Brasil amplia superávit com a China e vê déficit com os EUA disparar sob impacto do tarifaço de Trump
Exportações de soja e petróleo reforçam a relação com Pequim, enquanto sobretaxas impostas pelos Estados Unidos atingem a indústria brasileira
247 – O Brasil aprofundou em 2025 sua dependência comercial da China como principal destino de exportações estratégicas, ao mesmo tempo em que viu se agravar o déficit na relação com os Estados Unidos, sob o impacto da política tarifária do presidente Donald Trump. Os números revelam um reposicionamento relevante do comércio exterior brasileiro em meio à disputa entre as duas maiores potências econômicas do planeta.
Segundo reportagem do Valor Econômico, com base em dados oficiais dos governos da China, dos Estados Unidos e da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic), o Brasil subiu no ranking dos países que mais geram déficit comercial para os chineses e também avançou na lista dos países que mais contribuem para o superávit comercial americano. Na prática, isso significa que o país ampliou seu superávit com a China e viu disparar o déficit com os Estados Unidos.
Pela ótica chinesa, o déficit comercial com o Brasil chegou a US$ 44,8 bilhões em 2025, colocando o país na terceira posição entre os parceiros que mais geram saldo negativo para Pequim, atrás apenas de Taiwan e Austrália. Em 2024, o Brasil ocupava o quarto lugar. Já pela ótica dos Estados Unidos, o superávit comercial com o Brasil foi de US$ 14,4 bilhões em 2025, levando o país da sétima para a quinta colocação entre aqueles que mais contribuem para o saldo positivo americano.
Do ponto de vista brasileiro, o retrato é claro: houve superávit nas trocas com a China e déficit no comércio com os Estados Unidos. E, segundo economistas e analistas ouvidos na reportagem, a tendência para 2026 é de continuidade desse movimento, com maior estreitamento da relação sino-brasileira e recuperação lenta, incerta e politicamente condicionada no caso americano.
China amplia seu peso no comércio exterior brasileiro
A relação com a China segue sendo marcada por forte complementaridade, concentrada em commodities, especialmente soja, minério de ferro e petróleo. Em 2025, as exportações brasileiras ao país asiático somaram US$ 99,9 bilhões, alta de 5,9% em relação ao ano anterior. As importações brasileiras de produtos chineses também cresceram, e ainda mais fortemente: 11,4%, alcançando US$ 70,92 bilhões, em nível recorde.
Esse avanço elevou a corrente de comércio entre os dois países ao maior patamar já registrado. Ao mesmo tempo, reforçou uma característica estrutural da relação bilateral: o Brasil exporta insumos e matérias-primas, enquanto importa cada vez mais produtos industrializados, incluindo itens vinculados à chamada transição energética.
O economista Livio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), resumiu esse padrão de forma direta: “Temos uma complementariedade natural de pauta com a Ásia, especialmente China, o que leva, naturalmente, a um déficit para os chineses. Nós mandamos os insumos necessários e eles mandam para nós produtos finais em quantidade cada vez maior. Há esse pêndulo entre os dois lados, com excelência para a China, mas isso não deve mudar. É uma questão de modelos econômicos, estruturas produtivas. É um fato.”
A soja segue como símbolo maior dessa dependência comercial. De acordo com dados da Secex citados na reportagem, quase 80% da soja exportada pelo Brasil em 2025 teve como destino a China. A guerra comercial entre Pequim e Washington favoreceu o grão brasileiro, permitindo ganho de mercado por parte dos exportadores nacionais.
Nas palavras de Ribeiro: “A complementariedade aumentou.”
Petróleo ganha protagonismo e pode crescer ainda mais
Se a soja consolidou a posição do Brasil no comércio com a China, o petróleo passou a exercer papel ainda mais decisivo. Em 2025, o embarque da commodity para o mercado chinês bateu recorde em volume e valor, impulsionado tanto pela demanda asiática quanto pelo aumento da produção brasileira, especialmente a partir do pré-sal.
O coordenador de análise econômica do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), Aldren Vernersbach, destacou que a China já é o principal destino do petróleo exportado pelo Brasil, respondendo por 45% do total em 2025. Segundo ele, essa participação pode alcançar 50% em 2026.
A reportagem informa que o Brasil embarcou para a China, em média, 870 mil barris por dia no ano passado. Na avaliação de Vernersbach, a busca chinesa por segurança energética, associada à diversificação de fornecedores, ajuda a explicar esse avanço. Ele afirmou: “Com os fatos recentes a China fica numa posição delicada, porque depende da importação de petróleo e tende a buscar mercados com estabilidade de suprimento.”
Esse cenário pode se intensificar caso a guerra no Oriente Médio prolongue seus efeitos sobre rotas estratégicas, como o estreito de Ormuz. Nessa hipótese, o petróleo brasileiro tende a ganhar ainda mais relevância na Ásia, especialmente para a China, em razão da previsibilidade do fornecimento e da expansão da produção nacional.
Também nesse contexto entram os investimentos chineses no setor energético brasileiro. Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), observou que a presença chinesa em energia e petróleo contribui para impulsionar a exportação da commodity ao mercado asiático.
Vernersbach lembrou ainda o leilão de blocos da Margem Equatorial, no qual a chinesa CNPC, em parceria com a americana Chevron, arrematou nove blocos exploratórios na bacia da região. Para ele, isso demonstra confiança no potencial energético brasileiro. Segundo o especialista: “Isso mostra como os chineses acreditam no potencial energético do Brasil.”
Importações chinesas mudam de perfil e pressionam a indústria
Se as exportações brasileiras para a China continuam fortemente concentradas em commodities, as importações vindas do país asiático vêm passando por mudanças importantes. O avanço recente se dá, sobretudo, em produtos ligados à indústria de transição energética, como painéis solares e veículos eletrificados.
Cariello chamou atenção para essa transformação. Segundo ele, os três principais produtos exportados pelo Brasil para a China — soja, minério de ferro e petróleo — responderam por 74,2% de tudo o que o país vendeu ao mercado chinês em 2025. Em contrapartida, a pauta importadora é mais diversificada e vem sendo dominada por produtos industriais de maior valor agregado.
Ele resumiu assim esse processo: “O que eventualmente acontece na exportação é a entrada de um ou outro produto, como milho, sorgo e celulose. Mas o que realmente tem mudado são as importações brasileiras origem China. Elas continuam muito diversificadas e o que tem chamado a atenção são itens ligados à indústria de transição energética, como painel solar e carro eletrificado, que tem dominado a pauta, o que não acontecia há cerca de cinco anos.”
Entre os itens mais vendidos pela China ao Brasil em 2025, segundo a alfândega chinesa, estão a perua elétrica e as células fotovoltaicas usadas na geração de energia solar. Trata-se de um movimento que reforça a presença chinesa em setores industriais estratégicos e expõe, mais uma vez, a fragilidade da política industrial brasileira diante da competição internacional.
Tarifaço de Trump agrava déficit e afeta exportadores brasileiros
No caso dos Estados Unidos, o cenário é distinto e mais preocupante. Embora as importações brasileiras de produtos americanos tenham crescido em 2025, chegando a US$ 45,1 bilhões, as exportações do Brasil aos EUA caíram 6,7%, somando US$ 37,7 bilhões. O resultado foi um aprofundamento expressivo do déficit brasileiro.
O fator central foi o tarifaço imposto pelo governo Donald Trump. Em 2025, as sobretaxas sobre alguns produtos importados chegaram a 40% e 50%, atingindo setores relevantes da pauta exportadora brasileira. A queda nas vendas aos EUA foi particularmente severa na segunda metade do ano: 16,7%, revertendo a alta de 4,4% observada entre janeiro e junho.
Mesmo após decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que derrubou parte das tarifas baseadas na IEEPA, reduzindo a alíquota aplicada ao Brasil de 50% para 15%, os efeitos econômicos já haviam sido produzidos. O dano foi mais duro sobre setores da indústria de transformação, dependentes de contratos de longo prazo e de relações estáveis entre clientes e fornecedores.
O economista do Inter, André Valério, foi categórico ao avaliar esse impacto: “Mas não estamos tão otimistas porque o dano é muito grande. Tivemos praticamente seis meses com essa tarifa alta e isso afetou desproporcionalmente alguns setores muito exportadores aos EUA, principalmente na indústria de transformação. É razoável supor que houve quebra da relação entre cliente e fornecedor. E quando isso acontece, é muito difícil refazer a relação, porque são contratos de longo prazo, às vezes com muitas especificações técnicas. A recuperação de mercado não deve acontecer de imediato.”
Valério avalia que o déficit comercial do Brasil com os Estados Unidos pode até recuar um pouco em 2026, mas sem retornar aos níveis anteriores à escalada tarifária. Ele afirmou: “Mas não vemos retornando para os níveis pré-tarifa no curto prazo.”
A situação é agravada por novas frentes de pressão abertas por Washington. Segundo a reportagem, há outras investigações em curso contra o Brasil, inclusive com base na Seção 301, instrumento frequentemente utilizado pelos EUA para justificar medidas unilaterais de proteção comercial. O resultado é um ambiente de incerteza que trava decisões de investimento e compromete a previsibilidade do comércio bilateral.
Diálogo bilateral vira peça central diante da imprevisibilidade
Diante desse quadro, analistas e representantes empresariais defendem a intensificação das negociações entre Brasil e Estados Unidos. A avaliação é que, sem um esforço diplomático e comercial consistente, o país seguirá exposto às oscilações da política protecionista americana.
O presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, afirmou que as investigações em curso indicam a necessidade de acelerar o diálogo bilateral em busca de maior previsibilidade para os dois lados. Segundo ele, a instabilidade atual tem efeitos diretos sobre comércio e investimentos.
Nas palavras de Abrão Neto: “Isso é inegável. Mas a imprevisibilidade é hoje quase que uma marca da conjuntura internacional, que tem a ver com um quadro comercial mais incerto, com o aumento do número de medidas restritivas ao comércio e om o enfraquecimento das regras multilaterais.”
Ele também argumenta que os dados comerciais desmontam qualquer narrativa de que o Brasil representaria um problema para os interesses americanos. Ao contrário, diz, o país gera superávits tanto na balança de bens quanto na de serviços para os Estados Unidos. Em 2024, o superávit americano na balança de serviços com o Brasil foi de US$ 21,8 bilhões, valor três vezes maior do que o obtido no comércio de bens.
Abrão Neto resumiu essa leitura em uma frase direta: “O Brasil é parte da solução e tem uma relação muito positiva no comércio com os Estados Unidos. Não é fonte de dificuldades.”
Pautas diferentes revelam dois modelos de inserção internacional
A comparação entre China e Estados Unidos mostra que o Brasil ocupa papéis muito distintos em cada relação bilateral. No caso chinês, prevalece uma lógica clássica de exportação de commodities e importação de manufaturados. No caso americano, a pauta exportadora brasileira é bem mais diversificada, com presença mais forte de produtos industrializados.
Abrão Neto destaca que, ao se observar cerca de 70% do que o Brasil exporta para os Estados Unidos, surgem 51 produtos diferentes, considerando a classificação NCM. No caso da China, são basicamente três grandes itens. Essa diferença revela o grau de concentração do comércio com os chineses e, ao mesmo tempo, a importância estratégica do mercado americano para segmentos mais sofisticados da produção nacional.
Como afirmou o presidente da Amcham: “Existe uma diversificação muito maior das exportações do Brasil para os Estados Unidos do que para qualquer outro parceiro comercial, inclusive a China.”
Essa constatação ajuda a explicar por que o tarifaço de Trump teve efeitos tão destrutivos sobre determinados setores produtivos brasileiros. Não se trata apenas de perda de valor exportado, mas de erosão de vínculos comerciais que exigem tempo, confiança, escala e adequação técnica.
Tendência para 2026 é de maior aproximação com a China e incerteza com os EUA
A perspectiva traçada pelos especialistas é de continuidade da aproximação comercial com a China em 2026, impulsionada pela demanda por soja e petróleo, pela expansão da produção brasileira e pelo contexto geopolítico internacional. Já na relação com os Estados Unidos, a palavra que prevalece é incerteza.
Ainda que parte das tarifas tenha sido reduzida por decisão judicial nos EUA, os danos acumulados ao longo de meses e a permanência de novas investigações indicam que a recuperação não será rápida. Nesse ambiente, o Brasil segue preso a uma contradição estrutural: amplia ganhos com a China, mas aprofunda um padrão primário-exportador; e perde espaço nos Estados Unidos justamente onde sua pauta era mais diversificada e industrializada.
O resultado é um reposicionamento comercial que não pode ser lido apenas como sucesso exportador. Ele também revela os limites da inserção internacional brasileira em um cenário cada vez mais tensionado por guerras comerciais, instabilidade geopolítica e enfraquecimento das regras multilaterais.


