itérbio, Ítrio, Lantânio, Lutécio, Neodímio, Praseodímio, Promécio, Samário, Térbio e Túlio, essenciais para tecnologias de ponta, como motores elétricos, turbinas eólicas, celulares e equipamentos aeroespaciais. Embora não sejam necessariamente escassas, sua exploração exige processos complexos e investimento tecnológico.

O Brasil possui reservas relevantes desses minerais, com ocorrências em estados como Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe, além de áreas na Amazônia e no Nordeste. Esses recursos são considerados estratégicos no contexto da transição energética e da disputa global por insumos tecnológicos.

As reservas conhecidas de terras-raras no Brasil podem alcançar um valor equivalente a 186% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, quase o dobro do tamanho atual da economia brasileira. A estimativa foi calculada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) com base em preços internacionais e nos dados do PIB de 2024, apontando o potencial econômico desses recursos minerais estratégicos para o país.

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