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“BNDES é a casa do desenvolvimento do Brasil”, diz Mercadante

Presidente do BNDES recebe prêmio do Cofecon e afirma que Brasil precisa reagir à crise do multilateralismo

Aloizio Mercadante (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

247 - O economista Aloizio Mercadante, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), foi homenageado na última sexta-feira (6) com o prêmio Personalidade Econômica do Ano, concedido pelo Conselho Federal de Economia (Cofecon). Na mesma cerimônia, o banco também recebeu, pelo segundo ano consecutivo, o reconhecimento de Destaque Econômico de 2025, na modalidade Desempenho Técnico.

Ao agradecer o prêmio, Mercadante fez referência à importância histórica do banco e reforçou o papel do Estado como indutor de crescimento e transformação produtiva. Em sua fala, afirmou: “O BNDES é a casa do desenvolvimento do Brasil. Sempre foi.”

Ele também ressaltou que instituições públicas não devem atuar apenas com base em resultados imediatos, mas com foco em políticas de longo prazo. Segundo o presidente do banco, “um banco público não pensa no curto prazo, pensa no futuro do país, na indústria, na inovação, na sustentabilidade e na soberania nacional.”

Mercadante homenageia mulheres e negros no avanço da economia brasileira

No início do discurso, Mercadante prestou homenagem à presidenta do Cofecon, destacando mudanças históricas na presença feminina no campo da economia. Ele afirmou: “Quando entrei na faculdade de economia, no início de 1973, a presença feminina não era uma coisa simples. Então, parabéns. Você é, desde 1951, a primeira de muitas que virão, porque não haverá caminho de volta.”

Ao se dirigir à presidenta do IPEA, Luciana Servo, também ressaltou transformações sociais no ambiente universitário e recordou a luta pela aprovação de políticas de inclusão. Mercadante declarou: “Quando eu entrei na USP havia um estudante negro. Hoje vemos as mulheres negras ocupando esses espaços.” E completou: “Como ministro da educação, uma das coisas que mais lutei, porque no Senado não consegui, foi aprovar a lei de cotas para os estudantes da escola pública.”

Ruptura global e crise do multilateralismo preocupam o presidente do BNDES

Mercadante dedicou parte central do pronunciamento à análise do cenário internacional, marcado por instabilidade geopolítica e reconfiguração econômica. Para ele, o mundo vive um momento de enfraquecimento das instituições multilaterais e erosão das regras construídas no pós-guerra.

Segundo o economista, “estamos vivendo uma ruptura da ordem econômica internacional e uma erosão dos organismos multilaterais, que são instituições construídas pela civilização para valorizar a diplomacia e a solução dos conflitos e criar regras que protejam os mais fracos.”

Na avaliação de Mercadante, essa fragilidade institucional expõe os países mais vulneráveis à lógica da força e da imposição. Ele resumiu essa visão com uma frase direta: “Na relação entre fortes e fracos a liberdade oprime, é a lei que protege.”

Declínio do Ocidente e ascensão da Ásia marcam novo ciclo econômico

Ao aprofundar sua leitura do cenário global, Mercadante afirmou que o modelo neoliberal predominante nas últimas décadas contribuiu para a perda de protagonismo econômico de potências ocidentais. Para ele, há um deslocamento do centro dinâmico mundial para a Ásia.

O presidente do BNDES declarou que “esses 40 anos de neoliberalismo e insistência na ortodoxia neoliberal levaram o Ocidente a esta situação.” Em seguida, avaliou que “a União Europeia e os Estados Unidos buscam respostas para repensar o lugar do Estado e reagir à perda de relevância econômica, tecnológica e de inovação.”

Inteligência artificial e big techs impõem risco de dependência estrutural

Outro eixo importante do discurso foi o alerta sobre a corrida tecnológica, especialmente no campo da inteligência artificial. Mercadante defendeu que países do Sul Global precisam agir com rapidez para não se tornarem meros consumidores de tecnologias desenvolvidas por grandes corporações.

Ele advertiu: “Se não nos movimentarmos rapidamente para produzir inteligência artificial e não sermos apenas consumidores passivos, viveremos uma nova forma de neocolonização cultural.”

Mercadante defendeu investimentos em inovação e soberania digital, afirmando que o banco acompanha essas transformações com atenção, diante da velocidade com que as tecnologias reconfiguram a economia mundial.

Tarifaço e soberania: Mercadante elogia posição do Brasil na ONU

Ao comentar a postura brasileira diante de disputas comerciais internacionais, Mercadante afirmou que se sente orgulhoso ao ver o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defender a soberania nacional e o Estado democrático de direito em fóruns multilaterais.

Ele declarou que Lula afirmou que “a nossa soberania e o estado democrático de direito são inegociáveis e que o Brasil não iria se render ao tarifaço.” Ao mesmo tempo, ponderou que o governo reconhece os limites da correlação de forças global e busca alternativas para reduzir impactos.

Mercadante relatou que, nesse contexto, foi elaborado o Plano Brasil Soberano, com ações emergenciais de crédito. Segundo ele, “nós fizemos o Plano Brasil Soberano e tivemos que, em quatro meses, emprestar 19 bilhões de reais para empresas que foram impactadas e perderam mais de 50% do seu faturamento.”

Ainda de acordo com o presidente do BNDES, apesar de avanços nas negociações, os efeitos econômicos foram sentidos. Ele afirmou: “Conseguimos retirar uma parte das tarifas, e o vice-presidente tem sido muito habilidoso, mas isso impactou a indústria e a desaceleração da economia.”

Emprego e renda sustentam crescimento, diz Mercadante

Ao abordar a economia brasileira, Mercadante citou indicadores que, segundo ele, demonstram melhora no mercado de trabalho e avanço social. Ele relacionou crescimento econômico à ampliação do consumo popular e à geração de empregos.

Em sua avaliação, “o grande vetor do crescimento foi o emprego.” E acrescentou: “Estamos com a menor taxa de desemprego da história, a menor informalidade, crescimento real da renda e a queda histórica do coeficiente de Gini.”

Mercadante defende queda forte e sustentável da Selic

O presidente do BNDES também defendeu uma redução consistente da taxa básica de juros como condição para acelerar investimentos produtivos e garantir crescimento estrutural.

Ele afirmou: “A Selic precisa cair logo, cair forte e de forma sustentável, para que possamos retomar um crescimento mais acelerado e estrutural da economia brasileira.”

Para Mercadante, a retomada do investimento deve ser o motor principal da modernização econômica, superando a dependência exclusiva do consumo de massa.

“É o investimento que dá o crescimento sustentado”, afirma economista

Mercadante reforçou que o país não pode se acomodar com a expansão do consumo como único motor de crescimento e defendeu investimentos estruturantes para elevar a competitividade industrial.

Ele argumentou: “Não podemos nos acomodar com o mercado de consumo de massa como vetor. É o investimento que dá o crescimento sustentado de longo prazo e que alavanca a modernização da economia.”

Nesse sentido, destacou a atuação do BNDES em agendas estratégicas como reindustrialização, transição energética, inovação tecnológica e combate às mudanças climáticas.

Estado forte e servidores valorizados são essenciais, diz presidente do BNDES

Em sua parte final, Mercadante vinculou desenvolvimento econômico à estabilidade institucional e à capacidade do Estado de conduzir projetos estratégicos. Ele defendeu que sem instituições sólidas não há soberania nem inclusão social duradoura.

O economista afirmou: “Precisamos de instituições fortes, regras claras e um Estado capaz de liderar projetos estratégicos. Sem isso, não há desenvolvimento, não há soberania e não há inclusão social duradoura.”Também criticou iniciativas de desvalorização do funcionalismo público e defendeu reconhecimento aos servidores. Segundo ele, “vamos acabar com essa discussão de apequenar o servidor público. Ele é essencial para uma sociedade da democrática com distribuição de renda, com desenvolvimento, com emprego.”

Ao encerrar, Mercadante dedicou o prêmio ao presidente Lula, reafirmando a centralidade do Estado na reconstrução de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

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