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Brasil prepara leilão de baterias e abre nova corrida por armazenamento, com China em vantagem

Primeiro certame para baterias em escala de rede, previsto para abril, deve atrair gigantes chinesas já instaladas no setor elétrico

Brasil prepara leilão de baterias e abre nova corrida por armazenamento, com China em vantagem (Foto: © Soninha Vill/GIZ | Reuters)

247 – O Brasil deve realizar em abril seu primeiro leilão de eletricidade voltado a baterias em escala de rede, um marco para o armazenamento de energia no país e um novo campo de competição entre grandes players globais. Empresas chinesas — que já investem pesadamente no setor elétrico brasileiro — são vistas como candidatas naturais a liderar a disputa, possivelmente enfrentando nomes como Tesla e Petrobras.

A informação foi publicada pela Bloomberg, que aponta o leilão como mais uma oportunidade para companhias chinesas ampliarem presença no Brasil, apoiadas por experiência industrial, capacidade de fornecimento e participação já consolidada na infraestrutura energética nacional.

Leilão inaugura um mercado que começa a ganhar escala no Brasil

O governo brasileiro declarou que espera contratar 2 gigawatts (GW) de capacidade no leilão, criando um ponto de partida objetivo para um mercado que, até aqui, evoluiu mais por projetos pontuais do que por uma política estruturada. Segundo estimativas citadas pela Bloomberg, as adições anuais de armazenamento por baterias no Brasil podem chegar a cerca de 1,3 GW até 2030, indicando um ciclo de expansão consistente ao longo da década.

Na prática, o certame representa o reconhecimento de que a transição energética não depende apenas de ampliar eólica e solar, mas também de viabilizar flexibilidade no sistema. As baterias entram como peça central para reduzir desperdícios, estabilizar o despacho e tornar a energia renovável mais confiável, especialmente à medida que a participação dessas fontes cresce na matriz.

O “corte” de energia renovável vira conta bilionária — e baterias entram como solução

A aceleração global de solar e eólica trouxe um problema crônico aos sistemas elétricos: a restrição de geração (curtailment), quando usinas renováveis são obrigadas a reduzir ou interromper produção por falta de demanda, limitações da rede ou condições operacionais. Nesse contexto, baterias ajudam a absorver energia barata nos momentos de excesso e a devolvê-la ao sistema quando a demanda aumenta.

Segundo Vinicius Nunes, associado da Bloomberg baseado em São Paulo, em 2025 o Brasil perdeu em média cerca de 26% da geração solar e 19% da geração eólica devido ao curtailment. Esse desperdício poderia equivaler, por uma estimativa citada, a uma perda de 7 bilhões de reais. O número explicita por que o armazenamento deixa de ser “tendência” e passa a ser parte do cálculo econômico do setor.

Mesmo com uma base relevante de hidrelétricas — tradicionalmente associadas à flexibilidade — o país vê solar e eólica avançarem rapidamente, e a operação do sistema exige novas ferramentas. O leilão, portanto, tende a ser lido pelo mercado como um divisor de águas: ele organiza regras, dá previsibilidade ao investimento e acelera a formação de uma cadeia de projetos.

América Latina se mexe: Chile e Argentina já avançam, México anuncia expansão

O movimento brasileiro ocorre após outros países latino-americanos iniciarem contratação ou construção de projetos de baterias em escala de utilidade, de acordo com dados mencionados pela Bloomberg. O Chile é citado como um adotante precoce e planeja uma expansão significativa de baterias nos próximos cinco anos. A Argentina, por sua vez, concedeu 667 megawatts (MW) em seu primeiro leilão de armazenamento em setembro do ano passado, com capacidade prevista para entrar em operação até 2027. Já a estatal mexicana anunciou pelo menos 2,2 GW de armazenamento em seu plano de expansão de cinco anos.

O recado regional é claro: armazenamento virou infraestrutura estratégica. Para o Brasil, que reúne grande mercado, matriz renovável crescente e necessidade de reforçar confiabilidade, o tema tende a ganhar prioridade não só técnica, mas industrial — e, nesse ponto, a China aparece com vantagens competitivas difíceis de ignorar.

Por que a China chega forte: produção, escala e experiência de integração à rede

Entre 2007 e 2024, projetos do setor de energia representaram 45% dos investimentos da China no Brasil, totalizando US$ 35 bilhões, de acordo com o Brazil-China Business Council, organização sem fins lucrativos citada pela Bloomberg. Essa trajetória significa mais do que capital: indica presença, relacionamento institucional e aprendizado do funcionamento do mercado local.

Larissa Wachholz, sócia da consultoria Vallya, especializada em China, afirmou que empresas chinesas carregam vantagens importantes: elas lideram a produção global de baterias e, como grandes investidoras em energia renovável, já enfrentaram o desafio de integrar armazenamento a redes elétricas. Em suas palavras: “Já existe um grande número de empresas [chinesas] no Brasil que entendem o mercado de eletricidade e se sentem confortáveis em expandir seu papel para incluir a operação de sistemas de armazenamento”.

Tesla, Petrobras e integradores entram no jogo

Apesar do favoritismo atribuído às empresas chinesas no fornecimento de equipamentos, o leilão tende a ser disputado por uma variedade de atores. Entre os que enviaram contribuições durante a consulta pública estão Tesla, Petrobras e Axia Energia.

A Bloomberg aponta que empresas interessadas em atuar como integradoras de sistemas — combinando hardware, software e controles em um sistema de baterias — devem apresentar suas próprias propostas no leilão. Já companhias focadas em fornecer equipamentos devem se associar a outras para participar.

Mesmo assim, a expectativa do setor é que fabricantes chineses dominem o fornecimento de equipamentos, independentemente do vencedor final dos contratos.

“A China controla tudo”, diz associação brasileira de armazenamento

Markus Vlasits, chefe da associação brasileira de armazenamento de energia, Absae, resumiu o peso da cadeia produtiva chinesa em uma frase citada pela Bloomberg: “A China controla tudo, desde a fabricação das células [de bateria] até a produção dos insumos necessários para produzir essas células”.

Essa realidade reforça a percepção de que, mesmo quando projetos são liderados por empresas brasileiras, europeias ou americanas, a presença chinesa tende a se manter como fornecedora dominante de componentes essenciais.

Huawei mira leilão e amplia atuação no setor energético

Entre as afiliadas da Absae está a Huawei, que atua no Brasil há quase três décadas e pretende participar do leilão como fornecedora de equipamentos. Roberto Valer, diretor de tecnologia da Huawei Digital Power Brasil, afirmou: “Nossa abordagem é encontrar parceiros para trabalhar juntos e vencer o leilão”. Ele também alertou que o processo envolve complexidade logística e técnica, e não se resume a adquirir baterias no exterior: “Não é simplesmente uma questão de comprar uma bateria na China e esperar que ela chegue ao local designado com tudo correndo bem”.

Embora seja mais conhecida por telecomunicações, a Huawei expandiu seu papel no setor energético e na América Latina. A companhia forneceu inversores para fazendas solares na Argentina, sistemas de armazenamento para hospitais no Peru e infraestrutura de recarga para caminhões elétricos pesados no México. Segundo a Bloomberg, a consultoria Wood Mackenzie classificou a empresa como líder mundial na fabricação de inversores necessários para fazendas solares.

A reportagem também aponta que as vendas da divisão de energia da Huawei responderam por quase 10% da receita total da companhia em 2024. Mesmo sem produzir células de bateria — obtidas junto a parceiros globais —, a empresa atua no desenho e na fabricação da arquitetura dos sistemas, incluindo pacotes de baterias, sistemas de conversão de energia e software de gestão.

Alexandre Silveira atua para atrair empresas chinesas

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, foi descrito como diretamente envolvido na atração de companhias chinesas para o setor. A Bloomberg relata que ele esteve nesta semana na China, tendo o leilão como tema central em reuniões com Huawei, Contemporary Amperex Technology (CATL), Envision Energy e Sany Heavy Industry, entre outras.

Em nota à imprensa citada pela Bloomberg, Silveira declarou: “Tenho clareza sobre a importância dessa relação forte entre o Ministério de Minas e Energia e representantes dos setores de energia e mineração da China”.

Brasil não deve adotar o clima de “medo” de países ocidentais

A reportagem ressalta que muitos países ocidentais tratam equipamentos críticos fabricados na China como risco de segurança nacional. No entanto, para Vinicius Nunes, citado pela Bloomberg, o Brasil tende a não adotar a mesma postura: o país “provavelmente não verá empresas chinesas com esse tipo de temor”.

E, independentemente do resultado do leilão, ele avalia que o fornecimento de equipamentos será majoritariamente chinês. Como resumiu: a tendência é que “muito do equipamento de baterias” acabe vindo de empresas da China.

A partir do leilão de abril, o Brasil entra oficialmente na disputa global pelo armazenamento de energia, num momento em que o avanço acelerado das renováveis exige redes mais inteligentes, flexíveis e capazes de equilibrar oferta e demanda. A corrida por baterias está apenas começando — e a China, como indica a Bloomberg, chega largando na frente.

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