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Banco Master lucrou mais com revenda de consignados que com juros em 2024

Dados da Receita mostram que banco arrecadou R$ 1,6 bilhão com venda de operações do CredCesta, acima dos R$ 709 milhões em juros

Segurança do lado de fora do Banco Master, após a prisão do acionista controlador do banco, Daniel Vorcaro, em São Paulo - 18 de novembro de 2025 (Foto: REUTERS/ Amanda Perobelli)

247 - O Banco Master registrou, em 2024, uma receita significativamente maior com a venda de operações de crédito consignado do que com os juros cobrados diretamente dos empréstimos. Dados da Receita Federal indicam que o modelo adotado pelo banco, centrado no CredCesta, gerou R$ 1,6 bilhão com a comercialização dessas carteiras, superando os R$ 709 milhões obtidos com empréstimos consignados.

As informações foram reveladas a partir da escrituração contábil enviada pelo banco à Receita Federal e posteriormente encaminhada à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o crime organizado, conforme reportagem do G1.

O CredCesta, principal produto desse modelo, é um cartão de benefício consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas, com parcelas descontadas diretamente na folha de pagamento. Esse formato garante menor risco de inadimplência e maior previsibilidade de receitas, características que ampliam seu valor no mercado financeiro.

Entre 2022 e 2024, o Banco Master acumulou R$ 2,4 bilhões com a venda de carteiras de crédito do CredCesta, enquanto a receita gerada pelos próprios empréstimos somou R$ 1,9 bilhão. A diferença sugere uma estratégia baseada no ganho de ágio — conceito financeiro que representa a expectativa de valorização futura de um ativo.

Somente em 2024, o banco declarou um montante de R$ 10,5 bilhões a receber relacionados ao CredCesta. Esse valor pode estar associado tanto à concessão de novos empréstimos quanto à recompra de carteiras anteriormente vendidas. No mesmo período, a instituição registrou baixas de R$ 14,4 bilhões, decorrentes de pagamentos realizados pelos clientes ou da venda de parte dessas operações a terceiros.

Apesar da movimentação expressiva, os dados não detalham quais instituições financeiras adquiriram essas carteiras ao longo do ano. Investigações da Polícia Federal apontam que a relação entre o Banco Master e o Banco Regional de Brasília (BRB) teve início em junho de 2024.

O CredCesta também está ligado a decisões tomadas no processo de privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), em 2018. Na ocasião, o empresário Augusto Lima foi o único participante da licitação, que incluiu a exploração do programa de crédito consignado por um período de 15 anos. O processo foi conduzido durante a gestão do então governador Rui Costa, atual ministro da Casa Civil, e contou com a atuação de Jaques Wagner, então secretário de Desenvolvimento Econômico.

O edital previa a manutenção do modelo de crédito consignado e autorizava sua ampliação para serviços financeiros mais abrangentes. Posteriormente, um decreto estadual reformulou o CredCesta, transformando-o em um cartão de crédito consignado com regras específicas de uso e limites de desconto em folha.

Na prática, essa reformulação ampliou o potencial de exploração comercial do produto, que passou a oferecer uma base de clientes estável, menor risco de inadimplência e possibilidade de expansão para outros serviços financeiros. Enquanto isso, a rede de supermercados Cesta do Povo, também incluída na privatização, enfrentava prejuízos anuais de cerca de R$ 60 milhões.

Em nota enviada ao g1, o senador Jaques Wagner afirmou que conheceu Augusto Lima em 2017, durante o processo de privatização. “Naquele período, uma das atribuições da pasta era conduzir o processo de venda do Supermercado Cesta do Povo, ocasião em que o referido empresário apresentou proposta e arrematou o ativo”, declarou.

Outro ponto analisado envolve a qualidade das carteiras de crédito negociadas. Um levantamento considerou 1,9 milhão de contratos adquiridos pelo banco, envolvendo 615 mil clientes — uma média de três contratos por pessoa. Parte dessas operações estava vinculada à empresa Tirreno, cujas carteiras foram compradas pelo Banco Master por R$ 6,3 bilhões e posteriormente repassadas ao BRB por R$ 11,5 bilhões.

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