Tarifas de Trump levam Brasil a reavaliar acordo parcial China–Mercosul
Pressão comercial dos EUA e ofensiva diplomática de Pequim mudam o cálculo em Brasília, enquanto Argentina de Javier Milei pode tentar frear as negociações
247 – O governo brasileiro passou a admitir, pela primeira vez, a possibilidade de impulsionar um acordo comercial parcial entre a China e o Mercosul, numa inflexão relevante em relação à posição tradicional de veto a tratativas mais formais com Pequim. A mudança ocorre num ambiente de maior instabilidade do comércio internacional, em meio ao avanço de tarifas anunciadas e aplicadas pelo governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e à disposição chinesa de ampliar seu raio de influência econômica.
Segundo a agência Reuters, que citou interlocutores do governo brasileiro, Brasília — historicamente receosa de uma abertura ampla por avaliar riscos para segmentos industriais e produtivos nacionais — começou a reconsiderar o tema diante das “ondas de tarifas” impostas pelos EUA e da promessa de Pequim de “laços comerciais mais profundos”. A avaliação interna é que a política tarifária norte-americana, ao encarecer fluxos e reorganizar cadeias, pode empurrar países e blocos regionais para novas alianças e instrumentos de proteção.
Recuo estratégico e pragmatismo comercial
A hipótese em discussão não é, ao menos por ora, a de um pacto amplo de livre comércio nos moldes tradicionais. O que surge no horizonte, conforme relatado, é um arranjo mais limitado, com escopo parcial e calibrado, capaz de avançar em frentes específicas — como facilitação de comércio, regras sanitárias, cooperação setorial e mecanismos de acesso a mercados — sem expor de imediato todos os setores às assimetrias de competitividade.
Nesse contexto, ganha peso a ideia de que a estratégia brasileira pode ser menos ideológica e mais defensiva: num mundo marcado por barreiras, medidas unilaterais e disputas geoeconômicas, o Mercosul precisa manter margem de manobra para diversificar parceiros, preservar exportações e reduzir vulnerabilidades. A China já é um dos principais destinos de produtos da região, especialmente commodities agrícolas e minerais, e vê no bloco um corredor político-institucional para consolidar previsibilidade e escala.
Ainda assim, o debate em Brasília continua atravessado por um dilema central: como buscar oportunidades de mercado e investimento sem ampliar desequilíbrios internos, sobretudo em cadeias industriais sensíveis, que temem competição de manufaturados chineses. É por isso que a expressão “acordo parcial” não é detalhe — é, na prática, o sinal de uma negociação fatiada, em que concessões e salvaguardas podem ser desenhadas com mais granularidade.
O “efeito Trump” e a reorganização das alianças
A reportagem aponta que a política tarifária norte-americana teve efeito catalisador ao provocar ruídos no comércio e acelerar reposicionamentos. Em vez de um cenário de liberalização crescente, o que se impõe é uma disputa por poder de barganha, com instrumentos protecionistas e negociações bilaterais ou minilaterais ganhando protagonismo.
Nesse novo tabuleiro, a percepção de risco é dupla. De um lado, a elevação de tarifas e o endurecimento de regras podem atingir diretamente exportações brasileiras e regionais, gerando perdas imediatas. De outro, a incerteza prolongada pode produzir efeitos mais profundos: deslocamento de investimentos, alterações em rotas logísticas e a necessidade de reposicionar acordos para sustentar competitividade.
É nesse ponto que a possibilidade de aproximação formal — ainda que parcial — com a China passa a ser tratada como “plausível” no longo prazo. Como registrou a Reuters: "Embora um acordo comercial formal e abrangente continue distante, dois funcionários do governo brasileiro afirmaram que um acordo parcial entre o Mercosul e a China passou a ser visto como um resultado plausível no longo prazo, impulsionado pelas tarifas dos EUA sobre produtos de parceiros comerciais, que desorganizaram o comércio global e redesenharam alianças comerciais".
A força dessa formulação está em reconhecer que o Brasil não está simplesmente “mudando de ideia”: está reagindo a um choque externo que altera incentivos, riscos e prioridades — e que tende a continuar pressionando decisões de política comercial.
Uruguai acelera e coloca o Mercosul em movimento
O sinal mais direto de aceleração recente veio do Uruguai. A viagem do presidente uruguaio Iamandu Orsí à China terminou com uma declaração conjunta em que Montevidéu e Pequim manifestam interesse em que as negociações de um acordo de livre comércio entre o país asiático e o Mercosul comecem "o mais rápido possível". A mensagem é clara: há pressa uruguaia e disposição chinesa, o que aumenta a temperatura interna do bloco.
Esse movimento tensiona a dinâmica tradicional do Mercosul, onde a regra do consenso frequentemente transforma a política comercial em um campo de vetos cruzados. Quando um sócio acelera, os demais precisam escolher entre acompanhar, travar ou propor uma rota intermediária. Um acordo parcial — com etapas, anexos e escopo definido — surge, então, como instrumento para evitar a paralisia completa: não é a saída ideal para todos, mas pode ser a saída possível para manter o bloco relevante.
Para o Brasil, há também um componente de liderança regional. Se o Mercosul se fragmenta em iniciativas isoladas, perde capacidade de negociação e reduz o peso coletivo. Se consegue construir um caminho comum — mesmo que gradual — preserva unidade e amplia poder de barganha diante de potências que operam com escala.
Argentina de Milei pode obstruir e reabrir disputas no bloco
A principal incógnita é política: a Argentina pode se mostrar reticente em apoiar, ao menos no curto prazo, negociações com a China dentro do Mercosul. Especialistas ouvidos pela Reuters apontaram que a proximidade de Buenos Aires com Washington sob o governo de Javier Milei tende a influenciar a postura argentina, sobretudo porque o presidente busca apoio dos EUA para suas reformas econômicas e para novos mecanismos de financiamento.
A possibilidade de obstrução argentina recoloca um velho problema do Mercosul: como compatibilizar estratégias nacionais divergentes sem esvaziar a integração regional. Se Buenos Aires enxergar custo diplomático em contrariar Washington, pode tentar atrasar discussões, impor condicionantes ou restringir o escopo das tratativas. Ao mesmo tempo, se Brasil e Uruguai avançarem na construção de uma agenda comum, a Argentina corre o risco de se isolar de um debate que pode redesenhar fluxos comerciais e oportunidades de investimento.
No meio desse impasse, a aposta brasileira num acordo parcial tem também função política: reduzir resistências internas e externas, oferecer uma “ponte” entre interesses conflitantes e manter aberta a possibilidade de convergência futura — sem prometer, agora, um salto que o bloco talvez não consiga sustentar.
O que muda para o Brasil e para o Mercosul
Se a reavaliação brasileira avançar, o debate sobre China–Mercosul tende a migrar do plano retórico para uma discussão concreta sobre setores, listas de exceção, regras de origem, compras governamentais, facilitação aduaneira e mecanismos de defesa comercial. E, nesse terreno, o Brasil terá de equilibrar três objetivos simultâneos: proteger segmentos estratégicos, ampliar mercados para exportações competitivas e preservar a coesão regional.
O pano de fundo é a reorganização da economia global em blocos, com tarifas, controles e disputas tecnológicas ocupando o centro da política internacional. O Mercosul, pressionado por parceiros e por interesses internos, vive um teste de relevância. Para Brasília, aceitar discutir um acordo parcial com a China não significa abandonar cautela: significa reconhecer que, sob o impacto das tarifas e das novas rivalidades, a inércia pode custar mais caro do que a negociação bem calibrada.


